sexta-feira, 21 de março de 2008

Vergonha

Sem comentários. E ainda vamos a ver se a professora não é punida.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Cinco anos depois

Com mau perder, absoluta incapacidade de reconhecer o seu erro, Pacheco Pereira afirmou ontem que não está provado que tivesse havido mentira deliberada, por parte da Administração Bush, no que concerne à existência de ADM's no Iraque de Saddam Hussein. Eu dou de barato que Barroso pudesse estar enganado. Acredito razoavelmente que Aznar também o tivesse sido. Tenho muitas dificuldades em acreditar que Blair de nada soubesse. Mas Bush? Bush (e entourage) foi o próprio foco da mentira; ao contrário do que Pacheco Pereira afirma, o que hoje se sabe é que qualquer funcionário que sequer colocasse a hipótese de no Iraque não haver as ditas armas tinha duas alternativas: ou se calava ou era posto de parte. A mesma coisa, de resto, que é feito hoje ainda com as questões ambientais.

O que daqui resulta é que qualquer estudo que se baseie em relatórios oficiais americanos é um estudo ferido de morte no que à credibilidade concerne. De facto a Administração só recebia informações que apontavam para a existência de ADM's. Mas isso era porque nenhum dos seus membros permitia que outra coisa lhe chegasse às mãos.

Parece-me perfeitamente aceitável que quem na altura se tenha declarado a favor da guerra acreditando nas informações falsas que eram transmitidas se sinta traído. Não me parece razoável continuar a fechar os olhos em face da realidade, brincando aos Bernardinos Soares desta vida.
Havia coisas previsíveis no desfecho desta guerra (ou melhor, no seu não-desfecho): quem pensasse um pouco na diferença abissal entre as previsões francesas da reacção dos povos ibéricos, e depois a reacção destes na sequência das invasões napoleónicas, concluirá que era impossível os iraquianos olharem para a invasão americana como uma libertação. Essa espécie de dogmatismo da liberdade (perdoem-me o oxímoro) estava historicamente falido há dois séculos, mas os americanos insistiram nele. Acharam realmente que um povo, por não gostar do seu ditador, iria preferir ser governado por estrangeiros.
E depois, claro, há a inevitável doutrina Powell. O absoluto desrespeito por uma doutrina prudente e parcimoniosa (como qualquer ideia boa ideia deve ser em matérias desta delicadeza) - empreendendo uma guerra que tinha a activa oposição (não apenas a discordância) do mundo inteiro e de uma grande percentagem de americanos e depois para cúmulo fazendo-o com o espírito leve e optimista com que o foi - podia apenas resultar nisto. Também aqui se tratou de um esquecimento de lições históricas (desta feita, o Vietname).

Em todo o caso há uma coisa em que concordo hoje com os republicanos: os Estados Unidos têm de ficar mais tempo no Iraque. Quanto, não sabemos, isso é problema deles. Eu compreendo que para os americanos que perdem os seus jovens na guerra tudo isto seja doloroso. Mas quando apoiaram a invasão e acusaram o mundo inteiro de estar contra eles, com ares de superioridade se afirmaram como exclusivos defensores da liberdade e acusaram os seus concidadãos anti-guerra de serem traidores do seu país, bom, nessa altura é que deviam ter pensado nisto. As guerras não são feitas por Rambos. São feitas por gente real, com carne a sério, sangue verdadeiro, bombas de metal, fogo que queima, balas que trespassam, explosões que matam. A questão é que não são só os "políticos" que são responsáveis: todos nós tomamos decisões políticas; quando votamos, sim, mas igualmente quando exprimimos uma opinião, tomamos uma atitude. Todos devemos ser responsáveis pelos nossos actos.

