segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O cerco

Previsível (inevitável), aproxima-se a fiscalização dos partidos no que respeita ao seu número de militantes. A lei já tem alguns anos, e tarde ou cedo isto viria a acontecer. Tal como tarde ou cedo a redução da proporcionalidade no sistema eleitoral poderá enfim avançar, queira-o o PS (que o PSD já espera e desespera por isso há muito tempo) e deixemo-lo nós.
O objectivo é manter o sistema partidário tão anquilosado quanto possível e fortalecer o peso do PS e do PSD administrativamente. O PS já tinha sido largamente prejudicado pelo surgimento do BE, que lhe tirou a maioria absoluta em 1999, e o PSD e o PP receavam que o PND tivesse um efeito semelhante à direita. Com esta lei é possível que os que já estão na AR se safem (à excepção do PPM e do MPT), mas tudo o resto desaparece. De modo que de futuro qualquer alteração só poderá surgir por cisão ou fuga em larga escala de um dos dois principais partidos. E não me parece provável que tal venha a suceder.


Olhando para os aspectos práticos, isso é improvável: a demarcação de territórios e o acordo tácito na distribuição das coutadas implicaria um grande espírito de sacrifício da parte dos trânsfugas - e exceptuando o contorcionismo político próprio de quem não tem coluna vertebral, não me parece que aparatchik algum tenha espírito de sacrifício.
Olhando para a História do nosso parlamento percebe-se para além disso que as cisões dão-se apenas no topo e não têm repercussões nem apoio na base - é o caso da UEDS e da ASDI.
Por fim, se o próprio Manuel Alegre, que teve um apoio directo (apoiantes de campanha e no seu movimento) e indirecto (votos) amplíssimo e ainda assim se recusa a transformar o seu MIC num partido, então surge a prova empírica que faltava ao que eu afirmei.


Se dos partidos existentes nada de novo emergirá e se a sociedade fica impossibilitada de reagir, então temos o palco montado. Por enquanto, trata-se de testar a opinião pública e reduzir os partidos ao essencial (ou seja, os que já estão representados parlamentarmente) atacando os elementos mais frágeis. A seguir, virá a reforma do sistema eleitoral. E aí sim, correrá sangue.

