segunda-feira, 31 de março de 2008

Dalai Lama apela à violência


Ora aqui está a prova indelével de que os monges budistas são uns malandros. Até se mascaram de soldados chineses. Certo?

Bom, isso é pelo menos o que o PCP deve dizer aos seus militantes.

domingo, 30 de março de 2008

Make Porn, Not War?

Se queremos realmente corroer as ditaduras asiáticas e islâmicas, então, convém fazer duas coisas: deixar a arrogância moral de Kant no baú e colocar a subversão sexual de Sade no centro da ofensiva. Eles, chineses e muçulmanos, chegam sozinhos a Kant depois de provarem o sabor de Sade.

Henrique Raposo, Expresso

A ideia não é nova, mas surge em moldes novos. Aliás, não poucos neokantianos (e não só - entre nós Silvestre Pinheiro Ferreira, um benthamiano, e o luso-americano la Figanière foram os primeiros a defendê-lo ainda no século XIX) atribuem ao comércio internacional um papel preponderante na construção da Paz Perpétua. O que é que o livre-cambismo tem que ver com a pornografia? Tudo! Dinheiro e sexo sempre andaram de par. Pelo menos, desde o dinheiro foi inventado. Dinheiro e sexo, esse binómio odiado pelos moralistas que servem de base a qualquer estrutura de poder retrógado - no seio da qual dinheiro e sexo normalmente correm livremente, apesar da retórica propalada para o resto da sociedade - são os motores da construção do indivíduo na sua passagem do estado infantil de submissão a um Todo superior a um estado moralmente adolescente de onanismo. Ou seja, de egoísmo. O adolescente é o indivíduo que nasce e se afirma, e ele só o pode fazer disruptivamente, por negação, por egoísmo. E, depois de satisfeito o corpo, estamos prontos para satisfazer a alma. Essa é a fase adulta
O Todo supera-se pela subjectividade do Eu; e o Eu supera-se pela dessubjectivação do Eu, ou seja, pelo Cada Um.

Naturalmente, convém chegar à fase adulta; à sublimação, à maturação e à superação do egoísmo, forma defeituosa de individualismo, ou seja, à comprensão do Outro como um Eu. Mas se quisermos passar directamente da infância para a idade adulta, o mais provável é que permaneçamos ou eternas crianças (esses são os povos subjugados pelas ditaduras que Henrique Raposo refere) ou eternos adolescentes (estas são as oligarquias paternalizadoras de sempre, as das ditaduras e não só; não é por acaso que os políticos mais moralistas são tendencialmente os mais depravados).

Não sei se Kant era arrogante, mas sei que Kant não olhava para os homens como adolescentes. E, por isso, não tinha pelo menos a arrogância de achar que deveriam apenas cuidar das suas necessidades físicas, impondo-lhes uma ontologia pessimista (ou realista, ou objectiva, como alguns arrogantemente afirmam) ao jeito de outras correntes filosóficas. Isto permite-nos não confundir a árvore com a floresta - a existência de um mercantilismo chinês não significa que a China deva ser tratada como se fosse uma democracia liberal. Não perder isso de vista é crucial. E permite, entretanto, mantendo a ideia reguladora em mente, trabalhar na aproximação a esse ideal das sociedades fundadas em indivíduos autónomos começando pela construção do indivíduo, capaz de se reconhecer e aos seus interesses. A seu tempo, o indivíduo descobrirá os outros indivíduos, igualmente dotados de interesses e por isso igualmente dignos de usufruir do dinheiro, do sexo, da música, da literatura, da televisão, da internet, etc..