É curioso que afinal tantos americanos que atacaram com argumentos ad hominem os seus adversários sejam os verdadeiros cobardes. Enquanto a luta lhes pareceu fácil, eram a valentia em pessoa; quando a coisa deu para o torto, começam a querer os seus filhos back home. Os Estados Unidos cometeram o maior erro de sempre na sua política externa ao invadire o Iraque. Mas agora e se quiserem manter um mínimo de dignidade e de aparência de controlo sobre o mundo, terão de lá permanecer até que o Iraque não esteja em risco de se despedaçar numa guerra civil ou de tombar num regime teocrático. Ou seja, indefinidamente.
Parece, ao fim de contas, que não era a guerra que era infinita; a ocupação é que o vai ser.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Uma pia, parte 2


O Bloco está obcecado pelo poder?
Não. O Bloco é composto por pessoas que vêm de vários percursos e que não vão discutir a sua pertença ideológica.

Excerto de entrevista a Ana Drago na revista Única deste fim de semana


A questão que surgirá mais à frente, tal como hoje surge ao PSD é que fazer com um amontoado de gente que se uniu em torno de umas cores e não em torno de algumas ideias. E, se é certo que o BE não é hoje poder, certamente que aspira a ele. Ou, pelo menos, alguns dos seus membros aspirarão, porque outros pretendem manter o seu carácter anti-sistémico. O simples facto de nem sequer sobre esta questão tão simples poder haver uma resposta igualmente simples a respeito dos objectivos do partido (e hoje já se designam partido, quando há uns anos era apenas movimento - ao menos nisso já estão todos de acordo) faz já prenunciar um futuro dilema cujo travo já provámos com a coligação pós-eleitoral em Lisboa.


Tal como o PSD foi uma amálgama de gente para atingir o poder, o BE é uma amálgama de gente para contestar o poder. Mas quando (e se) o BE atingir uma representatividade verdadeiramente alargada (por exemplo se atingisse os dois dígitos, como aponta Ana Drago) o que irá fazer com esses votos e esses assentos parlamentares? Explodirá em novos partidozecos? Abrir-se-á à negociação? Esquecerá os poucos princípios em que tem assentado e do purismo passará ao pragmatismo?



Estas incógnitas são, creio, o que pende sobre qualquer grupo político que recuse agir como um funâmbulo, equilibrando-se com dificuldade sobre um núcleo duro de princípios muito bem delineados. Quem recusar fazê-lo cairá sempre ou no pragmatismo dos maquiavéis ou no ascetismo dogmático.

Um ou outro são, diga-se, péssimas estratégias de sobrevivência.

terça-feira, 18 de março de 2008

Uma pia


Da mera comunhão de estômagos não resulta uma pátria, resulta uma pia.
Guerra Junqueiro


Sobre a crise no PSD, o que eu escrevi há não muito tempo atrás resume na perfeição o que eu penso sobre o partido. E o drama da presente crise é de que não se trata de uma crise cíclica, mas de uma crise estrutural. O problema é que o PSD não tem, como tem o PS, uma identidade ideológica que o una. Portanto, arredados do poder, distintos grupos de interesse podem facilmente aniquilar-se mutuamente para ver quem fica com as jóias da família, os restos de um passado glorioso em que o dinheiro entrava a rodos numa espiral crescente que aliava empresários e apparatchiks, generosamente alimentados por um Estado cujo peso aumentava galopantemente. Essa cavalgada foi parando lentamente, manifestação e carga policial após manifestação e carga policial. Depois da desilusão guterrista o caminho parecia preparado para uma nova década de glória. Mas algo tinha mudado no país, ou o próprio PSD estava já mais frágil. E ao fim de três anos e dois governos, parece que o PS está para ficar.

O problema não é o PSD eventualmente ser uma federação de espaços ideológicos distintos. É que o PSD nunca teve uma ideologia: sempre foi uma federação de interesses. E, parafraseando Guerra Junqueiro, da união de estômagos não resulta um partido: resulta uma pia. E é por o PSD nunca ter passado de uma pia que se está a afundar no esterco.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Janeiro de 1975

O líder do PS/Porto, Renato Sampaio, manifestou-se hoje "apreensivo" com a possibilidade de ser convocada uma manifestação de professores para as imediações do pavilhão do Académico do Porto, no sábado, onde os socialistas realizarão um comício nacional.
Segundo o dirigente socialista, a manifestação está a ser convocada por SMS e por email "de forma anónima" e, a concretizar-se, poderá levantar problemas de segurança, já que o PS conta juntar no seu comício cerca de sete mil apoiantes. "Considero que uma manifestação convocada anonimamente com o objectivo de condicionar os socialistas é mais uma demonstração de práticas anti-democráticas", acusou Renato Sampaio. Para o dirigente do PS, "ao fim de 30 anos de democracia, situações como esta já não deviam acontecer".


