terça-feira, 2 de outubro de 2007

Não te matamos, mas tens de te converter


[...] como podem ser toleradas todas as posições religiosas? Isso levaria a que as pessoas que têm posições religiosas que toleram o Aborto, a Pedofilia ou o Homicídio de Infiéis, tenham de ser toleradas.



O autor deste blog afinal é um humanista: apesar de defender que o Estado obrigue todos os cidadãos a guiar-se por uma mesma religião, ele não está a favor do assassinato dos não-crentes.

Que conclusão? Bom, a bem ou a mal, têm de ser convertidos. Não mortos, mas convertidos. Em último caso, manda-se os tipos para as masmorras.

Face a outros tempos, é uma evolução.

Católicos de todo o mundo: a aspirina tem de ir para a sanita


Precisamente o mesmo direito que uma pessoa de outra denominação religiosa tem de se deslocar a um hospital e dizer a um moribundo para este tomar uma dose de morfina e evitar o sofrimento da vida [e os disparates prosseguem].



Portanto, tomar ou não tomar anestesiantes é uma questão religiosa. Ficamos pois a saber que os católicos não se devem furtar aos sofrimentos desta vida e aceitar a obra de deus pacificamente. Portanto, aspirinas, trifenes, benurons e outras obras demoníacas que tais, tem tudo de ser arrasado.

Esperam-se manifestações massivas dos mais virtuosos portugueses em frente das suas farmácias de bairro a exigir a destruição de todos os analgésicos. Aliás, o próprio nome já denota a sua imoralidade: uma coisa cujo nome começa por "anal" só pode ser obra do Perro.


Isto anda tudo ligado pá, ai anda, anda!

Finalmente, um católico a falar verdade

Numa sociedade em que o Estado não tem qualquer directriz religiosa e se submete a legislar segundo os desejos da multidão, o laicismo e o secularismo são consequências lógicas e imediatas. [...] como podem ser toleradas todas as posições religiosas? Isso levaria a que as pessoas que têm posições religiosas que toleram o Aborto, a Pedofilia ou o Homicídio de Infiéis, tenham de ser toleradas, possam agir como desejam e possam espalhar a sua mensagem livremente (o Estado não deve imiscuír-se na religião da sociedade, segundo diz).
Finalmente um católico sério e honesto. Ou seja, completamente intolerante e demagógico, mas essa é a realidade inultrapassável do catolicismo levado a sério (e de qualquer religião levada a sério). O que o senhor bispo fez foi apresentar uma visão light e pós-moderna de um Estado confessional e encobri-lo sob a capa da laicidade. E isso é inaceitável. Ou somos pelo Estado laico (ou seja, neutro) ou não somos.
A comunidade fragmentar-se-ia num multiculturalismo amoral.
É curioso que para o autor do post em causa só haja duas alternativas: ou uma moralidade exclusiva e impositiva ou um estado de não-moralidade. Desde logo, amoralidade é coisa que não existe. Mas nunca é demais lembrar que podemos guiar-nos por uma moralidade racional, e não pelos disparates escritos e reescritos ao longo de 4000 ou mais anos.
O Senhor Dom Manuel Clemente acha que o secularismo e o laicismo são enormes progressos da civilização.
Esta frase está incorrecta. O que o bispo pós-moderno defende é a "laicidade", não o laicismo. Não percebeu? Eu também não. Ou melhor, percebemos os dois.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Não há um que se aproveite

[...] o laicicismo pretende retirar as ditas condições de desenvolvimento comunitário necessárias à igreja no papel social que se propõe.
Recentemente uma personagem chamada Migas disse que [uma] peça do DN brinda-nos com uma afirmação digna do Igor Caldeira a falar de “anarco-libertarianos” (n'O Demente). Quando eu escrevi aquele texto, até tinha achado que tinha esticado um poucochinho a corda: como os anarcaps e os conservadores andam todos misturados, estava (achava eu) a provocatoriamente tomar a parte pelo todo.
E não é que eu disse uma verdade pensando que estava a dizer um meio-disparate? Pois é. O FMS, um dos melhores exemplos de um anarcap, afinal esquece todo o seu objectivismo quando se trata da religião. Os liberais portugueses somam e seguem. Não há um que sobre.
Deixo uma frase de Ayn Rand, fundadora do objectivismo.
[F]aith and force. . . . are corollaries: every period of history dominated by mysticism, was a period of statism, of dictatorship, of tyranny.
Adenda
Conforme disse aqui eu faria a correcção do que escrevi caso me tivesse enganado e o Filipe mo explicasse. Ele de facto escreveu o seguinte
Não percebo porque este é um assunto de discórdia. É assim mesmo, nem há outra maneira de pôr a coisa.
É na verdade tão simples como isto.
Portanto, concordando com o Luís Lavoura e comigo em como o Estado não deve subsidiar os cultos religiosos. Confesso que permanece a minha dúvida sobre qual o significado de dizer que certo laicismo constitui obstáculo ao desenvolvimento comunitário das igrejas - no entanto, e isso é que é mais importante, ficou esclarecido que a posição do Filipe foi por mim mal interpretada. A minha correcção e as minhas desculpas, portanto.

