sábado, 29 de setembro de 2007

Lógica da Batata

A laicidade ou secularidade do Estado é um real ganho da história e da civilização. Mas, se daqui partirmos [...] para concluir que não lhe deve dar condições de autodesenvolvimento e concretização comunitária, então estamos diante duma laicidade negativa, também designada por laicismo ou secularismo.
D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, através d'O Demente


A laicidade e a secularidade são boas, o laicismo e o secularismo são maus.
A democracia é boa, ser democrata é mau.
O Benfica está bem, ser benfiquista está mal.
Haver partidos é bom, ser de um partido é mau.

E poderíamos até dizer:
A Igreja Católica é boa, o catolicismo é mau.

É giro, é muita giro. Eles são espertos pá, bué espertos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A gente somos todos liberais

Roubo a etiqueta daquele sítio onde gostam tanto do MLS que citam o seu blogue desalmadamente porque li esta brilhante frase de Vital Moreira:
É já um lugar comum, mas nunca é demais dizê-lo. E é sempre tão bom lê-lo...
Ressalvo, no entanto, que discordo da alternativa criada pelo governo. Não aceito que uma iniquidade (o domínio da Igreja Catolica sobre os hospitais) seja substituída por uma iniquidade universalizada (o Estado pagar aos sacerdotes de todas as religiões). Não me oponho a que haja espaços multiconfessionais, mas daí a pagar recibos verdes vai uma grande distância.

Para mais tarde recordar

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Intervencionismo Conservador: Sarkozy e o Compromisso Portugal

Nicolas Sarkozy was at the Paris air show on a hot summer’s day in June when, in a speech laying out his vision for French industry, he threw out this simple phrase: “In economics, my only ideology is pragmatism.” Few outside France took note. But perhaps they should have done.
[...]
"When competition is useful, I am for it," Sarkozy said in his June speech, one of those frank confessions that have left a cloud of suspicion over the motives for his industrial activism.
To be fair to Mr Sarkozy he is not the only EU leader who can be accused of merely paying lip service to free market principles. Apart from France [...] the Spanish, Germans, Italians and even the British have had their moments of economic nationalism.
[...] unlike his distant predecessor Mr Colbert, Mr Sarkozy's freedom to intervene remains limited by EU competition and state rules [...].
Indeed, though Mr Sarkozy's strategy can be criticised as nationalistic, it does not appear to be aimed at reinforcing state control. For the end result of what seems to be a burst of government intervention in France is a significant reduction in the state's hold on industrial companies that traditionally have been seen as vital public assets.
[...]
Interestingly, many "Sarko watchers" note his almost uncompromising free market approach on domestic issues such as taxation and the labour market, while areas where he must bow to Brussels - such as competition - attract the most protectionist outbursts. [...]
Financial Times, 27 de Setembro

Habitualmente, quando pensamos em intervencionismo estatal pensamos em aumento do Estado e em socialismo. Esquecemo-nos que o Estado pode intervir de forma indirecta e que esse é o apelo próprio do conservadorismo. Sarkozy é o exemplo acabado deste intervencionismo conservador, em que apesar de haver uma redução do peso do Estado na economia, ele não prescinde (e pelo contrário incrementa) o seu poder sobre ela.
É uma posição cínica de que em Portugal tivemos o exemplo mirabolante do Compromisso Portugal, uma espécie de convento de beatos que nunca devem ter saído dos gabinetes e que, ao mesmo tempo que exigiam uma redução do Estado, pedinchavam o seu apoio aos seus negócios (aos seus empregos) sob o eufemismo de centros de decisão nacionais.
Este estatismo nacionalista deve ser desmascarado e separado de uma visão verdadeiramente liberal da economia. Menos Estado não significa menos (ou nenhuma) percentagem de acções estatais em empresas que funcionem em mercado concorrencial (ponho de parte os monopólios); significa isso mesmo, menos Estado, tanto no papel quanto nos actos, nas percentagens como nas relações face aos agentes.