Em tempos em que o país inteiro estava em convulsão e usar bombas era um argumento recorrente, tanto à esquerda como à direita, o CDS foi cercado no seu comício do Palácio de Cristal.

Não posso concordar com esta coisa de alguém ir tentar boicotar um comício de um partido rival. Acho mesmo escandaloso se for verdade - e muito perigoso. Imaginemos que de seguida os militantes do PS se reúnem e começam a cercar as sedes do PCP de cada vez que houver uma reunião desse partido. O efeito bola de neve seria inevitável.

Não me agradaria muito votar no PS em 2009, mas se for isso o necessário para dar uma lição ao PCP e fazê-lo ver que o Verão Quente já acabou, não hesitarei um segundo. Uma coisa é ter a liberdade de nos manifestarmos. Outra é termos o direito de provocar até conseguir a confrontação directa - e é isso mesmo que se pretende porque depois podem acusar o Governo, a polícia e o PS de serem fascistas. Quem se tenha dado ao trabalho de pegar nos velhinhos manuais de luta política de há 40 anos atrás (eu quando encontro relíquias desse tipo compro-as porque me dão gozo mas porque também me dão arrepios e me fazem pensar na sorte que tenho em ter nascido num país estabilizado e civilizado) percebe exactamente qual é o objectivo.

Mas... quando os empurrões começarem e daí descambarem para lutas corpo a corpo, e das lutas corpo a corpo se passar para as pedradas e sei lá que mais, poderemos de facto - honestamente, sinceramente - acreditar que a culpa não é dos que foram cercar o comício do partido rival? Ou muito me engano, ou este tiro vai sair pela culatra. Ou, pelo menos, assim espero. Dúvidas? Depois de mais de um ano de perseguições violentíssimas, o CDS passou de 7,61% em 1975 para 15,98% em 1976.

O PS, como partido com maioria absoluta que é, é muitas vezes arrogante. Mas não é com técnicas manhosas, manipulatórias e mal intencionadas que será derrotado. Será com argumentos válidos. E a força não é para mim válida; de facto, não é sequer um argumento.

Uma questão de ética

Irritam-me os programas de Responsabilidade Social da maior parte das empresas. Tratam-se normalmente de operações de marketing em que se distribuem uns cheques por umas instituições de caridade ou por umas associações quaisquer e está o assunto arrumado. Ninguém sabe quem fez nem porquê fez aquelas escolhas - a burocracia de cada empresa, os gestores, escolhem a seu bel-prazer.


A meu ver - e já aqui defendi isso - responsabilidade social de uma empresa é cumprir os seus objectivos ainda melhor que já os cumpre. Ou seja, desempenhar melhor a sua função social. E isso não é filantropia - ética não é caridade, é ética. Duas coisas à parte.


Por isso, é de louvar uma iniciativa como o Saldo Positivo, um sítio criado pelo programa de Responsabilidade Social da Caixa Geral de Depósitos, uma iniciativa verdadeiramente ética. Trata-se de um sítio que tem como objectivo promover a literacia financeira, tendo informações sobre contas, ppr's, fundos, seguros, empréstimos, impostos, etc., etc., etc..
Não se trata de umas meninas jeitosas em cerimónias pirosas a atribuir uns cheques tamanho gigante: trata-se de uma empresa do sector financeiro a disponibilizar informações user-friendly sobre o seu sector de actividade. É isto mesmo que é acção empresarialmente ética: dar ao consumidor o poder de fazer escolhas informadas.