domingo, 9 de dezembro de 2007

A reacção parcial

Os discursos e os textos e as opiniões que se dedicam hoje a re-definir as fronteiras entre Esquerda e Direita são imensos. Eu próprio volta e meia escrevo algo sobre o assunto. Os textos, se bem que interessantes (quando não não estão envoltos em pré-conceitos do tipo Bons/Maus - mesmo quando o objectivo declarado é ultrapassar essas visões parcialistas, como sucede no texto da Atlântico deste mês de António Carrapatoso*) são normalmente longos. No entanto, uma das melhores formas para hoje estabelecermos, de forma rápida e intuitiva, a separação entre Esquerda e Direita é a utilização da expressão politicamente correcto, especialmente para definir as expressões mais extremadas da Direita (e não tanto para estabelecer fronteiras rigorosas ao centro). De facto, ao contrário do que sucede com a Direita moderada e a Esquerda moderada, a Direita extremada alçou a luta contra esta ideia do politicamente correcto ao estatuto de prioridade número um. Passo a explicar porquê.
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A auto-vitimização quixotesca do actual pensamento conservador renomeado para liberalismo ou libertarismo (à revelia das correntes políticas dominantes no seio do próprio liberalismo) é concomitantemente a demonstração da sua força e a prova do seu falhanço.
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A sua força está na convicção de que são paladinos da liberdade cercados por um pensamento único da tolerância. Esta é a reacção no sentido político da palavra: a oposição aos produtos da Modernidade e em particular a reacção à mentalidade classe média, uma classe que emerge da fusão entre a economia de mercado e o Welfare State (para qual concorreram as opções tomadas pelas forças políticas mais moderadas, tanto do campo socialista, como do liberal, como do conservador). Esta classe média baseia-se numa mentalidade individualista, livre que está da carência económica e da falta de instrução das classes miseráveis de antanho e da ideia de "excepcionalismo" da aristocracia, para quem o individualismo fica para "os melhores" e o colectivismo da ignorância e da pobreza é a cristianíssima chaga que todos os outros merecem suportar. Foi na era dourada da classe média que os jovens baby-boomers fizeram a libertação da mulher ou o fim do segregacionismo. E tem sido essa a mentalidade dominante até aos nossos dias - dominante no sentido em que, de forma reformista, tem tornado vencedora a sua agenda individualista.
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É aqui que entra a lógica do cerco dos reaccionários dos nossos dias. Ninguém é anti-democrata. E ninguém é contra a liberdade. Como poderia isso ser? Pois não foi a mentalidade da medianidade a extirpar qualquer oposição a estas ideias? Portanto já não pode haver ninguém que as renegue. Dialecticamente, a negação da negação nunca é igual à afirmação inicial, e os neo-reaccionários já não podem ser reaccionários: eles inventaram-se novos nomes e novas causas. Os fins que perseguem são os mesmos, se os reduzirmos ao essencial, que motivaram por exemplo os absolutistas, mas obviamente que já não podem defender as mesmíssimas coisas.
Já não são contra a ciência: eles acham que a ciência pode ser guiada pela religião. Já não são pela religião oficial: acham que o Estado tem de integrar a "cultura nacional". Já não são machistas: são pelo direito à vida. Já não são homofóbicos: até têm amigos homossexuais. Já não são racistas: são pelos estudos científicos que provam que os brancos são mais inteligentes que os negros.
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Quem se opõe à sua agenda é apelidado de censor, e chegam a realizar retratos de si próprios sendo agredidos e apelidados de racistas e machistas. De caminho, vão pisando armadilhas relapsas, demonstrando a sua verdadeira natureza ao afirmar coisas como as vantagens de haver uma aristocracia ou apresentando abominações como "a equivalência entre [...] religiões". A sua defesa da liberdade limita-se ao direito de re-afirmar coisas que o fim do nazismo (doutrina que afirmam que pelo menos alguns dos seus opositores seguem) deveria ter enterrado e o seu tenaz ataque ao Estado confina-se a esse politicamente correcto, a essa imposição da tolerância. Não fossem os nossos Estados liberais e defensores da liberdade individual, não fosse, por exemplo, o laicismo dominante, e continuariam tão estatistas quanto sempre foram (e quanto continuam lá no fundo a ser).
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Mas se estes neo-reaccionários têm uma convicção inabalável na superioridade da desigualdade, não apenas prática mas também teórica - coadjuvada por um certo colectivismo moral - o próprio facto de se verem hoje constrangidos a afirmarem-se democratas e muitas vezes liberais demonstra também a sua fraqueza. Já não estamos no tempo da reacção integral, mas de uma reacção parcial, mole, quixotesca não apenas pelo delírio do herói mas também pela derrota final de todos os anti-heróis românticos: uma reacção que se pantomima de libertária para defender a opressão. Uma reacção, em suma, muito politicamente correcta.

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* De facto, Carrapatoso, embora bem intencionado, piora bastante o quadro divulgado pelo Political Compass, substituíndo o eixo Social pelo peso do Estado e o eixo Económico por um eixo Igualitarismo/Livre Diferença. Reduz assim a questão do individualismo à intervenção estatal, como se os indivíduos não pudessem ser oprimidos por outros agentes senão o Estado (e como se o Estado não fosse em certa medida um meio de evitar algumas dessas fontes de opressão); e depois introduz um julgamento prévio com vista a favorecer a Direita, afirmando-a "livre", face à imposição totalitarista e opressora do igualitarismo à Esquerda.
Um julgamento neutral dividiria antes os dois eixos entre dois valores (igualdade e liberdade), o primeiro (económico) variando entre o igualitarismo e o elitismo, com a ideia de "igualdade de oportunidades" ao centro e o segundo aferindo o grau de individualismo (moral).

