segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Ainda sobre o Ateísmo e o Laicismo
domingo, 9 de setembro de 2007
Acharão os ateus que deus é mau? Uma perspectiva liberal e kantiana
Antes disso, no entanto, gostaria apenas de dizer que há coisas que é preciso que fiquem claras. Eu não me coíbo de dizer o que entender a respeito das crenças num blogue, embora respeite e tenha noção que há espaços em que me devo calar. Para dar um exemplo muito concreto, recordo-me de há um ano um casal de amigos se ter casado pela igreja. O padre tinha um discurso reaccionário, e que noutras circunstâncias eu contestaria veementemente. Os meus amigos, quase todos ateus ou agnósticos mas todos ou quase todos muito menos "radicais" que eu cochichavam e criticavam em surdina o que o padre dizia. Eu e outro amigo, ele um convertido ao catolicismo, éramos os únicos que estávamos calados e atentos ao que o padre dizia. Em jeito de brincadeira, os meus amigos chegaram a perguntar-me se eu me estava a converter.
Aqui vão então as frases:
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A imagem de Deus, muitas vezes apresentada nestes blogs, é de um Deus mau, tirano e ainda para mais criado para oprimir e explorar as classes mais pobres e menos instruídas.
Ora aqui está uma coisa importantíssima. Não posso falar pelos outros, mas falo por mim. Eu sou ateu; mas o meu ateísmo é uma coisa pessoal. Não pretendo converter ninguém ao ateísmo. E acho a discussão "deus existe ou não" um pouco disparatada. Não há provas da existência de deus, e isso é tudo. Eu posso dizer que estão homenzinhos no meu computador que fazem com que ele funcione - mas posso prová-lo? Não. Portanto, ou acredito, ou não acredito. Não se pode discutir racionalmente sobre o assunto porque, ao contrário do que muitos crentes querem fazer crer, a crença é pura irracionalidade; admito que haja uma "racionalidade" na crença, mas não uma racionalidade pura. Será uma racionalidade estratégica, uma muleta para lidar com o esmagamento que a ideia de solidão ou de finitude ou de falta de significado que a existência pode ter, ou para garantir um cimento social, especialmente em sociedades imaturas e para as quais a ideia de uma comunidade composta por homens que são fins em si próprios e não meios para fins maiores simplesmente não cabe. É um utensílio, um meio, não uma verdade ou um facto.
Por conseguinte, posso até fazer pouco da crença de alguém, posso até dizer que determinada parte da crença é desumana e inaceitável, da mesma forma que os crentes dizem coisas inacreditáveis dos não-crentes ou de outros crentes. Isso é uma coisa. Eu trato disso a nível pessoal e gostava (embora saiba que é impossível) que todos os crentes mantivessem a sua crença e a sua crítica a outras crenças ou à descrença a um nível pessoal, privado. A nível político, sim, eu sou anticlerical. E como poderia não ser? Eu defendo um Estado laico. Portanto, qualquer tentativa de qualquer religião de tomar o poder será por mim combatida. Da mesma forma que se alguém tentasse declarar o Estado ateu seria por mim combatido. Eu defendo um Estado imparcial, um Estado que não conceda nenhum privilégio nem promova qualquer discriminação com base na crença ou descrença. O que pode e deve existir é a garantia de que os direitos dos indivíduos sejam garantidos. Ideologicamente identifico-me com o liberalismo e o radicalismo e portanto para mim a absoluta soberania do indivíduo sobre si próprio é (essa sim) sagrada. Portanto as religiões farão tudo o que entenderem, mas se quiserem defender que as mulheres sejam veladas, que as suas roupas sejam presas com cadeados, que a homossexualidade seja proibida, que a actividade bancária (usura) seja proibida, o Estado tem de intervir. Não por ser contra as religiões, mas porque a Modernidade e o Estado que as revoluções liberais instituíram serviram para libertar o indivíduo de todos os elementos opressivos. Eu compreendo que isto é algo abstracto, mas tentemos fazer o exercício da imparcialidade. Não é agirmos com os outros como gostaríamos que os outros agissem connosco, mas agir por forma a que os critérios da nossa acção permitissem a convivência pacífica de todos os seres racionais e, mais que isso, a criação de uma comunidade com valores realmente partilhados em que cada um fosse respeitado não pela sua força ou pela sua crença ou pelo seu sexo ou por qualquer outro critério, mas simplesmente por ser.
Portanto, e em resumo, sim, eu sou anticlerical - no sentido de laicista - e sou-o antes de ser ateu. Ateu é apenas uma propriedade do fenómeno Igor. Ser laicista é uma condição para se ser um verdadeiro cidadão.