Agarrem o homem

O Estado, através do Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social (IGFCSS), vai começar a gerir, a partir de 2008, contas individuais dos portugueses que o solicitarem ao Instituto da Segurança Social. Esta medida [...] torna o Estado num concorrente aos operadores privados que estão no mercado. [...]
"Em 2008, vamos avanças com o regime público de capitalização, para gestão de contas individuais", afirmou o secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques [...].
Jornal de Negócios, 26 de Setembro

Alguém me explica por que raio há-de o Estado meter-se nos PPR's? A sua função não é concorrer com as empresas - é fazer aquilo que elas não fazem. Na protecção social, a Segurança Social pública tem o importante papel de garantir que há uma parcela isenta de risco (ou com risco mínimo), composta pelo sistema de solidariedade intergeracional. A formas de capitalização são disponibilizadas às dúzias por empresas privadas e por mutualidades e quem as queira deve recorrer a estas instituições.
Não só o Estado se está a meter onde não pode como, pior ainda, onde não deve.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Critical Management Studies


Os estudos de gestão crítica têm, desde a publicação do livro de Mats Alvesson e Hugh Wilmott Critical Management Studies em 1992, representado uma corrente de pensamento e análise da gestão que simultaneamente se coloca aparte dos estudos tradicionais, “pró-managerialistas” mas que, ao contrário de muitos sectores que realizam um combate político e externo ao pensamento dominante nas escolas de gestão, está dentro dessas mesmas escolas. Trata-se, portanto, de uma visão crítica interna à gestão. Não se trata necessariamente de um ataque à gestão, mas antes de um ataque aos “dados adquiridos”, aos dogmas vigentes no meio.
A base da gestão crítica é a teoria crítica da Escola de Frankfurt (Horkheimer, Adorno, Marcuse, Habermas), pela sua defesa de indivíduos mais autónomos. Genericamente, um dos seus maiores contributos é a percepção de como trabalhadores e consumidores são condicionados para caberem nos parâmetros dos sistemas político e económico, em suma, de como os indivíduos são dominados, transformados por uma razão instrumentalizadora que os transforma em componentes de uma máquina. No entanto, a gestão crítica não se limita a Frankfurt, havendo autores que abordam a gestão a partir das obras de Deleuze, Derrida, Foucault (contraposto a Habermas, representando os dois os extremos da tensão entre distopia e utopia, tensão da qual, espera-se, algo de produtivo possa nascer).


Esta corrente opõe-se ao enquistamento doutrinário de uma suposta neutralidade mas que tem um forte pendor estratégico. Na gestão há uma pulsão tecnocrática que apresenta os gestores como os depositários da racionalidade empresarial (como se não estivessem eles próprios, como qualquer outra parte interessada, numa teia de interesses e objectivos muitas vezes conflituosos) e os únicos detentores de iniciativa, remetendo os restantes stakeholders para a posição de meros objectos/ meios. A posição de partida desta corrente é pois a de que esta área é demasiado poderosa e tem demasiados efeitos sobre empregados, consumidores e cidadãos em geral para ser entendida apenas numa lógica unívoca de meios e fins. A gestão e a economia, enquanto ciências sociais, são entendidas como tendo uma dimensão ético-política que está no seu núcleo principal; os seus objectos de estudo nascem em contextos específicos de relações de poder que podem eventualmente ser transformadas para desenvolver objectos diferentes.
Muitas vezes – e isso é visível mesmo nas teorias administrativas de base humanista – o objectivo da gestão é apenas obter empregados ou consumidores mais dóceis. Esta lógica deve, à luz da gestão crítica, ser combatida, submetendo a gestão a novas e mais amplas formas de prestação de contas. Muito para lá da mera produção de bens e serviços, o mundo empresarial influi sobre múltiplas facetas da vida humana; aceitar pacificamente a generalização do pensamento tecnocrático acarreta a consequência inevitável do colapso da democracia cívica (política). Aceitando-se que as lutas de poder ocorrerão sempre, afirma-se aqui que tão problemática é a sua negação como também a mera formalização de práticas de empowerment de outras partes interessadas, sem que se ponha em causa o discurso corrente – para lá da defesa da participação, a gestão crítica pretende pôr em causa muitos dos pressupostos em que se funda esta área do saber.


