
À minha frente tenho o (não) defunto
Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa. É um monstro de quase 500 páginas que ninguém de bom senso irá ler na íntegra e que por conseguinte torna impossível uma material
cidadania europeia.
À nossa frente estão alguns meses durante os quais o pior do Tratado vai ficar intocado (tanto nos conteúdos como na dimensão) sem no entanto manter aquilo que ele tinha de melhor: o facto de se assumir a sua natureza constitucional.
Por imposição de Sarkozy, querem dizer-nos que é um tratado simplificado: é uma mentira.
Por imposição das chancelarias e das burocracias o que antes era mau mas pelo menos era discutido na rua vai continuar mau mas vai ser aprovado na secretaria.
Aquando da discussão sobre o Tratado Constitucional eu também defendi um texto simples, mas era para ser de facto um texto simples, o da Constituição. Todas as outras matérias - que não quero escamotear - poderiam eventualmente fazer parte do Tratado, mas não de uma Constituição. Confesso - não acho que a Declaração relativa às Ilhas Åland ou a Declaração relativa à Central Nuclear de Ignalina, na Lituânia ou ainda a Declaração relativa ao trânsito terrestre de pessoas entre a região de Kalininegrado e o resto da Federação da Rússia tenham de ser metidas ao barulho. Apresentar aos cidadãos um texto que defina a UE, a sua mecânica básica (básica) e um conjunto de direitos e deveres comuns que estabeleçam a cidadania europeia - era isto que eu queria.
Estou certo que comigo tenho uma boa parte dos cidadãos franceses de centro-esquerda que chumbaram o referendo. Creio ser esta a fatia do eleitorado que, sendo ideológica e temperalmente a mais europeísta, está a ser desbaratada com tanta imposição e tanto secretismo.
Em Portugal, já está mais que visto - os novos tratados não serão chumbados pelos eleitores. Porquê? Já todos percebemos. Não vai haver referendo para ninguém.