Postas estas salvaguardas, concordo com o repto; sempre me pareceu disparatado o embargo a Cuba. Se queremos que o regime caia, então inundemo-los de turistas e de produtos, importemos tudo o que pudermos. Os cubanos por si próprios, depois de terem convivido com ocidentais e de terem feito dinheiro contrabandeando tudo o que puderem, farão a escolha. E o mesmo vale para qualquer outra ditadura. A liberdade nasce da corrupção dos mecanismos opressivos.

sábado, 29 de março de 2008

Dialéctica anti-individualista em cinco momentos

[na sequência deste debate]

Momento reaccionário 1 - Conservadorismo e Absolutismo
A sociedade é um todo orgânico e por isso é superior às suas partes. O corpo não podem ter mais que uma cabeça. Dentro deste corpo há vários órgãos que agrupam os indivíduos; em função do órgão a que pertençam os indivíduos, assim deverão ser eles distinguidos. Eles não são todos iguais. Os Estados Sociais devem representar cada uma das ordens.

Momento revolucionário 1 - Socialismo
A sociedade é um todo orgânico e por isso é um todo superior às suas partes. Os indivíduos são todos iguais de direito e devem sê-lo também de facto. O sistema representativo burguês reproduz uma ficção atomista da sociedade e deve ser substituído por uma representação de classe. O que deve prevalecer é o interesse egoísta de cada classe ou de uma classe em particular.

Momento reaccionário 2 - Corporativismo e Fascismo
A sociedade é um todo orgânico e por isso é superior às suas partes. O Estado deve aglutinar todas as ordens, classes e demais forças sociais, dando-lhes a primazia representação política e fazendo-as trabalhar para o fortalecimento do Estado, expressão política do corpo social.

Momento revolucionário 2 - Multiculturalismo
A sociedade é uma soma de todos orgânicos superiores aos indivíduos que os compõem. Cada indivíduo está inserido num todo orgânico, ao qual, uma vez reconhecido pelo Estado o direito de autolegislação, o indivíduo se deve vergar. O Estado de Direito é uma ficção ocidentalista e eurocêntrica opressora das diversas culturas, não estando ao alcance de pessoas de origem muçulmana, por exemplo.

Momento reaccionário 3 - Fanatismos Religiosos e Racistas contemporâneos
A sociedade é uma terra de ninguém a conquistar, pela sua inferioridade moral, racial ou religiosa, por um grupo superior aos demais e superior no seu todo à soma dos indivíduos. A sociedade deve ceder crescentes privilégios (concessões negociadas pela prática ou ameaça de violência) até vergar-se finalmente à verdade absoluta que se pretende re-estabelecer (fundamentalismo católico da Europa Central, Opus Dei; racismo estatal à guisa do nazismo) ou estabelecer (fundamentalismo islâmico).


Não considero que tenhamos de estar presos a este ciclo. Quebrá-lo apenas exige defender coisas muito simples assentes em princípios muito sólidos que felizmente (ou infelizmente, dado o sangue que o processo tem exigido) a História nos tem permitido refinar. Estado de direito, laicismo, liberdade de expressão e associação, monopólio estatal da violência. Não é difícil encontrar o núcleo duro.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Perdedores Radicais e Fundamentalistas Islâmicos

É injusto!, a expressão da indignação, é uma frase que muitas vezes digo quando discuto a questão das liberdades individuais e políticas, sobretudo quando o tema envolve, de forma imediata ou mais remota, a religião. A indignação que assim se exprime é um sentimento de impotência, de tentiva mal sucedida de encontrar um eco, uma imagem ou uma semelhança - não na superfície mas nas motivações profundas - naquele que provoca a indignação. Ou seja, não se trata da discordância sobre uma qualquer matéria, mas a percepção de que não há qualquer hipótese de acordo porque o que é exigido é a capitulação, o apagamento de nós e a nossa submissão à posição contrária. É injusto! é por isso uma frase insuficiente. Perante Atocha dizer que é injusto não basta. E procurar o diálogo com quem fez Atocha, faz sentido?

Li ontem de uma assentada Os homens do terror - Ensaio sobre o perdedor radical de Hans Magnus Enzensberger. O único livro dele que tinha lido foi o Guerra Civil e já na altura me tinha parecido brilhante. Muitas vezes torço o nariz e fico a pensar melhor no que ele escreve: ele tem o condão de nem sempre dizer aquilo que nós pensamos que ele está a dizer. Quando comecei o livro assustei-me: não tinha paciência para ler um livro que se limitasse a desculpabilizar, através de uma análise psicológica e económica (reduzindo a alma humana a um conjunto de índices alcançáveis mediante umas quantas equações), os terroristas enquanto vítimas do capitalismo e da globalização. De facto, pouco a pouco essa ideia vai sendo desconstruída ao longo do livro até que Enzensberger claramente ataca esse tipo de posições. Suspirei de alívio e reconheci o autor de Guerra Civil.