Horóscopo da semana (melhor que o horóscopo do Metro)

Para quem acredita nos astros...

O estatuto da Mulher e a miséria do multiculturalismo

Naser Khader era um dos candidatos, ontem, nas eleições dinamarquesas. É de direita. Filho de imigrantes, Naser veio da Síria com onze anos, é muçulmano. Apoia o Governo dinamarquês por este, na crise dos desenhos satíricos de Maomé, ter feito frente aos fanáticos religiosos que exigiam desculpas dinamarquesas. Ontem, também Asmaa Abdol-Hamid era candidata. É da extrema-esquerda. Filha de imigrantes, Asmaa veio da Palestina, é muçulmana. Ela fez a campanha de véu e, nos comícios, recusou a apertar as mãos aos camaradas masculinos. Para ela, uma muçulmana não toca em homens, senão marido. Ontem, fez um mês que Zahara Bani- -Ameri morreu na prisão, em Teerão, onde estava porque se passeou de mão dada com um rapaz que não era marido. Há 30 anos, eu era de extrema-esquerda, também por causa da liberdade das mulheres. Ontem, eu teria votado em Naser, não em Asmaa. Às vezes não há como ficar no mesmo sítio para parecer termos mudado.
Ferreira Fernandes, lido no Vistalegre

sábado, 8 de dezembro de 2007

Sobre a Direita Liberal e os Libertários de Direita


À porta
daquela
igreja
vive o ser tradicional
às voltas
duma coisa velha
e não muda a condição

A vaca de fogo, Pedro Ayres Magalhães

Conjugar Liberdade

  • Eu posso gostar do que quiser na minha vida privada.
  • Tu podes gostar do que quiseres na tua vida privada.
  • Ele pode gostar do que quiser na sua vida privada.
  • Nós podemos gostar do que quisermos nas nossas vidas privadas.
  • Vós podeis gostar do que quiserdes nas vossas vidas privadas.
  • Eles podem gostar do que quiserem nas suas vidas privadas.


  • Eu devo respeitar politicamente as opções dos outros na sua vida privada.
  • Tu deves respeitar politicamente as opções dos outros na sua vida privada.
  • Ele deve respeitar politicamente as opções dos outros na sua vida privada.
  • Nós devemos respeitar politicamente as opções dos outros na sua vida privada.
  • Vós deveis respeitar politicamente as opções dos outros na sua vida privada.
  • Eles devem respeitar politicamente as opções dos outros na sua vida privada.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Menos abraços, mais respeito

A propósito do post Homofobia de Helder, recordei-me que recentemente escreveram-me isto a respeito de um comentário de alguém que dizia que o irmão era gay: hmmm porque é que cada vez que sai uma bacorada homofobica o autor sente a necessidade de inventar um conhecimento em primeira mão de alguém que é… que valente treta.

Bom, aqui não há nenhuma bacoraca homofóbica, mas há uma tentativa de desculpabilização. A Fernanda Câncio recorda Maria José Nogueira Pinto quando esta disse a dois activistas homossexuais “Mas eu acho que vocês têm o direito de existir!” - como se ela tivesse o direito de dizer quem deve ou não existir e de que forma devem existir.

Ter amigos homossexuais não diz nada. Aliás, ser homossexual também não diz nada. Há homossexuais homofóbicos, como há mulheres machistas, etc..

Portanto, a questão não é essa. A questão é reconhecer dignidade. Ao contrário do que alguém disse, o problema não está em deixar que o homossexual pegue no bébé (porquê, acha que alguém ía pensar que ele ía pegar-lhe sida ou violá-lo?) a questão está em saber se dois adultos têm ou não o direito de viver, por exemplo, casados, se for esse o seu entendimento. Não interessa se a maioria das pessoas em geral ou dos homossexuais em particular pensa assim ou assado: interessa o princípio.

Cabe a cada indivíduo, a partir de princípio básicos, escolher como viver a sua vida.
Tratar os homossexuais como poodles da pseudo-tolerância é apenas, essa sim, uma autêntica manifestação da homofobia.

