domingo, 17 de junho de 2007

Provocações Meritocráticas Parte II - Sobre Platão

Estive recentemente a reler A República e este debate em torno do mérito e do não-mérito fez-me lembrar uma coisa muito interessante.

Uma das partes mais problemáticas (para mim pelo menos) da obra em causa, é a defesa da comunidade de filhos e mulheres e da eugenia. Defende Platão (pela boca de Sócrates) que, para a Cidade ser bem governada, se há-de garantir que os indivíduos de qualidades similares se cruzem e, como sucede nos animais domésticos, apurem essas mesmas qualidades. Desta forma, os melhores acasalarão apenas com os melhores, garantindo que serão cada vez melhores, e os piores ficarão relegados para as suas naturais funções.

Bom, a ideia parece-nos à partida algo disparatada. No entanto, creio que podemos distinguir aqui duas faces diferentes da questão: uma a intenção, outra o método. A intenção é garantir que o poder será entregue apenas aos melhores. O método é o recurso à eugenia, às castas, à aristocracia do sangue, à herança.

E é neste sentido que de facto posso arguir o seguinte: a meritocracia corresponde a este platonismo da intenção, o que os conservadores (que em Portugal gostam de se chamar liberais, mas ao que parece pelo que leio no Arte da Fuga também já são anarquistas - qualquer dia vê-los-ei a ser marxistas-leninistas) pretendem (e sempre pretenderam, é essa a sua natureza) corresponde a este platonismo do método.
Se lermos Burke (Reflexões sobre a Revolução de França) é muito, muito fácil estabelecer um fio condutor que desembocará século e meio mais tarde no nazismo - especialmente se tivermos em atenção o papel fundamental que os junkers prussianos desempenharam no caldo sociológico que permitiu o nascimento daquela ideologia.

sábado, 16 de junho de 2007

Provocações Meritocráticas aos Lordes de Serviço

As heranças, o Estado e a liberdade de testar
06/08/2006
Ao contrário do que sucede noutros países, o imposto sobre heranças jamais foi aplicado com rigor em Portugal. [...] Tão diminuta era, aliás, a receita deste imposto que, no caso dos herdeiros directos, o poder decidiu aboli-lo.O gesto não é, não deveria, ser pacífico. Como aceitar que, em sociedades onde as desigualdades sociais são tão elevadas quanto em Portugal, o imposto sucessório seja abolido, quando cresce o IVA, um imposto indirecto e, portanto, penalizador dos mais desfavorecidos? Não sou discípula de Proudhon, mas, ao contrário do que sucede com a maior parte dos seus amigos, considero que o imposto sucessório deveria existir e ser aplicado. [...] Do ponto de vista moral, prefiro que o Estado me "roube" uma fatia de herança do que, como hoje sucede, retire 30% ou 40% ao meu salário. Argumentarão alguns que o imposto sucessório é mau, por atacar a família no que esta tem de mais sagrado, o património. O argumento não me comove. Para mim, o dinheiro deve andar ligado ao mérito, não ao sangue. A maioria dos portugueses compreende que o Eng. Belmiro de Azevedo seja milionário, porque, tendo nascido pobre, demonstrou ter dinheiro suficiente para enriquecer, não sucedendo o mesmo no caso dos filhos de pais abastados que, refastelados à mesa, se enfastiam entre intrigas.

Maria Filomena Mónica, Confissões de uma Liberal

Brilhantes, estes "liberais" portugueses


Cita Friedmen o António Costa Amaral, do Arte da Fuga, aqui:
we do not wish people to earn a maximum of merit but to achieve a maximum of usefulness at a minimum of pain and sacrifice and therefore a minimum of merit.


Ora bem: agora já percebi por que é que Friedman, que supostamente defendia a liberdade, defendeu a ditadura chilena e o assassinato de milhares de pessoas.
Foi tudo uma questão de evitar muitas dores aos militares e aos oligarcas: podiam tentar manter os seus privilégios no seio de uma sociedade democrática. Não obstante, isso daria muito trabalho. Assim, é muito melhor matar logo os gajos, violar as mulheres, esventrar as grávidas e dá-los de comer aos tubarões.

Conseguiram desta forma com um mínimo de esforço próprio alcançar o máximo de benefício, roubando, pilhando, matando e violando, o que qualquer troglodita sabe que é muito mais vantajoso que esforçar-se, trabalhar, pagar impostos, tirar do seu próprio bolso para ajudar outrem, submeter-se a eleições e outros disparates que tais.


Eh pá, caraças - como é que eu nunca me lembrei de uma coisa destas?

Ah, já sei - é que eu não sou nazi. Foi esse pensamento aristocrático que, descendendo do conservadorismo, criou o nacional-socialismo (esta foi também para os meninos do Small Brother - leiam Barrington Moore).

Salários

Aqui e em resposta a um comentário que, como é normal na cartilha neoliberal, acusa o aumento do salário mínimo nacional de ser a fonte de todas as desgraças que tombam sobre o país, eu escrevi
E qual a solução? Manter o SMN mais baixo da UE15 e sacrificar sempre os salários mais baixos? Ou até descê-los.
Entre 2000 e 2007 os salários dos gestores de topo triplicaram.A Mercer divulgou um estudo segundo o qual os salários dos directores financeiros de topo tinham aumentado 24% num ano.
Eu não me importo que, em períodos de crise, haja contenção. Agora, ou há moral ou comem todos. Se não for o Estado a impôr estes aumentos, os salários mais baixos não aumentariam nunca. O que vai acabar por acontecer é que muitos trabalhadores que anteriormente ganhavam acima do SMN vão passar a receber o SMN ou a diferença face a ele vai encurtar. Nada que, de resto, não tenha estado a acontecer nos últimos anos. Se formos a ver o crescimento anual dos rendimentos dos 10% mais ricos e o crescimento dos rendimentos da classe média (que ganha 650 a 1000 euros brutos mensais) ficaremos esclarecidos.
Hoje de manhã ao pequeno-almoço (leituras interessantes para o meio-dia de um sábado) encontrei esta passagem:
Companies and top managers selectively promote or even block socially beneficial innovations as they labour tirelessly to advance their own careers and increase their benefits packages, pensions and share options.
Mats Alvessom e Hugh Wilmott, Studying Management Critically, Sage Publications
I rest my case.