O argumento do autor parece-me fazer sentido e a sua resposta ao problema ainda mais.


Começando pelo princípio: O falhado pode contentar-se e resignar-se com a sua sorte, a vítima pode exigir reparação, o vencido pode preparar-se para o assalto seguinte. Pelo contrário, o perdedor radical isola-se, torna-se invisível, cuida dos seus fantasmas, concentra a sua energia e espera pela sua hora. [...] Contudo, o que os outros pensam dele [...] não chega ao perdedor ara que se radicalize. Ele próprio tem de contribuir com a sua parte. Ele tem de dizer a si mesmo: Sou um perdedor e mais nada. [...] Só então "perde o controle". O perdedor radical é aquele que profundamente não tem já qualquer esperança na sua vitória: ele vive numa dialéctica permanente de auto e hetero-culpabilização a respeito da sua condição, projectando no mundo o ódio a si próprio e desejando tanto a destruição dos outros quanto a sua própria destruição. Como o autor escreve, ele quer ser o senhor da vida dos outros e o senhor da sua própria morte. Nesse momento, em que ele tem o poder de destruir os outros e aniquilar-se também, ele tem o controlo absoluto: como é possível punir alguém que se pune a si próprio?

Entre nós os perdedores radicais habitualmente resignam-se a actos de pouca envergadura: matam os filhos e a mulher e depois suicidam-se; matam os colegas e os professores e depois suicidam-se; matam os colegas de trabalho e o chefe e depois suicidam-se. Mas o que sucede quando surge uma ideologia que os mobilize?

Na Alemanha do pós-guerra e ao longo das décadas de 20 e 30 o nazismo conseguiu pegar numa nação derrotada, concentrar todos os recorrentes alvo de ódio e de teorias conspirativas (judaísmo e conspiração capitalista-bolchevique) e transformá-lo numa ideologia que varreu o país e que consistiu num acto colectivo de suicídio demográfico e cultural: um sétimo da população alemã perdeu-se, a elite intelectual que sustentara as universidades alemãs emigrou para os Estados Unidos. Só havia duas hipóteses: ou a vitória (e um país da Europa Central conquistar o Mundo era ridículo) ou então a derrota absoluta. Se o povo alemão não vencesse, cria Hitler, então era porque não merecia viver. Os alemães sobreviveram, mas nunca mais foram os mesmos e a Alemanha é hoje apenas a sombra do que foi.

No século X os árabes diziam dos povos do norte que eram grosseiros de corpo e de mente, pouco inteligentes, pouco dados ao trabalho intelectual ou físico. A mesma coisa que hoje alguns ocidentais dizem a respeito dos árabes. O que só prova que nem os árabes de então eram superiores, nem os ocidentais de hoje o são. Pelo menos geneticamente. A questão é outra.
Do século X até aos dias de hoje o mundo islâmico em geral, e o árabe em particular, tem sofrido um declínio consistente, só invertido parcialmente nas últimas décadas pelo petróleo. De uma civilização que concentrava em si todo o saber do mundo antigo restam hoje 280 milhões de pessoas cuja produção cultural fica globalmentge muito atrás, por exemplo, da Espanha (de facto, foram traduzidos menos livros no mundo árabe nos últimos mil e duzentos anos que o são todos os anos em Espanha).
Culpar o colonialismo é arranjar mais bodes expiatórios. Judeus, americanos, liberais, democratas, socialistas, europeus... Mas foi a partir do próprio Corão que se extraíu o princípio que levou à proibição da imprensa mecânica no século XV.

