quarta-feira, 30 de abril de 2008

De igual para igual

Já todos ouvimos e lemos que o Estado tem uma qualquer obrigação de apoiar os diferentes cultos religiosos (pagando aulas de Religião, subsidiando escolas religiosas, construindo igrejas e centros paroquiais, etc.). A teoria que circula a respeito da "sociedade civil" (que apesar de ser "civil" parece que precisa do dinheiro político) e que habitualmente é a forma encapotada de os conservadores defenderem mais privilégios para a Igreja Católica (mesmo que isso implique fazer umas cedências de circunstância a cultos irrelevantes como o muçulmano ou o judeu - esquecendo as igrejas evangélicas, com muitíssimo mais fiéis) vai ter agora de enfrentar um problema grave.

Está em vias de se constituir a Associação Ateísta Portuguesa. Será que agora os defensores da "sociedade civil" subsídio-dependente vão aceitar que a futura Associação também mame da teta estatal ou será que a distribuição de dinheiro de impostos alheios com vista à propaganda ideológica é um couto abraâmico?

Associação Ateísta Portuguesa



Soube agora mesmo através do Penates Publici que está em avançadíssimo processo de constituição a Associação Ateísta de Portugal - AAA.



Quem estiver interessado, siga os links: Informações gerais; Estatutos; Escritura.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Honestidade (nenhuma): para rematar

O dia 1 de Dezembro [...] é essencial na nossa história e antecede o 25 de Abril. Sem ele, não seríamos portugueses, [...]. A sua relevância histórica [...] não pode ser medida pela absoluta irrelevância das suas comemorações. Caso em que, se assim fosse, teríamos que concluir pela nossa vontade de integração no nosso país vizinho.

Aqui não sei se estou no domínio da desonestidade ou da simples ausência de reflexão. Vejamos o argumento:

- O 1 de Dezembro é importante, o 25 de Abril também;
- O 1 de Dezembro garantiu a nossa independência;
- Se não considerarmos o 1 de Dezembro como um dia mais importante que o 25 de Abril, então temos de ser pela integração em Espanha.

Ora, eu até tentei encadear a ideia silogisticamente (e todos sabemos como os silogismos se prestam a disparates) mas até isso é impossível. Por algum motivo que me ultrapassa, achar que mais importante que ser português, é ser livre, resulta numa defesa do iberismo.

A conclusão é de tal forma desconexa que deixo ao juízo de cada um a avaliação do mérito ou demérito da mesma.

Honestidade (mas pouca): aprofundando o argumento

Vou aprofundar o que afirmei anteriormente. Como se pode, a partir do primeiro excerto do post Desonestidade concluir que ou AMN anda com dificuldade em fazer-se explicar, ou realmente coloca a nação à frente do indivíduo? Esmiuçando:

O dia 1 de Dezembro (logo eu que sou republicano) [menção irrelevante, como o é o dizer-se que não se é crente quando se está a defender mais privilégios para a Igreja Católica] é essencial na nossa história e antecede o 25 de Abril.
Retenhamos o antecede. Será que a questão é apenas de cronologia? Seria uma estranha forma de hierarquizar os nossos feriados, mas se fosse apenas isso não teria qualquer relevância. Mas...

Sem ele, não seríamos portugueses, não teríamos este país, seríamos outra coisa qualquer
Ora bem, era aqui que eu queria chegar. O ser português é o que está em causa.

e eventualmente nem sequer teríamos tido qualquer tipo de 25 Abril.
Ora, não teríamos o 25 de Abril, mas teríamos outra coisa qualquer. Qualquer outra manifestação da tendência para a liberdade. Essa mesma tendência que qualquer consciência individualista sente e que é absolutamente independente de se ser português, ou espanhol ou qualquer outra coisa. Eu não aspiro a ser livre por ser português mas por ser um ser racional. E a minha qualidade de indivíduo dotado de razão está antes de tudo o resto, antes de qualquer irrelevante manto histórico, cultural, linguístico.

Que Adolfo Mesquita Nunes não o perceba, diz tudo. É uma clivagem ideológica decisiva.

Honestidade (mais ou menos)

Quando escrevi este post inclinava-me para achar que o Adolfo Mesquita Nunes tinha recorrido a uma arte de fuga para minimizar o 25 de Abril, afirmando a superioridade do primeiro de Dezembro. Podia ser, pensei, uma desonestidadezinha a que qualquer pessoa pode ter de recorrer quando está argumentativamente, digamos, à rasca.

Bom, a resposta veio com acusações de desonestidade. É bastante curioso que

E assim foi que, ao fim de múltiplas linhas de artes, manhas e fugas, fiquei um pouco mais esclarecido.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Log Rolling - por que gostam os conservadores de Obama

A imprensa tem sido extremamente simpática para com Obama e arrasadora para Hillary. Quando digo imprensa, digo também (sobretudo?) a imprensa conservadora, extremamente poderosa e muito politicamente orientada.

Durante algum tempo pareceu-me que seria um embevecimento com alguém que falava em Change. Com um negro. E com um homem que tem um nome muçulmano. (E tudo não mudando em excesso - antes um homem negro que uma mulher branca). Havia qualquer coisa que não batia certo, mas eu estava com dificuldades em perceber porquê.