Os tolerantes com os intolerantes, serão realmente tolerantes?

Uma democracia liberal tem que ser (e isto é um contra-senso, eu sei), em certa medida uma ditadura: A ditadura da liberdade. Ou seja, não se pode aceitar no jogo político de uma democracia liberal aqueles que não aceitam o sistema, sob o risco de essa democracia liberal deixar de existir e obrigar quem defende a liberdade a lutar pela força das armas novamente pela mesma.
Esta é uma questão bicuda e que de todas as formas tem duas respostas possíveis, uma no plano (macro)político e outra a nível individual. Ao nível macro, a resposta de John Rawls (Uma Teoria da Justiça, cap. IV-35) satisfaz-me: a limitação dos intolerantes deve dar-se apenas quando se coloca em causa a liberdade social, ou seja, a comunidade política no seu todo ou em alguma das suas partes é prejudicada na sua liberdade. Os intolerantes não têm em si qualquer direito a ser intolerantes, nem sequer têm o direito de protestar se a comunidade for intolerante para com eles: mas a comunidade política tem o dever de só limitar a sua liberdade se a liberdade de outrem for efectivamente limitada (e isto não implica apenas que por exemplo um A bata em B; se A apelar a que B seja atacado, estará já a pôr em causa os princípios de justiça que regem a comunidade).

Outra questão, bastante mais simples, creio, é no plano pessoal. Ninguém pode a todo o momento insurgir-se sempre contra todas as manifestações de racismo, homofobia, machismo, etc, etc, etc.. Isso é certo.
Na blogosfera, por exemplo, entre Insurgente, Atlântico, Portugal Contemporâneo e tantos outros, o número de bloggers com algum relevo que com alguma frequência emitem opiniões (e vou utilizar a palavra que alguns apelidaram de mal educada - eu, concordando com o que li num post da Fernanda Câncio, considero que pior é ser intolerante) asquerosas não deixariam nenhum descanso aos tolerantes (ou seja, aqueles para quem é importante insurgirmo-nos contra manifestações de intolerância, como o racismo por exemplo).

Sucede apenas que é de estranhar o silêncio permanente nuns casos e o alarde permanente sobre outros. Pode até ser que quem esteja calado não concorde inteiramente com essas opiniões. Mas quem partilha o mesmo espaço que esses autores e não se opõe a essas opiniões então de facto quando se cala diz muito a respeito de si próprio.

Isto, em termos genéricos. Em termos concretos, quem apresenta estudos "científicos" nos quais se defende que os brancos são mais inteligentes que os negros é intolerante. E portanto voltamos ao ponto de partida: quem é que é intolerante? Quem não tolera a intolerância, ou quem é intolerante à partida? Poderemos ser individualmente tolerantes perante os intolerantes?

E por que é que esses paladinos do pluralismo só defendem o pluralismo com unhas e dentes quando se trata de uma crítica à intolerância, mas estão "demasiado ocupados" ou "cansados" ou "distraídos" ou qualquer outra coisa para sequer escrever uma brevíssima frase sobre a intolerância racial, sexual, religiosa (excepto se vier do islamismo), etc.?
É aqui que eu estabeleço uma fronteira - um cordão sanitário. Não tenho rigorosamente nada que ver com essa gente. Homens como Pacheco Pereira, que jamais defendem os direitos das minorias raciais ou sexuais, que inclusivamente comparam canas de milho a imigrantes (com preferência pelas primeiras, naturalmente) e que depois vêm clamar pelos direitos, liberdades e garantias de homens como Mário Machado - esse tipo de gente não é a minha gente. Cheira a podre o seu pluralismo: tresanda a carcaça ideológica com mortalha nova.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O "neoliberalismo" e a não-resposta

Ora no mundo real há muitos e variados poderes fácticos com poder coercivo, não só sobre o indivíduo, mas também, e em grau cada vez mais elevado, dobre o Estado.
Não faz por isso sentido dizer que para o liberalismo a liberdade se exerce contra toda a concentração de poder. Os neoliberais não combatem toda a concentração de poder, mas apenas a concentração de poder no Estado. A concentração de poder noutras instâncias, em detrimento do indivíduo, não só não a combatem, como a favorecem e preconizam.