Também é no Corão que está a invectiva para matar os que, tendo aceite o Livro (judeus e cristãos) não se submetam ao Islão, seja a ele aderindo, seja pagando um tributo especial. E aqui vamos ao coração do problema actual do islamismo radical. Radical significa ir à raíz e ir à raíz do islamismo é perceber que a palavra islam significa submissão. Só há duas alternativas: a submissão ou a morte. A vitória absoluta ou a derrota absoluta. Os árabes, mais que quaisquer outros muçulmanos, vivem hoje esta ferida aberta de se saberem factualmente inferiores aos outros, mas de se sentirem espiritualmente superiores. O seu lugar é o de um povo conquistador, dominador. Mas, por culpa alheia, estão subjugados por sub-humanos. Tal como os nazis pensavam e pensam. Não estou a dizer que os muçulmanos radicais são nazis. Estou a dizer que uns e outros partilham a mesma condição e têm a mesma inclinação, o mesmo amor à morte e ao sofrimento. Uns e outros têm a mesma concepção medieval de boa morte, morte no sofrimento mais atroz como condição salvífica do seu espírito.

São perdedores radicais e, como não conseguem conquistar o mundo, querem destruí-lo. E os outros muçulmanos, os que não são radicais, não são seus aliados: eles são as primeiras vítimas, como o foram os alemães às mãos dos nazis. A maior parte das vítimas actuais de terrorismo são civis muçulmanos, cuja morte é merecida precisamente porque não são radicais, ou são um pouco menos radicais. E são pobres. Como a maior parte dos perdedores radicais islâmicos são ricos ou pelo menos de classe média.

Indignar-se com a violação retumbante do princípio da reciprocidade é perda de tempo. Quem se enerva com tal facto é ele próprio o culpado. Enquanto se mantiverem exigências absurdas e ultrajes, será melhor reagir com uma calma inflexível e ignorar os provocadores que berram às suas próprias paranóias. Aliás, eles são imunes aos argumentos, de tal modo que é escusado aceitar os seus lemas monótonos e repetitivos. Quando, sem dúvida, se trata de fogo posto, de tomada de reféns e de assassínio, só o monopólio do poder da polícia e da justiça ajuda. A partir deste ponto, o "diálogo" recomendado como panaceia mostra-se como uma auto-ilusão. Até sociedades liberais como a holandesa tiveram de aprender que as tácticas de remissão dos ressentimentos e de atenuação dos conflitos com os migrantes hostis, em vez de os reprimir, agudiza-os. Favorecem a ascensão de partidos de direita populistas e a escalada da violência.

Esta é a resposta de Enzensberger e, creio, a única que faz sentido. Não temos de responder a todas as exigências porque nem todas as exigências são passíveis de negociação. O que devemos ter são princípios sólidos que defendam todas as liberdades. O facto de uma mulher andar de mini-saia, ser divorciada e lésbica é algo que diz respeito apenas a ela e portanto não podemos negociar com ninguém restrições à liberdade dela apenas porque a liberdade dela choca com as crenças de outrem. O diálogo não funciona aqui. Quem pretender violentamente limitar a liberdade dela, tem de ser punido exemplarmente. Se isso não acontecer e continuarmos a tergiversar e a pensar que talvez aplicar alguns dispositivos da Sharia talvez não fosse tão mau assim... bom, aí sim, este continente pertencerá aos Geert Wilders.

