segunda-feira, 24 de março de 2008

O Tibete e os Jogos

Os jogos da vergonha

A liberdade económica é uma mão cheia de quase nada se estiver desacompanhada da dignidade da pessoa humana. A China tornou-se o maior exportador mundial. Esse êxito já foi apontado como o exemplo de que basta alguma liberdade económica para se alcançar um patamar político e jurídico equiparado aos melhores exemplos ocidentais. Erro fatal – confiar que o crescimento económico, por si só, é capaz de tudo mudar, até redimir os crimes contra a liberdade que se foram cometendo, constitui uma ilusão pueril.

A liberdade económica é uma mão cheia de quase nada se estiver desacompanhada da dignidade da pessoa humana. O liberalismo é um todo indivisível: preterir uma parte em favor da outra é reduzi-lo a uma coisa informe com alguma embalagem mas sem nenhum conteúdo. Esse é o melhor legado da tradição da Liberdade.

A China, embora cada vez mais rica, jaz sob um totalitarismo feroz. O regime chinês reprime os mais ténues sinais de liberdade, da política à religião, desde o direito de constituir família até ao acesso à internet. Mas se a ditadura chinesa violenta os seus próprios cidadãos é preciso lembrar que esmaga quotidianamente os tibetanos negando-lhes a sua cultura e a sua religião.O Comité Olímpico Internacional finge que nada de especial acontece. As nações que enchem o verbo em favor dos Direitos Humanos, incluindo Portugal, tentam disfarçar (mal) a sua insuportável conivência com o terror. Não lhes bastou 1936.

A tocha olímpica até vai passar pelo Tibete a caminho de Pequim: será o símbolo ardente da falta de vergonha a que o ideal olímpico chegou.


Carlos de Abreu Amorim
, Correio da Manhã

sexta-feira, 21 de março de 2008

Se é estúpido, não sei, mas liberal é que não é

[...] o Estado deve usar as suas leis para perguntar a uma pessoa que quer tatuar o corpo todo ou pôr 50 piercings se ela está boa da cabeça. Liberal mas não estúpido.


Ao contrário do que sucede com o tabaco, os piercings e as tatuagens só afectam as pessoas que os fazem. Se eu puser um piercing, ninguém vê a sua liberdade posta em causa. Se eu fumar um cigarro num espaço fechado e em que várias pessoas são forçadas por algum motivo a estar, estou a causar incómodo e dano à saúde de outras pessoas.

É, a esse respeito, muito bem apontada a crítica de Rui Tavares que Lomba refere. É que se pode haver excessos na lei anti-tabágica, então a lei anti-piercings e anti-tatuagens é uma perfeita aberração.

No entanto, o que Tavares não percebe é que este espírito paternalista e admiravelmundonovesco estava já todo contido em germe na luta antitabágica. E vai estender-se na luta contra os obesos (não, não é contra a obesidade, é contra os obesos, tal como a luta antitabágica é também mais contra os fumadores que contra o tabaco) e muitas outras coisas. Quando pomos o Estado a perguntar-nos se estamos bons da cabeça porque gostamos de fumar um cigarro, de ter tatuagens ou de comer uns brigadeiros de chocolate a mais, parar é difícil. Não sei se a estupidez é vício, mas o paternalismo sê-lo-á por certo.


PS - Não resisto a dizer já agora que os argumentos económicos muitas vezes usados, acusando os fumadores e os gordos de serem um peso para os serviços de saúde, que Combater a obesidade e o tabagismo pode salvar vidas mas não poupa dinheiro, revelaram esta terça-feira investigadores, assinalando que acaba por sair mais caro cuidar de uma cidadão saudável que viva muitos anos.

Vergonha

Sem comentários. E ainda vamos a ver se a professora não é punida.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Cinco anos depois

Com mau perder, absoluta incapacidade de reconhecer o seu erro, Pacheco Pereira afirmou ontem que não está provado que tivesse havido mentira deliberada, por parte da Administração Bush, no que concerne à existência de ADM's no Iraque de Saddam Hussein. Eu dou de barato que Barroso pudesse estar enganado. Acredito razoavelmente que Aznar também o tivesse sido. Tenho muitas dificuldades em acreditar que Blair de nada soubesse. Mas Bush? Bush (e entourage) foi o próprio foco da mentira; ao contrário do que Pacheco Pereira afirma, o que hoje se sabe é que qualquer funcionário que sequer colocasse a hipótese de no Iraque não haver as ditas armas tinha duas alternativas: ou se calava ou era posto de parte. A mesma coisa, de resto, que é feito hoje ainda com as questões ambientais.