Parabéns à CGD.

quinta-feira, 13 de março de 2008

VoteMatch - Grupos Políticos Europeus

Encontrei mais um daqueles testes políticos (há quem tenha a revista Maria e os seus testes sentimentais, eu gosto destes testezinhos), desta feita sobre o papel da União Europeia. Trata-se do VoteMatch e infelizmente não tem ligações para Portugal (trata-se de um teste suíço).

O objectivo é verificar qual a família política do Parlamento Europeu que mais se aproxima das nossas visões a respeito da União. A minha lista de preferências resultou em: (1)Liberais (estranho!), (2)Verdes, (3)Socialistas, (4)Esquerda Unitária, (5)Populares; no campo da pouca ou nenhuma concorância, naturalmente, as duas famílias anti-europeístas (6)Independência e Democracia e por fim (7)Europa das Nações.

Desgraçadamente para mim, as minhas duas primeiras escolhas não têm representação portuguesa.

Os Kac-qualquercoisa-zinsky ainda dão que falar

Um dos irmãos gémeos disse que está contra o voto electrónico porque não lhe agrada a ideia de ter jovens que vêem porno e videoclipes, enquanto bebem uma cerveja, a votar em tudo o que lhes apeteça.

Os polacos são uns invejosos. Lá porque nós temos umas local figures interessantes, como Jardim ou Valentim, eles tinham logo de arranjar um palhaço à escala nacional.

quarta-feira, 12 de março de 2008

República ou Monarquia - uma questão identitária

Ontem à noite escrevi um post que focava a questão da identidade e da protecção da autonomia individual no que à identidade cultural concerne. Nem de propósito, a RTPN transmitiu ontem novamente o debate no Prós&Contras sobre a ética republicana e os valores monárquicos (quem quiser em todo o caso vê-lo, ainda o pode fazer online).

O essencial do argumento dos monárquicos vem curiosamente (bom, na verdade não é curioso, porque o curioso foi eu ter escrito um post sobre o tema antes de ter visto o programa) de encontro à problemática da identidade. Como o rei "apenas reina, não governa" o seu papel é apenas o de manter a "identidade histórica" nacional, como "espírito vivo" do povo (assim uma espécie de Volksgeist versão personalizada e purificada pela consanguinidade excessiva). Em Portugal justificar-se-ia a monarquia devido ao seu passado histórico, porque essa é a identidade que lhe vem legada pela História, ao passo que em países como os Estados Unidos ou a Irlanda já não. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, o que é essa tal identidade historicamente construída? Temos de aceitar e manter tudo o que a História nos legou? A História nacional tem em si a perseguição aos mouros, aos judeus, a Inquisição, a escravatura, o colonialismo. Não consta que nos dias de hoje mantenhamos ou pretendamos recuperar tais legados. Portanto o argumento dos oito séculos de História é um mau argumento - embora seja o essencial do argumento dos monárquicos. Mas há mais, e mais determinante.

Em segundo lugar, e ultrapassando a questão quantitativa, vamos responder à questão qualitativa que já colocámos: o que é essa tal identidade historicamente construída? Os monárquicos pretendem utilizar a coroa como Cavalo de Tróia de uma série de outras coisas que os portugueses simplesmente não aceitam e nas quais não se revêem. Por exemplo, e Teixeira Pinto é a prova viva disso mesmo, pretende-se recuperar o ascendente político da Igreja sobre a sociedade e o Estado (ou, melhor ainda, e muito ao contrário do que os católicos muitas vezes dizem, pretende-se recuperar o ascendente religioso sobre a sociedade, através do Estado, porque na sociedade esse peso está já perdido). Teixeira Pinto afirmou e bem que nas eleições espanholas ganhou um partido socialista sem que a questão da monarquia seja colocada. Mas foi-o, e de uma forma que num país aberto, europeu e progressista como a Espanha já não se esperaria (pelo menos em relação ao catolicismo, dado que o islamismo está a trazer infeliz e novamente a questão) a questão do laicismo, com a Igreja Católica a fazer propaganda cerrada contra o PSOE e o governo de Zapatero. Ora, vejamos quem são os nossos monárquicos, o que defendem em termos de relações entre Estado e Igreja - eles têm uma concepção de identidade nacional que limitaria o poder de escolha dos indivíduos, a sua autonomia moral. Numa sociedade liberal nenhum indivíduo pode ser coagido a aceitar uma concepção de vida boa, ele próprio é livre de escolher a que melhor lhe parecer, desde que essa concepção não limite a liberdade alheia. Ora um país no qual o rei e a Igreja impusessem aos indivíduos uma identidade que já nos viria dada pela História seria claramente iliberal.