The Line of Beauty - Fugir a uma tragédia de enganos


Terminou anteontem a mini-série da BBC, transmitida pela RTP2, The Line of Beauty baseada no romance de Alan Hollinghurst (e que me fazia permanentemente lembrar Reviver o Passado em Brideshead). Nela é retratado o Reino Unido dos anos 80, entrelaçando os meios abastados, o conservadorismo e a homossexualidade. A personagem principal, o esteta Nick Guest, é um duplo outsider, pelas suas origens e pela sua orientação sexual. E, apesar de ao longo de quatro anos viver no seio de uma família de classe alta, ele será sempre um hóspede (guest...). Tolerado. Na sucessão de desastres que atingem o chefe da família amiga, um deputado conservador, Nick é a causa do terceiro: a esquerdista depressiva, filha do deputado e melhor amiga da personagem principal e que desempenha o papel do louco (portanto, o único que vê a verdade e a revela) revela aos jornais que a sua família alojou Nick, um homossexual, ao longo de quatro anos. Ela mostrou-lhe dessa forma que em momento algum a família o tinha respeitado, mas apenas tolerado enquanto a sua condição permanecesse escondida. No fim, é a ele que a família culpa pelo escândalo financeiro em que o deputado se envolve e pelo seu caso extramatrimonial com a secretária. Foi o bode expiatório - algo que a sua amiga depressiva já tinha antevisto.
Semelhante coisa disse eu ao Helder d'O Insurgente há uns meses atrás: simplesmente tolerar, no sentido passivo, não é nada. O que é preciso é respeitar o Outro, aceitando-o na sua integralidade e em tudo que não implique com a nossa liberdade. O respeito não é ser amigo de alguém. Respeito é aceitar alguém mesmo sem ser seu amigo pessoal.



Não vou divagar mais. Há uns dias li no Esquerda Republicana o seguinte texto:

Both anti-imperialist left and the right-wing refuse to see millions of people as truly human - with innumerable differences of opinions, and belonging to vast social movements and progressive organisations and parties - and worthy of the same rights and dignity as they believe is their due. Despite all their language to the contrary, the politics of both sides has nothing to do with improving and changing the lot of humanity and women’s status.

É preciso não termos ilusões a respeito do respeito que determinados grupos ideológicos têm, por exemplo, sobre a condição feminina.

Por muito que Geert Wilders coloque menções às mulheres, aos politeístas (serão os hindus?), aos gays ou aos judeus, por muito que muita gente tente encobrir xenofobia pura com considerações pró-tolerância, é preciso separar o trigo do joio. Considero, do que vi, o filme de Wilders inofensivo no sentido em que não mente - as imagens e as palavras não foram inventadas. Mas não caiamos numa tragédia de enganos: rejeitar o fundamentalismo islâmico é uma questão de sobrevivência. Não nos tornarmos iguais a ele também.

Para que cada um julgue por si o filme, aqui fica Fitna.


Coisas que lixam um gajo

Não vale a pena queixar-me do facto de a rapariga me ter feito uma pergunta idiota (I'm sowy... Oi moço, que língua você fala?) e de eu, após um momento de paralisia, ter dado uma resposta ainda mais idiota (Ehhh... português?).

O que lixa mesmo é que, depois de eu me ter predisposto a ajudá-la, acartando com uma bicicleta (eu que nem sequer ando de bicicleta) ao longo de quarenta degraus e a meio daquele suplício, ela ter tido a distinta lata de dizer: Só mesmo Deus para me mandar alguém que me ajude.

Ora, a ver se entendi:

- eu é que carrego com aquela porcaria
- Deus é que fica com os louros.

Está certo, está certo.

terça-feira, 25 de março de 2008

Para que serve a religião?

(em resposta a este post)

Dou de barato que a religião, na maior parte dos casos, garante maior honestidade dos indivíduos (e ser honesto aqui não significa necessariamente respeitar mais os outros).
Também dou de barato que a religião cumpre funções que podem ser socialmente relevantes, como por exemplo a "ritualização da vida" (as sociedades precisam sempre de ritos de passagem, de integração e de partilha entre os seus membros).
Em terceiro lugar, dou de barato que a persistência de um fenómeno ao logo de milhares de anos, desde as primeiras manifestações da existência de "cultura" (ou seja, produção e reprodução de crenças, costumes, saberes e técnicas) até aos nossos dias tenha inclusivamente deixado marcas na nossa própria constituição biológica, ou que biologicamente haja indivíduos mais propensos à crença religiosa que outros.
Por fim, o ser humano precisa de explicar o seu meio, e à falta de uma ciência que desvende os segredos dos fenómenos que presenciamos, o recurso a revelações divinas é satisfatório.