O que daqui resulta é que qualquer estudo que se baseie em relatórios oficiais americanos é um estudo ferido de morte no que à credibilidade concerne. De facto a Administração só recebia informações que apontavam para a existência de ADM's. Mas isso era porque nenhum dos seus membros permitia que outra coisa lhe chegasse às mãos.

Parece-me perfeitamente aceitável que quem na altura se tenha declarado a favor da guerra acreditando nas informações falsas que eram transmitidas se sinta traído. Não me parece razoável continuar a fechar os olhos em face da realidade, brincando aos Bernardinos Soares desta vida.
Havia coisas previsíveis no desfecho desta guerra (ou melhor, no seu não-desfecho): quem pensasse um pouco na diferença abissal entre as previsões francesas da reacção dos povos ibéricos, e depois a reacção destes na sequência das invasões napoleónicas, concluirá que era impossível os iraquianos olharem para a invasão americana como uma libertação. Essa espécie de dogmatismo da liberdade (perdoem-me o oxímoro) estava historicamente falido há dois séculos, mas os americanos insistiram nele. Acharam realmente que um povo, por não gostar do seu ditador, iria preferir ser governado por estrangeiros.
E depois, claro, há a inevitável doutrina Powell. O absoluto desrespeito por uma doutrina prudente e parcimoniosa (como qualquer ideia boa ideia deve ser em matérias desta delicadeza) - empreendendo uma guerra que tinha a activa oposição (não apenas a discordância) do mundo inteiro e de uma grande percentagem de americanos e depois para cúmulo fazendo-o com o espírito leve e optimista com que o foi - podia apenas resultar nisto. Também aqui se tratou de um esquecimento de lições históricas (desta feita, o Vietname).

Em todo o caso há uma coisa em que concordo hoje com os republicanos: os Estados Unidos têm de ficar mais tempo no Iraque. Quanto, não sabemos, isso é problema deles. Eu compreendo que para os americanos que perdem os seus jovens na guerra tudo isto seja doloroso. Mas quando apoiaram a invasão e acusaram o mundo inteiro de estar contra eles, com ares de superioridade se afirmaram como exclusivos defensores da liberdade e acusaram os seus concidadãos anti-guerra de serem traidores do seu país, bom, nessa altura é que deviam ter pensado nisto. As guerras não são feitas por Rambos. São feitas por gente real, com carne a sério, sangue verdadeiro, bombas de metal, fogo que queima, balas que trespassam, explosões que matam. A questão é que não são só os "políticos" que são responsáveis: todos nós tomamos decisões políticas; quando votamos, sim, mas igualmente quando exprimimos uma opinião, tomamos uma atitude. Todos devemos ser responsáveis pelos nossos actos.

É curioso que afinal tantos americanos que atacaram com argumentos ad hominem os seus adversários sejam os verdadeiros cobardes. Enquanto a luta lhes pareceu fácil, eram a valentia em pessoa; quando a coisa deu para o torto, começam a querer os seus filhos back home. Os Estados Unidos cometeram o maior erro de sempre na sua política externa ao invadire o Iraque. Mas agora e se quiserem manter um mínimo de dignidade e de aparência de controlo sobre o mundo, terão de lá permanecer até que o Iraque não esteja em risco de se despedaçar numa guerra civil ou de tombar num regime teocrático. Ou seja, indefinidamente.
Parece, ao fim de contas, que não era a guerra que era infinita; a ocupação é que o vai ser.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Uma pia, parte 2


O Bloco está obcecado pelo poder?
Não. O Bloco é composto por pessoas que vêm de vários percursos e que não vão discutir a sua pertença ideológica.