CDBes/Partido Portucale



SIC - JN - RR - CM

Ah, o eleitorado dos valores, lembro-me ainda de tão bela expressão do Paulo Portas. Ficamos agora a saber que esse eleitorado dos valores afinal é o dos valores monetários. Prova disso é conseguir transformar um único doador em quatro a seis mil (SIC afirma quatro, no CM são seis mil) cidadãos com fabulosos nomes como seja Jacinto Leite Capelo Rego. Pena que cidadãos tão dedicados à causa cêdêéssista e aos seus elevados valores sejam simultaneamente tão preguiçosos e descuidados: nem assinam de sua própria mão (deixam-no para os funcionários do partido) nem têm pelo menos o cuidado de fornecer o seu número de contribuinte.
Brincadeiras à parte: se isto se revelar verdadeiro, estamos perante um escândalo de proporções gigantescas. Todos sabemos que nas autarquias comprar os favores do presidente, de um vereador, de um director ou de algum partido é o pão nosso de cada dia. Conviria, no entanto, que no governo os partidos se comportassem de forma diferente.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Wishful Thinking e Abstracções Economicistas

As abstracções academicistas também (eu próprio quando posso escorrego para aí) mas depois temos de cair no mundo em que vivemos e aí... é uma maçada.

Como escreveu Daniel Amaral na última edição do Expresso, Não tenhamos ilusões. Quando se trata do social, e das dotações que é necessário fazer, uma de duas: ou as faz o Estado, ou não as faz ninguém.

Sócrates apoia Roseta

- Porventura será diferente da razão, ou uma qualquer das suas formas, de maneira que haverá na alma, não três, mas dois elementos, o racional e o concupiscível? Ou tal como, na cidade, esta se compunha de três classes - a negociante, a auxiliar e a deliberativa - também na alma a terceira servia este elemento irascível, auxiliar do racional por natureza, quando não foi corrompido por uma má educação?
Platão, A República, 441a


Ora vejamos: se quem deve governar é a razão e se a razão necessita do voluntarismo dado pela coragem para fazer face às debilidades do elemento concupiscível...


  1. Costa é apenas o garante de que, daqui a seis meses, comamos com a Ota novamente. Zero de racionalidade, zero de coragem, tudo desejo.
  2. Carmona - é apenas uma questão de orgulho pessoal.
  3. Negrão tem muita coragem - mas a coragem dos loucos; largar uma autarquia quase ganha (Setúbal) e ir para uma perdida à partida (Lisboa) demonstra espírito de sacrifício, mas nada mais. Lisboa está em maus lençóis, mas ainda não chegou à fase suicidária.
  4. Ruben de Carvalho é algo desinteressante: tem um pouco de tudo e um pouco de nada. Alguém já percebeu o que é que ele quer para além de continuar na Câmara?
  5. Sá Fernandes tem muita coragem e de facto é o melhor argumento a seu favor. Isso ninguém lhe tira e sou o primeiro a elogiá-lo no caso Bragaparques (vejo-me por vezes a defendê-lo em situações em que sei que ele está errado, só porque achei que ele agiu bem nessa situação). No entanto a intervenção dele no dia a dia ao que me dizem é calamitosa. Por exemplo, estar contra a demolição de casas insalubres em bairros em que tanto a população como os técnicos estão de acordo. Racionalidade? Não a há. Se é mesmo incompetência ou se é vontade de ser do contra, isso, não sei.
  6. Telmo Correia... a defesa do Portela + 1 é uma boa vantagem, mas falta-lhe a ambição.
  7. E resta Roseta que, para além de competente, é inegavelmente uma lutadora. É dela que Lisboa precisa.

Quem diria, Sócrates a apoiar Roseta? Ah, pois é...

O efeito comunicação social


O comparativo publicado aqui merece-me alguns comentários.

António Costa: 31% Fernando Negrão: 19,5% Carmona Rodrigues: 14% José Sá Fernandes: 9,6% Helena Roseta: 9,1% Rùben de Carvalho: 9,1%
Os restantes candidatos, incluindo Telmo Correia, estão muito distantes da eleição.
Sondagem INTERCAMPUS para a TVI, Rádio Clube e Público, feita com simulação de voto em urna
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  • Há umas sondagens atrás Helena Roseta estava melhor posicionada. Efeitos da preferência da comunicação social pelos candidatos institucionais...
  • Entre 4 e 10 de Junho, a candidatura de Helena Roseta ficou atrás de todos os outros 6 principais, tanto em número de notícias como em tempo de transmissão.
  • Já Sá Fernandes está ao lado dos grandes, tendo direito a quase tantas notícias como Costa e Negrão e a tempos de transmissão similares. Visto por este prisma, talvez os 9,6% não sejam brilhantes, como não o são os 14% de Carmona Rodrigues (o candidato mais seguido de todos).

quinta-feira, 14 de junho de 2007