Intervencionismo Conservador parte II - Comércio livre é para os pobres

Depois de bater na França de Sarkozy, vamos bater um bocado nos EUA de Bush.
Há cerca de dois anos, a administração norte-americama de George Bush decidiu engendrar um plano para tentar salvar a indústria automóvel do país, uma das mais fortes do mundo, mas a sofrer graves reveses com a concorrência europeia, japonesa e sul-coreana - e também com a persistência em colocar nos seus carros motores de grande consumo de combustível.
[...]
O conceito é simples: a indústria automóvel norte-americana comprometeu-se, com a mediação de Bush, a comprar componentes quase em exclusivo às empresas do país, sendo que estas reservavam para si a hipótese de adquirirem parte da produção nos países 'low cost' (China e Índia, principalmente).
[...]
Neste quadro, e faltando apenas que os componentes chineses e indianos "passem a dizer 'made in USA'", o mercado de exportação de componentes para os EUA acabou. "A Iberomoldes tinha um volume de negócios anual com os EUA de 12 a 15 milhões por ano. Em 2006 exportámos um milhão e este ano nada", revela Henrique Neto.
Diário Económico, 1 de Outubro

Os EUA são, ainda mais que a União Europeia, o principal defensor do comércio livre - mas livre deve ser entendido no sentido em que os conservadores entendem a palavra, e não no sentido próprio da palavra (como uma recente discussão demonstrou, os conservadores não se dão muito bem com as palavras). Ou seja, os EUA devem ser livres de exportar e de proibir que os outros possam exportar e os outros são livres de comer e calar.

Ainda sobre o Bispo da Batata

A resposta ao post no Blasfémias, da parte de um leitor:

Vejamos se eu percebi:
laicidade: O estado contribui generosamente para a igreja que não é oficial mas é maioritária. Afinal os crentes formam a grande maioria da população e , por misteriosos motivos, são incapazes de salvaguardar a salvação da sua alma pagando directamente do seu bolso.
laicismo: Radicalismo anti-clerical; perigosa perseguição religiosa onde cada cidadão contribui financeiramente da forma que melhor entende para que a sua igreja/religião cumpra todos os seus objectivos espirituais e mundanos.

Será preciso fazer um desenho?

sábado, 29 de setembro de 2007

Lógica da Batata

A laicidade ou secularidade do Estado é um real ganho da história e da civilização. Mas, se daqui partirmos [...] para concluir que não lhe deve dar condições de autodesenvolvimento e concretização comunitária, então estamos diante duma laicidade negativa, também designada por laicismo ou secularismo.
D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, através d'O Demente


A laicidade e a secularidade são boas, o laicismo e o secularismo são maus.
A democracia é boa, ser democrata é mau.
O Benfica está bem, ser benfiquista está mal.
Haver partidos é bom, ser de um partido é mau.

E poderíamos até dizer:
A Igreja Católica é boa, o catolicismo é mau.

É giro, é muita giro. Eles são espertos pá, bué espertos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A gente somos todos liberais

Roubo a etiqueta daquele sítio onde gostam tanto do MLS que citam o seu blogue desalmadamente porque li esta brilhante frase de Vital Moreira:
É já um lugar comum, mas nunca é demais dizê-lo. E é sempre tão bom lê-lo...
Ressalvo, no entanto, que discordo da alternativa criada pelo governo. Não aceito que uma iniquidade (o domínio da Igreja Catolica sobre os hospitais) seja substituída por uma iniquidade universalizada (o Estado pagar aos sacerdotes de todas as religiões). Não me oponho a que haja espaços multiconfessionais, mas daí a pagar recibos verdes vai uma grande distância.

Para mais tarde recordar

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Intervencionismo Conservador: Sarkozy e o Compromisso Portugal

Nicolas Sarkozy was at the Paris air show on a hot summer’s day in June when, in a speech laying out his vision for French industry, he threw out this simple phrase: “In economics, my only ideology is pragmatism.” Few outside France took note. But perhaps they should have done.
[...]
"When competition is useful, I am for it," Sarkozy said in his June speech, one of those frank confessions that have left a cloud of suspicion over the motives for his industrial activism.
To be fair to Mr Sarkozy he is not the only EU leader who can be accused of merely paying lip service to free market principles. Apart from France [...] the Spanish, Germans, Italians and even the British have had their moments of economic nationalism.
[...] unlike his distant predecessor Mr Colbert, Mr Sarkozy's freedom to intervene remains limited by EU competition and state rules [...].
Indeed, though Mr Sarkozy's strategy can be criticised as nationalistic, it does not appear to be aimed at reinforcing state control. For the end result of what seems to be a burst of government intervention in France is a significant reduction in the state's hold on industrial companies that traditionally have been seen as vital public assets.
[...]
Interestingly, many "Sarko watchers" note his almost uncompromising free market approach on domestic issues such as taxation and the labour market, while areas where he must bow to Brussels - such as competition - attract the most protectionist outbursts. [...]
Financial Times, 27 de Setembro

Habitualmente, quando pensamos em intervencionismo estatal pensamos em aumento do Estado e em socialismo. Esquecemo-nos que o Estado pode intervir de forma indirecta e que esse é o apelo próprio do conservadorismo. Sarkozy é o exemplo acabado deste intervencionismo conservador, em que apesar de haver uma redução do peso do Estado na economia, ele não prescinde (e pelo contrário incrementa) o seu poder sobre ela.
É uma posição cínica de que em Portugal tivemos o exemplo mirabolante do Compromisso Portugal, uma espécie de convento de beatos que nunca devem ter saído dos gabinetes e que, ao mesmo tempo que exigiam uma redução do Estado, pedinchavam o seu apoio aos seus negócios (aos seus empregos) sob o eufemismo de centros de decisão nacionais.
Este estatismo nacionalista deve ser desmascarado e separado de uma visão verdadeiramente liberal da economia. Menos Estado não significa menos (ou nenhuma) percentagem de acções estatais em empresas que funcionem em mercado concorrencial (ponho de parte os monopólios); significa isso mesmo, menos Estado, tanto no papel quanto nos actos, nas percentagens como nas relações face aos agentes.