Infelizmente, o educadíssimo minarquista (não, não se pode chamar neoliberal) dispensou esta objecção terminando com um deixe-se dessas balelas sobre “neoliberais”. Como disse, o conceito está abastardado e não faço ideia o que quer dizer. Ele sabe o que JLS queria dizer, mas não interessa responder.
O que realmente interessa é que para o minarquista em causa, a concentração do poder nas mãos de poucos indivíduos é mais legítima que a concentração de poder no Estado. Ou seja, a opressão, desde que seja feita por indivíduos, é boa. Se for feita pelo Estado, é má. Há formas aceitáveis, portanto, de opressão. E há, por conseguinte, formas malabarísticas de defendermos a liberdade.

Menos vaga mas, creio, cada vez mais importante e muitíssimo mais complexa, é esta coisa de se entender que as referidas pelo minarquista como multinacionais, e que JLS definiu como poderes fácticos são ao fim e ao cabo, indivíduos. A questão é simples: quem é que manda nas multinacionais? Serão os accionistas? Serão verdadeiramente os accionistas? E mesmo que fossem verdadeiramente os accionistas, absolutamente tudo lhes deveria ser permitido? A questão primeira é que, exceptuando PREC's como o que o BCP está a atravessar, os accionistas mal controlam (mal sabem) do que se passa. É a famigerada assimetria de informação que os "libertários" abominam e da qual nem querem ouvir falar. A segunda questão é que quem quer que mande efectivamente nas empresas tem de ser limitado por princípios legais principalmente aos níveis social e ambiental. E isto para não falar do controlo político das tais multinacionais sobre os Estados.

Porque no fundo a questão não está em saber se a opressão é realizada por vontade própria dos políticos (Estado), se eles são fantoches das multinacionais (os tais "indivíduos" do minarquista) ou se é a maioria da população que está a oprimir uma ou várias minorias.
A questão está na opressão em si, na concentração de poder em si, na inexistência de freios e contrapesos em si.
E foi esta a pergunta do José Luiz Sarmento que ficou por responder. Não me espanta.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Um pouco mais de vergonha, por favor...

No que toca aos últimos 50 anos, não somos nós quem tem telhados de vidro.

É preciso ter uma certa lata para dizer coisas destas. Qualquer pessoa de direita, mais ou menos democrática, tem de ter cuidado quando critica a esquerda portuguesa - pelo simples facto de a esquerda não ter implantado nenhuma ditadura em Portugal.

Se isto é verdade em geral, é-o ainda mais quando a pessoa de direita que diz isto é de facto reaccionária ao melhor estilo da direita que sustentou a ditadura salazarista.
Creio que é preciso algum pudor, alguma vergonha na cara: entre esquerda e direita, não queira a direita armar-se em santa. Quando a esquerda tiver realizado um golpe de estado e depois tiver completado 48 anos de ditadura em Portugal, então aí a direita portuguesa poderá com razão sentir um pouco mais de à vontade para atacar o outro campo.

Oceano pouco pacífico

há os que julgam o liberalismo como um resumo de lógicas económicas; e os que vêem o liberalismo como um todo, feito de direitos fundamentais, de valores como a tolerância e o respeito pela dignidade humana e liberdade económica. Como escrevi, há uma ‘fractura’ indisfarçável nos liberais

Tudo menos imprevisível, a saída de Tiago Mendes da Atlântico deve-se a algo muito simples: os liberais portugueses são, grosso modo, conservadores (quando não reaccionários) que defendem liberdade económica (e sobretudo libertinagem económica). A dimensão ética, da liberdade enquanto valor, está completamente ausente.
Quando presente, a defesa do comércio livre vai a par com a recusa determinada do racismo, por exemplo. São concretizações em planos distintos de uma mesma realidade. Ora, se bem que Tiago Mendes incorpore esse ideal, não quer dizer que todos os que se dizem liberais o façam também.
Sobre a dimensão ética do liberalismo, reler este post.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Hillary Clinton, demasiado à esquerda, demasiado à direita?