No entanto, tal como a violação foi em tempos idos uma necessidade de sobrevivência - ou seja, as tribos tentavam aumentar o seu número procriando com as mulheres de tribos rivais, ao mesmo tempo, privando essas tribos das suas mulheres, também diminuíam a sua capacidade de procriação; esse fenómeno está patente no Rapto das Sabinas e ainda hoje é visível em determinadas zonas do Médio Oriente, como seja a violação de cristãs coptas por homens muçulmanos no Egipto actual - e hoje já não é habitualmente aceite, sendo encarado como um crime bárbaro, assim também uma necessidade de homens de há 20.000 anos atrás não tem de ser encarada da mesma forma nos tempos que correm.

De modo que a questão que podemos colocar é: para que serve hoje a religião? Voltemos atrás: em primeiro lugar, foquei a dimensão moral; em segundo, a dimensão social; em terceiro, a dimensão propriamente religiosa, ou seja, da ligação entre o ser humano e uma divindade; em quarto, a dimensão cognitiva, de explicação.
- No que diz respeito à dimensão moral, creio que a resposta necessita ser bipartida. A Modernidade, ao criar o Estado de Direito, transferiu para a Política e para o Direito muito da dimensão ética (ou seja, da encarnação concreta a dar dos ideais morais). Por outro lado, a própria moralidade separou-se da religião, sendo disso o exemplo mais gritante o de Kant. A ideia de deus(es) é absolutamente irrelevante para a adopção de critérios de ordenação moral. A coberto da ideia de liberdade religiosa, cada indivíduo passou a ter a possibilidade de se orientar moralmente sem ter de dar uma justificação teológica para tal. E, olhando para os crentes e não crentes que todos conhecemos, só por muita falta de imparcialidade poderemos peremptoriamente afirmar que os crentes são moralmente superiores aos não-crentes.
- No que diz respeito à dimensão social, ou seja, aos costumes e ritos, fenómenos como a liberdade associativa e política, também trazidos pela Modernidade, também preencheram muito do espaço da religião. Por exemplo, a maioridade já pode ser alcançada já não em Bar Mitzvahs, por exemplo, mas com a carta de condução ou o direito de votar. Admito no entanto que algo mais possa ser necessário e aí os não-crentes estão normalmente em desvantagem. Não admira pois que em sociedades em que a não crença em seres divinos de espécie alguma comecem a surgir cerimónias que preencham esse vazio. Parece-me natural que assim seja; é uma necessidade humana perfeitamente racionalizável e que não tem de estar ao abrigo de concepções religiosas. O objectivo aí é a integração do indivíduo na sociedade, não a ligação indivíduo-deus.
- A ligação à divindade é o que é intrínseco à religião, e que portanto nada pode substituir directamente; de facto, a descrença é precisamente a inexistência de divindade. No entanto, se encaramos a necessidade de divindade como uma necessidade cognitiva, de explicação dos fenómenos naturais, confessemos que a ciência se tem saído muito melhor que a religião. É precisamente aqui, creio, que se trava um combate decisivo hoje em dia, que muitos crentes americanos, sobretudo, têm seguido com grande coerência. De facto, quem for um crente convicto na Bíblia tem de negar o evolucionismo e aceitar o criacionismo. Menos que isso significa já aderir a uma espécie de deísmo, enquanto crença num ser supremo mas negação da religião revelada.



Pela minha parte, creio que a única coisa em que os não-crentes não têm muito para oferecer é na ritualização, na integração social e na dimensão estética, litúrgica. É precisamente aí que os religiosos tendem a ganhar. Esta constatação nada tem de novo - os apelos a uma religião civil, de Rousseau, já apontam para aí. Contudo, essa proposta tinha uma dimensão política que me desagrada profundamente. De facto, não pretendo impôr a ninguém o meu ateísmo - tal como exijo que ninguém me imponha a sua religião - embora ficasse muito feliz se houvesse instituições privadas, como as que existem no seio da International Humanist and Ethical Union que dessem o seu contributo neste sentido. De caminho, compreendo que há questões científicas e políticas que, correspondendo a uma rigorosa neutralidade do Estado, são encaradas como ofensivas pelos religiosos, como seja a teoria da Evolução ou a laicidade do Estado. No entanto, a tarefa aí será eles provarem que um Estado não laico seria mais neutral face às diversas disposições morais e religiosas, ou que cientificamente a teoria da evokução está errada. O desafio dos religiosos é descerem do seu pedestal de dogmas e argumentarem em cada campo com os argumentos próprios a esse campo e não imporem a sua teologia a todas as áreas de actividade humana.