Em terceiro lugar, e passando da questão qualitativa para a material, concordo em grande medida com Teixeira Pinto quando diz que temos de olhar para a História de cada país para perceber o regime que melhor lhe cabe. Digo isto sem entrar em contradição com o segundo ponto, porque se num país a monarquia não for limitadora da autonomia individual e não for uma questão política premente não há motivo para se mudar de regime (Ribeiro Telles disse mesmo que nos países escandinavos não havia dramas com a monarquia porque na verdade eram repúblicas); ora, o mesmo poderíamos dizer das repúblicas e António Reis bem frisou que existe um quase consenso na sociedade portuguesa a respeito do regime, no qual 80 a 90% dos portugueses se revêem e ainda que não há qualquer questão constitucional noq ue ao regime respeita. Ora, é precisamente atendendo à nossa História e ao facto de entre nós a monarquia e os monárquicos serem ideologicamente orientados, pretendendo formatar moralmente o país, que a monarquia seria uma péssima opção para Portugal. E a comparação com a Espanha ou a Bélgica, ou até o Reino Unido, não poderiam ser piores: é que aí a monarquia realmente garante a unidade de territórios que de outra forma se desmembrariam. Tirando as loucuras de Alberto João Jardim (às quais de bom grado eu daria cobertura, tivesse ele coragem de seguir em frente - desde que nos deixasse ficar com Porto Santo) não consta que tenhamos problemas com regiões separatistas. Comparemo-nos com países cultural e geograficamente próximos: mediterrânicos e/ou católicos. À excepção da Espanha, que tem o problema da unidade nacional, Portugal, França, Itália e Grécia são repúblicas. Coincidência? Não; é efectivamente uma questão histórica e cultural.

Em suma, os monárquicos têm razão quando afirmam que temos de olhar para a nossa História. E é precisamente olhando para ela que percebo que é a república ou a barbárie.

Rawls, o Liberalismo e o Multiculturalismo

[…] autores como Dworkin, Charles Larmore o Rawls, han puesto especial empeño en intentar descubrir el núcleo moral del liberalismo […]. Y han creído encontrarla en la neutralidad del Estado, es decir, en la convicción de que un Estado liberal debe ser neutral a las distintas concepciones de hombre y de vida buena […]. A este tipo de liberalismo se denomina "liberalismo político". El liberalismo político renuncia abiertamente a considerar doctrinas filosóficas como las de Kant o Mill como adecuadas para componer la base ética de um Estado liberal, porque no son en modo alguno neutrales. La filosofía liberal kantiana considera que la esencia de la persona es la autonomia, y Mill subraya el carácter individual de los hombres […].
[…] entiendo que la forma ética propia del Estado debería ser la de un "liberalismo radical", dispuesto a defender como irrenunciable para una convivência pluralista la autonomia de los ciudadanos. […]
La autonomia – pese a Rawls – no esboza un proyecto de vida buena, sino que asegura únicamente que cada persona debe forjar su identidad […].