Se eu tivesse tido uma reflexão um pouco mais sofisticada, teria percebido há mais tempo que se trata de um caso exemplar de log rolling. A capacidade da imprensa influenciar o eleitorado pode estar a servir para levar ao embate um candidato fraco e cheio de pontos fracos que fariam as delícias dos spin doctors republicanos. Obama afogar-se-ia num mar de escândalos e ligações perigosas a racistas negros e terroristas não arrependidos.

Para percebermos um pouco melhor: nos finais da década de 50 e inícios da década de 60 os democratas tentaram fazer passar uma medida tendente a aumentar o financiamento à construção de escolas. Um membro dos Representantes negro, Adam Clayton Powell, pretendeu introduzir uma emenda que excluiria os apoios a escolas segregacionistas. Esta emenda não tinha obviamento o apoio dos democratas do Sul. Se a emenda fosse realizada depois da votação da proposta, seria chumbada (os republicanos e os sulistas votariam contra), mas a proposta em si passaria. Ora, sendo os republicanos contra o investimento na educação, garantiram que primeiro se votasse a emenda, votando a seu favor. A proposta que passou excluía pois as escolas do sul do país; na votação final os democratas do sul aliaram-se aos republicanos e a proposta foi chumbada várias vezes; Powell, de cada vez que ela surgia, propunha a sua emenda. E de cada vez, os republicanos actuavam da mesma maneira: primeiro garantiam a inclusão da emenda; depois votavam contra a proposta.

Com Obama a estratégia é rigorosamente a mesma: atacam Clinton, que sabem ser uma candidata de fibra e sobre quem não há escândalos a desvendar, e protegem Obama. Quando este vencer, será esmagado em dois tempo.

E lá vamos ter mais oito anos de Partido Republicano.

M.A.D.

A UDP defendia o modelo albanês. Sá Carneiro as sociais-democracias escandinavas. Mais recentemente, o exemplo a seguir foi a Irlanda e depois dela, a Finlândia.

No entanto, o que nós temos é um MAD: Modelo Africano de Desenvolvimento.

Vejamos quem são os nossos companheiros em termos de concentração de riqueza nos 10% mais abastados:
#66 Madagascar 28.6%
#67 Portugal 28.4%
#68 Mauritania 28.4%.

Também interessante é que, se os 20% mais ricos concentram 43,4% do rendimento e os 20% mais pobres têm apenas 7,3%, aquilo a que sofrivelmente poderemos chamar classe média (os 60% do meio) têm para si 49,3% do rendimento. A aceitar um valor médio dos salários brutos que instituições como o INE têm dado (cerca de 800 euros) isto significa que o rendimento bruto médio mensal de um português de classe média é de (aproximadamente, dado que estou a fazer contas de forma muito simplista) 657,33 euros.

Se isto não dá vontade de fugir...

Os corredores de fundo correm mais longe

Clinton, who won the Pennsylvania primary last week, has gained ground this month in a hypothetical head-to-head match up with the GOP nominee-in-waiting; she now leads McCain, 50 percent to 41 percent, while Obama remains virtually tied with McCain, 46 percent to 44 percent.

O inevitável começa a acontecer: o discurso de Obama é oco. Encanta nos primeiros minutos e farta nas horas seguintes. Falta saber se yes they (Democratas) can cair na esparrela.

domingo, 27 de abril de 2008

ETT, TT, ETT, TT

Via Arrastão

Solução: Estado

[...] as empresas que empreguem trabalhadores sem contrato a termo verão a taxa social única passar dos actuais 23,75, para 22,75 por cento. As empresas que por sua vez contratem trabalhadores com contrato a termo verão a contribuição para a segurança social passar de 23,75 para 26,75.
Público

"Metade ou mais de metade dos desempregados são pessoas que estavam com contratos a prazo. É por isso justo que as empresas que mais utilizam os contratos a prazo sejam as que pagam mais"."Querem ter mais contratos a prazo? Muito bem, mas pagam mais. E nós sabemos que o incentivo económico é a melhor forma de alterarmos as situações. É por isso que hoje a empresa vai pensar duas vezes", disse, afirmando que o Governo está disponível para negociar a proposta com os parceiros sociais, mas não adiará as reformas.
Público

- À primeira vista parece uma idiotice estatista por pretender manipular o mercado em favor dos contratos sem termo;
- À segunda vista parece mais racional, dado que efectivamente as empresas que contratam trabalhadores a termo certo são fonte de maiores encargos para a Segurança Social (ou seja, quem está contratado a termo certo naturalmente que tem períodos de inactividade que precisam de ser cobertos pelo subsídio de desemprego, o que não sucede quem trabalha há 20 anos no mesmo sítio);
- E à terceira vez volta a parecer uma idiotice estatista porque esta alteração serve apenas para punir as empresas e não para resolver o problema dos trabalhadores.

Em vez de reduzir as taxas nos contratos sem termo e aumentar nas empresas que recorrem a contratos a termo certo, que tal pegar nesse dinheiro e constituir contas-poupança individuais e obrigatórias que fossem entregues ao trabalhador após abandonar a empresa, substituindo o subsídio de desemprego (e evitando as burocracias que ele implica) durante um período de tempo variável (dependendo do tempo de trabalho)?

Mas não. Para o governo socialista, a solução tem de passar pelo Estado: o Estado recolhe o dinheiro do trabalho e depois devolve-o como se de uma esmola se tratasse.