Cada um deita-se na cama que faz
Agora que o óbvio parece começar a confirmar-se, alguém se espanta com o resultado? Alguém acha que se pode criar monstros e depois controlá-los? Por favor...
Se há coisa que merece ser comentada é a manipulação mediática. Estive horas pregado à SkyNews, incrédulo com o que ouvia, com o despudor com que os jornalistas acham que podem tecer comentários às notícias (ou criar as próprias notícias). Agora, a canalha? A canalha está sempre lá. Alguém já viu algum julgamento com um mínimo de mediatismo que não tivesse a canalha? Que interesse tem meia dúzia de pobres de espírito? Seriedade, haja seriedade!
Os McCann escolheram este caminho. Agora, percorram-no.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Habermas - A defesa de uma democracia racionalista
Em defesa do debate democrático, Habermas responde à cisão entre técnica e política (que segundo ele remonta a Hobbes, numa primeira instância, e a Weber numa segunda) escreve o ensaio Política Cientificada e Opinião Pública. Weber terá formulado uma cientificação da política mediante a especialização entre o real saber, técnico, entregue a peritos (burocratas e militares) e o instinto de poder (que depende de valores e convicções) entregue aos líderes políticos.
Esta separação torna-se vital para o quadro conceptual da resposta de Habermas na medida em que através dele são desenhados três modelos de relação entre técnica, política e opinião pública.
- No modelo decisionista a primazia pertence ao espaço das escolhas, das decisões, fundados por valores. O modelo decisionista continua a ser, em grande medida, o predominante. Contudo, ele não existe por si só, mas antes tem sido influenciado pelo modelo tecnocrático, permitindo a sua perpetuação na medida em que a hibridação entre os dois permite fundar-se na legitimidade política tradicional revista no seu plano axiológico através dos conhecimentos técnicos que vão sendo adquiridos.
- Já no modelo tecnocrático a hibridação desaparece na medida em que a decisão política é exclusivamente determinada pelos especialistas. O líder torna-se num mero executor da inteligência científica com um cargo vazio do poder que foi entregue à análise científica e à planificação técnica.
- A estes dois modelos, opõe Habermas o modelo pragmatista, que se baseia numa comunicação entre os cientistas (que aconselham) e os políticos (que atribuem tarefas). Esta comunicação é crítica por revelar os elementos ideológicos da dominação e é científica por procurar fundamentos no saber.
A opção de Habermas por um modelo pragmatista prende-se com o facto de, de entre os três modelos, apenas este envolver de forma compulsória os três elementos que tínhamos referido e no qual a opinião pública não tem acesso indirecto ao debate, antes sendo o verdadeiro elemento mediador. De facto, o decisionismo requer uma legitimação pela democracia, mas na sua forma pura pode cair simplesmente na irracionalidade (por hipótese, quando surgem governantes correspondentes ao ideal-tipo weberiano da liderança carismática). Já na tecnocracia, a questão da irracionalidade científica não se coloca – mas os técnicos ocupam todo o espaço deixado livre pelo corpo cívico elidido e sobrepõe-se ainda à política. A administração de cariz técnico inutiliza a vontade democrática. Pelo contrário, o modelo pragmático assenta numa opinião pública que recebe a informação científica e a partir dela define o modo como quer viver. Para a cientificação da política [em Habermas, por contraposição à proposta weberiana] é constitutiva a relação ente as ciências e a opinião pública.
Habermas - A recusa do cientificismo
O progresso técnico-científico não tem, para além disso, a formatação tradicional de ideologia, no sentido em que não tem nenhum projecto nem emancipatório nem repressivo do homem enquanto tal, ou pelo menos não o assume. Enquanto fundamento de legitimação de uma estrutura dominante, a ciência [surgindo como] um feitiço[3] esconde a sua verdadeira face; não é agressivamente repressiva porque reprime a emancipação antes que ela nasça. Satisfaz as necessidades materiais e, não sendo apenas ideologia, não sendo sistematizada, torna-se de certa forma inefável.
As sociedades enquadradas pelo novo Estado industrial galbraithiano põem menos ênfase nas questões normativas; não é a coerção dos comportamentos que se exerce, porque os comportamentos são controlados indirectamente por estímulos condicionados[4]. Pode-se assim excluir de qualquer questionamento a respeito da revalorização do capital e da distribuição das compensações: as duas variáveis da tecnocracia elevam-se acima da política, a tecnociência dispondo de um progresso autónomo e dela dependendo o crescimento económico. É assim compreensível que nas democracias modernas não estejam em causa as questões práticas, tornando-se as eleições meras decisões plebiscitárias acerca de equipas alternativas de administradores[5]. É ao desafio do apriorismo tecnológico, determinante de um apriorismo político (formulação utilizada por Marcuse em One-dimensional Man) que o autor pretende responder.
