terça-feira, 17 de julho de 2007
Contra a Excepção Moral Polaca
Resultados das Intercalares

Preocupantes foram os resultados do PNR. Ainda não vi ninguém a reflectir sobre os seus resultados, mas a estratégia de visibilidade mediática do partido fascista está a dar frutos. De 798 passou para 1501 votos, de 0,28% para 0,77%. Exceptuando o MPT e o PPM que não se apresentaram nas últimas eleições, o PNR foi dos partidos que concorreram em 2005 o que teve, de longe, a maior subida, tanto em número absoluto de votos (703) como em percentagem relativa (+175%). Por regra sou defensor da tese do cordão sanitário - omiti-los para que percam relevância. Mas se a tendência de crescimento se confirmar, alguma coisa terá de ser feita.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Libertarianismo e Liberalismo - II - Tradição ou Modernidade
Libertarianismo e Liberalismo - I - O libertarianismo moderado de David Gauthier
- As much Land as a Man Tills, Plants, Improves, Cultivates, and can use the Product of, so much is his Property. […] God, when he gave the World in common to all Mankind, commanded Man also to labour, and the penury of his Condition required it of him. […] Nor was this appropriation of any parcel of Land, by improving it, any prejudice to any other Man, since there was still enough, and as good, left; and more than the yet unprovided could use.
John Locke, Two Treatises of Government, An Essay Concerning the True Original, Extent and End of Civil Government, capítulo V, Of Property
Gauthier socorre-se da interpretação que Nozick dá da cláusula de Locke e segundo a qual esta tem como objectivo não piorar a condição de ninguém – ou seja, que pelo facto de aceitar viver em sociedade, ninguém seja relegado para uma situação pior que a que tinha no estado de natureza. Caso contrário, e numa interpretação literal de Locke, poder-se-ía afirmar que a apropriação do que quer que fosse, seria proibida. Por outro lado, esta proibição de piorar o estado de alguém também tem de ter uma limitação; defendendo Locke a autopreservação, Gauthier completa a cláusula: a condição de não piorar a condição de ninguém face à natureza é limitada aos casos em que tal não implique um piorar da minha própria condição.
A cláusula lockeana consiste numa limitação ao exercício das liberdades; no entanto, ela não impede ou limita essas liberdades em si (o que seria inaceitável para um libertário). A diferença fundamental está em que, ao contrário do que sucede com Hobbes, em que a liberdade natural consiste em utilizar o nosso corpo e o corpo dos outros como nos aprouver, aqui a liberdade limita-se à utilização do nosso corpo. Assim, por um lado confirma-se o direito de cada um a utilizar o seu corpo e os seus poderes e por outro garante-se o direito exclusivo de cada um a utilizar o seu corpo sem ser coagido por outrem. Geram-se desta forma, ao invés de liberdades ilimitadas, direitos e deveres exclusivos.
O que Gauthier vem afirmar, é que sendo certo que ninguém merece as faculdades com que nasceu, ainda assim as capacidades naturais, o corpo e os seus poderes, são a única coisa que cada um traz para a sociedade. Desta forma, não podem estar excluídas da determinação do que cada um pretende obter da sociedade. Um princípio só pode definir imparcialmente o que cada um pode beneficiar com a sociedade se em contrapartida se souber o que cada um pode obter sem a sociedade. Não há sequer, nem pode haver, qualquer princípio de redistribuição, pois a única compensação que pode haver é a compensação pela partilha dos bens comuns (materiais), pois aí há uma distribuição provocada. Pelo contrário, a distribuição dos talentos (não se aceitando uma visão teísta, como a de Locke – e nem Hobbes, nem Gauthier, nem Rawls enveredam por esse caminho) não resulta de um plano divino; é um facto que não tem produtor – portanto, nenhum “culpado”, nenhuma vítima.
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Uma lady no Senado, uma louca na urna