Excerto de entrevista a Ana Drago na revista Única deste fim de semana


A questão que surgirá mais à frente, tal como hoje surge ao PSD é que fazer com um amontoado de gente que se uniu em torno de umas cores e não em torno de algumas ideias. E, se é certo que o BE não é hoje poder, certamente que aspira a ele. Ou, pelo menos, alguns dos seus membros aspirarão, porque outros pretendem manter o seu carácter anti-sistémico. O simples facto de nem sequer sobre esta questão tão simples poder haver uma resposta igualmente simples a respeito dos objectivos do partido (e hoje já se designam partido, quando há uns anos era apenas movimento - ao menos nisso já estão todos de acordo) faz já prenunciar um futuro dilema cujo travo já provámos com a coligação pós-eleitoral em Lisboa.


Tal como o PSD foi uma amálgama de gente para atingir o poder, o BE é uma amálgama de gente para contestar o poder. Mas quando (e se) o BE atingir uma representatividade verdadeiramente alargada (por exemplo se atingisse os dois dígitos, como aponta Ana Drago) o que irá fazer com esses votos e esses assentos parlamentares? Explodirá em novos partidozecos? Abrir-se-á à negociação? Esquecerá os poucos princípios em que tem assentado e do purismo passará ao pragmatismo?



Estas incógnitas são, creio, o que pende sobre qualquer grupo político que recuse agir como um funâmbulo, equilibrando-se com dificuldade sobre um núcleo duro de princípios muito bem delineados. Quem recusar fazê-lo cairá sempre ou no pragmatismo dos maquiavéis ou no ascetismo dogmático.

Um ou outro são, diga-se, péssimas estratégias de sobrevivência.

terça-feira, 18 de março de 2008

Uma pia


Da mera comunhão de estômagos não resulta uma pátria, resulta uma pia.
Guerra Junqueiro


Sobre a crise no PSD, o que eu escrevi há não muito tempo atrás resume na perfeição o que eu penso sobre o partido. E o drama da presente crise é de que não se trata de uma crise cíclica, mas de uma crise estrutural. O problema é que o PSD não tem, como tem o PS, uma identidade ideológica que o una. Portanto, arredados do poder, distintos grupos de interesse podem facilmente aniquilar-se mutuamente para ver quem fica com as jóias da família, os restos de um passado glorioso em que o dinheiro entrava a rodos numa espiral crescente que aliava empresários e apparatchiks, generosamente alimentados por um Estado cujo peso aumentava galopantemente. Essa cavalgada foi parando lentamente, manifestação e carga policial após manifestação e carga policial. Depois da desilusão guterrista o caminho parecia preparado para uma nova década de glória. Mas algo tinha mudado no país, ou o próprio PSD estava já mais frágil. E ao fim de três anos e dois governos, parece que o PS está para ficar.

O problema não é o PSD eventualmente ser uma federação de espaços ideológicos distintos. É que o PSD nunca teve uma ideologia: sempre foi uma federação de interesses. E, parafraseando Guerra Junqueiro, da união de estômagos não resulta um partido: resulta uma pia. E é por o PSD nunca ter passado de uma pia que se está a afundar no esterco.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Janeiro de 1975

O líder do PS/Porto, Renato Sampaio, manifestou-se hoje "apreensivo" com a possibilidade de ser convocada uma manifestação de professores para as imediações do pavilhão do Académico do Porto, no sábado, onde os socialistas realizarão um comício nacional.
Segundo o dirigente socialista, a manifestação está a ser convocada por SMS e por email "de forma anónima" e, a concretizar-se, poderá levantar problemas de segurança, já que o PS conta juntar no seu comício cerca de sete mil apoiantes. "Considero que uma manifestação convocada anonimamente com o objectivo de condicionar os socialistas é mais uma demonstração de práticas anti-democráticas", acusou Renato Sampaio. Para o dirigente do PS, "ao fim de 30 anos de democracia, situações como esta já não deviam acontecer".


Em tempos em que o país inteiro estava em convulsão e usar bombas era um argumento recorrente, tanto à esquerda como à direita, o CDS foi cercado no seu comício do Palácio de Cristal.

Não posso concordar com esta coisa de alguém ir tentar boicotar um comício de um partido rival. Acho mesmo escandaloso se for verdade - e muito perigoso. Imaginemos que de seguida os militantes do PS se reúnem e começam a cercar as sedes do PCP de cada vez que houver uma reunião desse partido. O efeito bola de neve seria inevitável.