Habermas refere Huxley quando este afirma que é de alguma forma contraditório o facto de os cientistas, vivendo no mundo sem vida das abstracções controlem o mundo em que os homens têm o privilégio e estão condenados a viver. Afasta-se dele quando este afirma que a literatura deveria incorporar a linguagem científica, explicando que a ciência só tem relevância para o mundo social da vida através dos seus efeitos – não através da sua linguagem. A literatura, que seria por conseguinte um meio de formação privada não responde à questão fundamental; a tradução das informações científicas para a consciência prática[6] tem de ser realizada de modo diferente – na formação de vontade política.
Aqui, o autor define os conceitos de técnica (sistema em que a investigação e a técnica se encontram com a economia e a administração e são por elas retro-alimentadas) e de democracia (formas institucionalmente garantidas de uma comunicação geral e pública que se ocupa das questões práticas: de como os homens querem e podem conviver […]). Os dilemas colocados pela técnica não são resolúveis com mais técnica. São, outrossim, geríveis no seio de um inter-relacionamento entre saber e poder técnicos e saber e querer práticos. Para o autor, a dinâmica entre querer e poder já se realiza, mas fora do espaço público, fora do debate político e sem consciência política. Em oposição, a força libertadora da reflexão tem de pôr em contacto um querer esclarecido a respeito do progresso científico e um poder autoconsciente das suas implicações socio-políticas. Isto conduz-nos então às respostas ao desafio lançado pela tecnicização.
[1] Versão portuguesa, Edições 70, Lisboa, 2001
[2] Pág. 81
[3] Pág. 80
[4] Habermas exemplifica com o consumo, comportamento eleitoral e a utilização dos tempos livres. A crítica ao “condicionamento” não deixa de recordar a mais influente obra de Aldous Huxley.
[5] Pp. 73 e 74
[6] Pág. 101
Sustentabilidade e Auditoria - os critérios não-financeiros
Para o setor, pensar estratégico em termos de sustentabilidade é não poupar esforços para incorporar critérios socioambientais em seus planos de negócios. Os maiores auditores desse esforço serão nossos filhos, netos e bisnetos.
Oded Grajew, Instituto Ethos
Genética, Biotecnologia e uma nulidade chamada Bioética - o limite da decência

Pude ontem ver como, numa experiência independente (numa universidade), com duas populações de peixes da mesma espécie, metade geneticamente manipulada e metade não, ao fim de quarenta gerações (poucos anos no caso) a população não alterada foi extinta pelo ciclo de vida mais curto (os outros viviam menos e reproduziam-se mais) e grande violência dos peixes geneticamente manipulados.
Pude ver como o açafrão, condimento utilizado há incontáveis séculos na Índia com fins terapêuticos foi patenteado.
Pude ver como a pele de uma vaca foi-lhe retirada e enxertada num porco.
Há, enfim uma última questão e esta é desesperante. A reportagem terminava com um biólogo céptico (um dos poucos biólogos cépticos) relativamente a todas as aberrações que estão a ser realizadas. Referia ele que a única coisa que as empresas nunca discutiam, nunca rebatiam era a sua afirmação de que 95% dos especialistas nestas áreas estão directa ou indirectamente dependentes das empresas que são as principais interessadas (de resto, as únicas beneficiárias) na criação de OGM ou na manipulação genética do ser humano. Se as empresas não contestam é porque a realidade é ainda mais feia que a apresentada pelo biólogo em causa. E o problema maior é que se a totalidade dos especialistas estiver na dependência da indústria, então não há possibilidade de contraditório nem de discussão séria. Quaisquer dados que venham a surgir serão sempre inevitavelmente falseados. Ora, não há liberdade de escolha se não houver informação credível e não há informação credível se não houver liberdade intelectual, se a ciência estiver inteiramente dominada por interesses bastante particulares. Que poder tem o consumidor perante tal situação? Nenhum.
Não há rigorosamente nada que fique de pé. No fim, não é só o equilíbrio natural que é posto em causa; a própria democracia fica ameaçada de extinção.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Boas leituras - ainda os OGM e Silves
Isto (eu achar que a acção foi um disparate) não me impede de estar de acordo no combate aos OGM e de eu achar que temos alternativas bem mais viáveis que criar frankensteins versão leguminosa.