Desta forma, a gestão crítica pretende reunir um conjunto de temas base e de orientações de investigação e trabalho. Entre elas, contam-se o desenvolvimento de uma visão não objectivista das técnicas de gestão e dos processos organizacionais, o desnudar das relações assimétricas de poder, o ataque ao fechamento discursivo e à proliferação de “verdades” presumidas, o revelar da parcialidade dos interesses partilhados mas também dos conflitos (ao contrário dos marxistas, os autores desta área recusam a presunção de um conflito insuperável entre trabalho e capital) bem como, por fim, a revelação da centralidade da linguagem e da acção comunicativa, tanto nas relações que se estabelecem entre emissores e receptores, mas também nos significados historicamente construídos.

Polónia subtrai e segue

E que tal expulsá-los? Já começa a ser tempo.

domingo, 23 de setembro de 2007

Dois casos diferentes - Iraque e Afeganistão

Ao contrário do que é normal, a minha posição face a ambos os casos é diferente. Acho que as grandes diferenças entre ambos são essencialmente estas: o Iraque estava melhor com Saddam que está agora; o Afeganistão estava pior comos taliban que está agora. No entanto, estas são as diferenças posteriores, ou seja, resultantes da guerra. Se recuássemos 6 anos eu teria a mesma opinião que hoje tenho a respeito de ambos os casos e que é de resto a mesma que tive aquando de cada uma das invasões, e pelos mesmos motivos. Não é uma questão de casmurrice, é a realidade a confirmar a teoria.

Na sequência da guerra do Vietname os EUA, e nomeadamente os seus militares, tornaram-se bem mais cautelosos nas intervenções no exterior. Na senda das teorizações da "guerra justa", surgiu a Doutrina Powell, que para além de incluir aquilo que todos nós já conhecemos (a utilização massiça de força, para encurtar o período de guerra, com prévia utilização da força aérea), determinava que tinha de haver 5 requisitos a preencher e que eram todos imprescindíveis.
1- Só deve haver intervenção militar no exterior quando estão em causa interesses americanos
2- Deve ser apenas em último caso (último recurso)
3- O Congresso deve consentir expressamente, e a opinião pública deve concordar
4- Deve haver um mandato claro, limitado no tempo, no espaço e nos objectivos
5- Deve-se procurar aliados, coligações internacionais (multilateralismo)

Pegando nestes cinco princípios verificamos que o Afeganistão cumpria todos eles, ao contrário do Iraque. O resultado foi o que já referi: um melhorou, o outro piorou. E se é um facto que o Afeganistão não é hoje um país estável, livre, etc., etc., também é um facto que ninguém estava à espera que isso viesse a acontecer de imediato (o contrário do Iraque). Para além disso, o que algumas fontes militares também lamentam é que o Iraque esteja a absorver uma grande quantidade de recursos que com muito maior sucesso poderiam ser usados para pacificar de facto o Afeganistão.

sábado, 22 de setembro de 2007

A Paz e a polissemia do Comércio



comércio do Lat. commerciu
s. m., troca de valores ou de produtos com o fim de obter lucro; negócio; a classe comercial; conjunto dos estabelecimentos comerciais; tráfico;
fig., relações habituais; trato; convivência.


O comércio livre é um dos melhores instrumentos para a paz. Quando falamos em comércio esquecemo-nos um pouco da etimologia, que nos dá as duas dimensões dessa realidade. Por um lado, há a troca de bens; no entanto, para haver troca de bens tem de haver convivência (o outro significado possível da palavra). O convívio com o outro torna-nos mais tolerantes e a troca de bens faz-nos perceber que pode haver um jogo de soma superior a zero.

[Também pode suceder que haja pessoas que se estejam nas tintas para isso e que não têm problemas em fazer guerras para obter vantagens económicas, mesmo que a longo prazo isso dê mau resultado. Pessoas idiotas havê-las-á sempre, não nasceram com os neocons e a actual Administração Bush. ]

A flexigurança e os jovens

A flexigurança vai acabar com o incumprimento das leis laborais?
A evolução do mercado de trabalho cria situações que precarizam muito os jovens. Não posso dizer que isso seja não respeitar a lei laboral, mas utilizam situações em que a protecção e a posição dos jovens seja precarizada de forma a conceder maior flexibilidade para as decisões puramente económicas. Creio que o conceito de flexigurança vai diminuir esse espaço cinzento, de precariedade.

Vladimir Spidla, Comissário Europeu do Emprego e Assuntos Sociais,
em entrevista ao Semanário Económico, 21 de Setembro