Não me agradaria muito votar no PS em 2009, mas se for isso o necessário para dar uma lição ao PCP e fazê-lo ver que o Verão Quente já acabou, não hesitarei um segundo. Uma coisa é ter a liberdade de nos manifestarmos. Outra é termos o direito de provocar até conseguir a confrontação directa - e é isso mesmo que se pretende porque depois podem acusar o Governo, a polícia e o PS de serem fascistas. Quem se tenha dado ao trabalho de pegar nos velhinhos manuais de luta política de há 40 anos atrás (eu quando encontro relíquias desse tipo compro-as porque me dão gozo mas porque também me dão arrepios e me fazem pensar na sorte que tenho em ter nascido num país estabilizado e civilizado) percebe exactamente qual é o objectivo.

Mas... quando os empurrões começarem e daí descambarem para lutas corpo a corpo, e das lutas corpo a corpo se passar para as pedradas e sei lá que mais, poderemos de facto - honestamente, sinceramente - acreditar que a culpa não é dos que foram cercar o comício do partido rival? Ou muito me engano, ou este tiro vai sair pela culatra. Ou, pelo menos, assim espero. Dúvidas? Depois de mais de um ano de perseguições violentíssimas, o CDS passou de 7,61% em 1975 para 15,98% em 1976.

O PS, como partido com maioria absoluta que é, é muitas vezes arrogante. Mas não é com técnicas manhosas, manipulatórias e mal intencionadas que será derrotado. Será com argumentos válidos. E a força não é para mim válida; de facto, não é sequer um argumento.

Uma questão de ética

Irritam-me os programas de Responsabilidade Social da maior parte das empresas. Tratam-se normalmente de operações de marketing em que se distribuem uns cheques por umas instituições de caridade ou por umas associações quaisquer e está o assunto arrumado. Ninguém sabe quem fez nem porquê fez aquelas escolhas - a burocracia de cada empresa, os gestores, escolhem a seu bel-prazer.


A meu ver - e já aqui defendi isso - responsabilidade social de uma empresa é cumprir os seus objectivos ainda melhor que já os cumpre. Ou seja, desempenhar melhor a sua função social. E isso não é filantropia - ética não é caridade, é ética. Duas coisas à parte.


Por isso, é de louvar uma iniciativa como o Saldo Positivo, um sítio criado pelo programa de Responsabilidade Social da Caixa Geral de Depósitos, uma iniciativa verdadeiramente ética. Trata-se de um sítio que tem como objectivo promover a literacia financeira, tendo informações sobre contas, ppr's, fundos, seguros, empréstimos, impostos, etc., etc., etc..
Não se trata de umas meninas jeitosas em cerimónias pirosas a atribuir uns cheques tamanho gigante: trata-se de uma empresa do sector financeiro a disponibilizar informações user-friendly sobre o seu sector de actividade. É isto mesmo que é acção empresarialmente ética: dar ao consumidor o poder de fazer escolhas informadas.


Parabéns à CGD.

quinta-feira, 13 de março de 2008

VoteMatch - Grupos Políticos Europeus

Encontrei mais um daqueles testes políticos (há quem tenha a revista Maria e os seus testes sentimentais, eu gosto destes testezinhos), desta feita sobre o papel da União Europeia. Trata-se do VoteMatch e infelizmente não tem ligações para Portugal (trata-se de um teste suíço).

O objectivo é verificar qual a família política do Parlamento Europeu que mais se aproxima das nossas visões a respeito da União. A minha lista de preferências resultou em: (1)Liberais (estranho!), (2)Verdes, (3)Socialistas, (4)Esquerda Unitária, (5)Populares; no campo da pouca ou nenhuma concorância, naturalmente, as duas famílias anti-europeístas (6)Independência e Democracia e por fim (7)Europa das Nações.

Desgraçadamente para mim, as minhas duas primeiras escolhas não têm representação portuguesa.

Os Kac-qualquercoisa-zinsky ainda dão que falar

Um dos irmãos gémeos disse que está contra o voto electrónico porque não lhe agrada a ideia de ter jovens que vêem porno e videoclipes, enquanto bebem uma cerveja, a votar em tudo o que lhes apeteça.

Os polacos são uns invejosos. Lá porque nós temos umas local figures interessantes, como Jardim ou Valentim, eles tinham logo de arranjar um palhaço à escala nacional.