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segunda-feira, 24 de março de 2008

O Tibete e os Jogos

Os jogos da vergonha

A liberdade económica é uma mão cheia de quase nada se estiver desacompanhada da dignidade da pessoa humana. A China tornou-se o maior exportador mundial. Esse êxito já foi apontado como o exemplo de que basta alguma liberdade económica para se alcançar um patamar político e jurídico equiparado aos melhores exemplos ocidentais. Erro fatal – confiar que o crescimento económico, por si só, é capaz de tudo mudar, até redimir os crimes contra a liberdade que se foram cometendo, constitui uma ilusão pueril.

A liberdade económica é uma mão cheia de quase nada se estiver desacompanhada da dignidade da pessoa humana. O liberalismo é um todo indivisível: preterir uma parte em favor da outra é reduzi-lo a uma coisa informe com alguma embalagem mas sem nenhum conteúdo. Esse é o melhor legado da tradição da Liberdade.

A China, embora cada vez mais rica, jaz sob um totalitarismo feroz. O regime chinês reprime os mais ténues sinais de liberdade, da política à religião, desde o direito de constituir família até ao acesso à internet. Mas se a ditadura chinesa violenta os seus próprios cidadãos é preciso lembrar que esmaga quotidianamente os tibetanos negando-lhes a sua cultura e a sua religião.O Comité Olímpico Internacional finge que nada de especial acontece. As nações que enchem o verbo em favor dos Direitos Humanos, incluindo Portugal, tentam disfarçar (mal) a sua insuportável conivência com o terror. Não lhes bastou 1936.

A tocha olímpica até vai passar pelo Tibete a caminho de Pequim: será o símbolo ardente da falta de vergonha a que o ideal olímpico chegou.


Carlos de Abreu Amorim
, Correio da Manhã

sexta-feira, 21 de março de 2008

Se é estúpido, não sei, mas liberal é que não é

[...] o Estado deve usar as suas leis para perguntar a uma pessoa que quer tatuar o corpo todo ou pôr 50 piercings se ela está boa da cabeça. Liberal mas não estúpido.


Ao contrário do que sucede com o tabaco, os piercings e as tatuagens só afectam as pessoas que os fazem. Se eu puser um piercing, ninguém vê a sua liberdade posta em causa. Se eu fumar um cigarro num espaço fechado e em que várias pessoas são forçadas por algum motivo a estar, estou a causar incómodo e dano à saúde de outras pessoas.

É, a esse respeito, muito bem apontada a crítica de Rui Tavares que Lomba refere. É que se pode haver excessos na lei anti-tabágica, então a lei anti-piercings e anti-tatuagens é uma perfeita aberração.

No entanto, o que Tavares não percebe é que este espírito paternalista e admiravelmundonovesco estava já todo contido em germe na luta antitabágica. E vai estender-se na luta contra os obesos (não, não é contra a obesidade, é contra os obesos, tal como a luta antitabágica é também mais contra os fumadores que contra o tabaco) e muitas outras coisas. Quando pomos o Estado a perguntar-nos se estamos bons da cabeça porque gostamos de fumar um cigarro, de ter tatuagens ou de comer uns brigadeiros de chocolate a mais, parar é difícil. Não sei se a estupidez é vício, mas o paternalismo sê-lo-á por certo.


PS - Não resisto a dizer já agora que os argumentos económicos muitas vezes usados, acusando os fumadores e os gordos de serem um peso para os serviços de saúde, que Combater a obesidade e o tabagismo pode salvar vidas mas não poupa dinheiro, revelaram esta terça-feira investigadores, assinalando que acaba por sair mais caro cuidar de uma cidadão saudável que viva muitos anos.