Aplausos
Contra os Indultos Presidenciais
Irão e o Genocídio homossexual



Não sou um adepto fervoroso de tratamentos de choque. No entanto, de há uns dois meses para cá comecei a tomar conhecimento da situação da comunidade LGBT no Irão e creio que a dimensão do problema merece o recurso aos recursos mais extremos. Na sequência de posts e comentários lidos no Devaneios Desintéricos e no Arrastão, resolvi escrever este post.
Isto dava pano para mangas, pelo que vou apenas falar de quatro questões. Obrigatoriamente, a legal. Em segundo lugar, do que escapa às malhas da lei e da internet. Em terceiro, da situação dos refugiados e por último da situação dos transsexuais, consideravelmente distinta da dos homossexuais.
- O crime de sodomia é punida com morte, em forma a definir pelo juiz, no caso de se tratar de homens adultos e conscientes. Não adultos, 74 chicotadas. A homossexualidade feminina é punida com pelo menos 100 chicotadas, podendo ser aplicada a pena capital à terceira repetição. Exactamente a mesma punição tem o coito inter femora. A nudez com membros do mesmo sexo é punida com 100 chicotadas e os beijos com 60. Já agora, o Irão é o único país em todo o mundo que ainda executa crianças. Para além disso, a condenação de homossexuais é por vezes encapotada com alegações de rapto e de violação e não directamente pelo crime de sodomia. É um facto também que os números da perseguição às minorias sexuais estão abaixo da realidade: é impossível contabilizar, por exemplo, os números relativos aos crimes de honra.
Isto não significa que a vida homossexual esteja completamente anulada. Bem pelo contrário. Fica a reportagem da CBS (em três partes), transmitida em Fevereiro deste ano.
- Para além disso, a internet e os blogues têm contribuído para que haja, senão abertura política, pelo menos a criação de redes sociais e para que muitos lgbt possam começar a falar, em sentido próprio, de comunidade. No entanto o governo apercebeu-se dos perigos levantados pelos bloggers, nesta como em muitas outras questões (direitos das mulheres, pluralismo político, oposição ao regime) e começou a apertar o cerco. Os motores de busca têm filtros (de tal forma restritivos que por exemplo "les livres" é bloqueado devido à (muito vaga, parece-me, mas isso só reforça a ideia) semelhança com palavras da família "lésbica". Para além disso, para que os blogues não sejam bloqueados é necessário serem registados no sítio governamental samandehi.ir, onde devem ser fornecidos dados pessoais, nome de utilizador e palavra-passe da página. De resto, a organização paramilitar Basij, formada por jovens fundamentalistas fiéis ao governo costuma participar na vigilância de chats. Há casos nos quais homossexuais são seduzidos para encontros, acabando depois sendo espancados pelos membros da Basij. É estranho que num país tão fechado quanto o Irão a sociedade seja tão irreverente. Aliás, refugiados iranianos temem justamente pelos mais jovens: num país com uma população extremamente jovem e com uma geração que tem um hiato cultural tão grande face à dos pais atitudes menos prudentes podem ter resultados desastrosos. Em Maio do ano passado a polícia efectuou um raid a uma festa de aniversário que suspeitava juntar homossexuais. Os espancamentos foram brutais, não poupando as mulheres, uma delas com uma criança. Foram presas 87 pessoas, das quais 17 por conduta homossexual e consumo de álcool.
- Para fugir aos espancamentos, à tortura e à pena de morte há obviamente não só a fuga de resistentes políticos como também de homossexuais que não têm qualquer actividade política. Estima-se que todos os meses quatro a cinco homossexuais fujam do país. Em países como a Holanda ou a Suécia a questão tornou-se politicamente relevante devido à pressão de grupos LGBT, que exigiram que a deportação de homossexuais iranianos fosse parada. Para muitos, representa uma condenação à morte. Isso não impediu que um tribunal sueco decidisse em 2006 pela extradição de um homem, alegando que apesar de a lei islâmica aplicar terríveis penas sobre a homossexualidade, muitos gays iranianos conseguiam evitar maiores peridos vivendo de forma discreta e recatada (isto faz lembrar o discurso do CDS ou da Igreja). Do outro lado do Atlântico o Canadá dá melhores exemplos.
- Por fim, há a situação excepcional dos transexuais. Apesar da falsa ideia segundo a qual a vida para este grupo seja fácil no Irão, é um facto que logo no início da Revolução a questão foi colocada. Khomeini afirmava que para alguns casos, a mudança de sexo era ponderável. Não se trata obviamente de uma atitude de tolerância, mas de uma consequência da negação da homossexualidade. Aqui fica uma reportagem sobre um caso de alteração de sexo.
Dito isto, há apenas uma outra questão a ter em mente. As tácticas a empregar para combater esta situação não podem ser as mesmas que as aplicadas no Ocidente. Para além disso, a situação é delicada para a comunidade lgbt iraniana quando ocidentais criticam o Irão: os homossexuais daquele país passam a ser visto não apenas como criminosos e pecadores, mas também como traidores. O exemplo dado pelo Arrastão mostra o que se passa na Palestina. Há iranianos a viver nos Estados Unidos que já falam do mesmo fenómeno no Irão.
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