Adela Cortina, Ciudadanos del Mundo - Hacia una Teoria de la Ciudadanía,
"La Forma Ética del Estado: el Liberalismo Radical", pp. 203-206


Ler este excerto de Cortina provoca-me duas reacções:
- Por um lado, uma concordância absoluta com a autora no que concerne à concepção de Estado enquanto submetido a uma perspectiva que podemos designar de radicalmente liberal ou de liberalismo radical, que podem não ser encarados como coincidentes embora eu me incline nesse sentido (ou seja, eu ideologicamente revejo-me no radicalismo, que para mim é a forma radical – ou seja, a que mais respeita as raízes – do liberalismo);
- Por outro lado, causa-me alguma estranheza que uma defensora da procedimentalista ética do discurso, de mais a mais baseando-se na perspectiva puramente neokantiana de Karl-Otto Apel, e não na de Habermas, afirme que Rawls defende um Estado indiferente aos diversos tipos de vida boa.

De facto, poderá ser que Rawls afirme isso, como é bem verdade que o autor afirme que perante os intolerantes devemos ser tolerantes – no entanto, ele limita essa tolerância à condição de os intolerantes não concretizarem actos intolerantes. Será por ventura um terreno escorregadio este, mas é aquele em que pessoas tolerantes se devem colocar.
Como Cortina bem saberá, o procedimentalismo gera uma concepção que, não sendo de vida boa (não sendo compreensiva), obriga no entanto a que haja mínimos éticos que configuram aquilo que Rawls designará overlapping consensus. Em termos práticos isto significará que o liberalismo político, mesmo na formulação rawlsiana (direi mesmo – nela, mais ainda que em outras, devido à sua raiz kantiana), não será compatível com a indiferença face a qualquer prática cultural. Não significa isto que será inimigo de determinadas culturas, mas significará sem dúvida que muitos elementos das várias culturas (enquanto concepções de vida boa, sejam religiões, ideologias políticas, etc.) não serão toleráveis no seio de um Estado liberal, correspondam elas a grupos maioritários ou minoritários.

Numa perspectiva rawlsiana, nenhuma prática poderá ser aceite se não for coincidente com o que qualquer indivíduo dotado de razão (no sentido de "entendimento") escolheria numa posição original sob um véu de ignorância, ou seja, se esse indivíduo tivesse um absoluto desconhecimento de quais seriam - nomeadamente e para o que aqui interessa - as suas opções em termos religiosos, políticos, éticos, enfim, culturais. O que é claro aqui é que, se à partida podemos pensar que esta neutralidade é um mero relativismo, rapidamente concluímos que, tal como Apel nos diz - e nisto faz ele assentar parte da sua oposição a Habermas - um procedimento traz já uma carga moral que determinará boa parte do resultado final. A neutralidade é pois apenas uma imparcialidade no julgamento das diversas práticas culturais - não, repito, de culturas no seu conjunto, pois isso é o que fazem precisamente os comunitarismos, pelo menos os de direita; mas de práticas no seio de cada cultura. Elas ou obedecem, ou não obedecem, a critérios universais de racionalidade. Se não obedecerem são inaceitáveis e devem ser postas de parte. Se obedecerem, ou seja, se não forem obstáculos a outras práticas culturais ou, muito em especial, ao direito de os indivíduos não serem forçados a aceitar e adoptar tais práticas, então serão enquadráveis no seio do Estado liberal.

Estado liberal esse (e esta será a pedra de toque do tal liberalismo radical de que nos fala Adela Cortina) que não reconhece as diferentes culturas em si, não lhes reconhece dignidade em si, mas apenas aos indivíduos, à liberdade de construírem a sua identidade e de não serem forçados nem forçarem ninguém a prática alguma. A questão no Estado moderno é sempre esta, desde a sua génese - o Estado existe em função do Indivíduo, e só na medida em que o Estado sirva para garantir a liberdade do Indivíduo é ele aceitável. E, se isto é verdade para o Estado, sê-lo-á por maioria de razão para qualquer outra instituição humana, seja ela imediatamente construída por cada indivíduo, venha ela dada por um qualquer processo histórico. É isto que os comunitaristas (socialistas ou conservadores) não aceitam - esta centralidade do indivíduo, substituindo-a pelo Estado, a sociedade, as religiões - e que o liberalismo - o político e ainda mais o ético - defenderá como inegociável.