Em resposta ao Filipe e ao Sérgio, que aqui me interpelaram a respeito da minha simpatia por Hillary Clinton, aqui vai a minha resposta.


O que o Bill Clinton fez foi, de alguma forma, repor (ou melhor, continuar o trabalho de Reagan e Bush pai na reposição) de um certo sentido histórico do que é o liberalismo e do que é o conservadorismo. O liberalismo visa um Estado com limites bem definidos. O conservadorismo visa um Estado sem limites enquanto continuar a beneficiar as elites.

O que Clinton fez foi limpar o gigantesco défice orçamental e reduzir a dívida pública criada ao longo de anos e anos de absoluto despesismo militarista. E, em contrapartida, orientou o país para a criação de riqueza. Gerar bem estar, diminuir o fardo que a dívida constitui para as gerações futuras e tornar os EUA um país menos belicoso, será isso usar receitas tradicionalmente republicanas? Creio bem que não. Quanto à liberdade comercial, os republicanos só são favoráveis à liberdade de exportar.

Hillary trará, caso vença, para o governo do país a equipa que deu aqueles anos de prosperidade aos EUA. Mas não quero limitar a questão à economia. Há um ou dois meses li um artigo no FT, que infelizmente já não tenho, em que se fazia a comparação entre os três principais candidatos democratas. Ao nível das políticas sociais (saúde principalmente), o candidato que defendia uma política mais activa (mantendo o princípio da liberdade de escolha, no qual assenta o Welfare State americano) não era curiosamente o "esquerdista" Edwards nem o "negro" Obama (por quem a Esquerda anda derretida, mas apenas porque desconhece em absoluto as suas propostas) mas sim Hillary. E conjuga isso, por exemplo, com a liberdade comercial. Essa junção é o âmago do Partido Democrata, que como os americanos dizem e bem (contrariando o sentido comum na Europa em que a palavra se degradou), é liberal.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Propostas interessantes

Por estas bandas, as enormidades são non. Parece que agora querem realizar uma grande campanha revolucionária em prol da eliminação dos semáforos, dos sinais, das passadeiras e das marcas rodoviárias. Ao que parece, o bom senso de cada um e a capacidade negocial serão suficientes para que tudo corra às mil maravilhas.


Recordo-me de ler nos Cisnes Selvagens de Jung Chang as milhentas loucuras que durante o regime maoísta se cometeram em nome da ideologia. Por exemplo, uma fantástica campanha contra as flores e em defesa das ervas daninhas, porque as ervas daninhas eram plantas proletárias. Os bloguistas lá do sítio estariam lindamente nesses tempos. Combater os semáforos porque são socialistas é demais. Muito, muito bom. Para ler e recordar.

Puro génio

She respected her husband in the same way as she respected the General Post Office, as something large, secure and fixed; and though she knew the small number of his talents she appreciated his abstract value as a male.


James Joyce, Dubliners

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Petição

PROPOSTA DE EDIFICAÇÃO DE UM MEMORIAL ÀS VÍTIMAS DO MASSACRE JUDAICO DE LISBOA DE 1506

  • No ano de 1506, a cidade de Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio antijudaico de todos os que são conhecidos no nosso território;
  • Durante três dias, 19, 20 e 21 de Abril, estes acontecimentos, que tiveram início junto ao Convento de S. Domingos (actual Largo de S. Domingos), levaram a que cerca de dois mil lisboetas, por mera suspeita de professarem o judaísmo, tivessem sido barbaramente assassinados e queimados em duas enormes fogueiras no Rossio e na Ribeira;
  • (pretende-se) Evocar este hediondo crime em que consistiu o massacre de 1506, inscrito numa política de intolerância que, segundo Antero de Quental, contribuiu para a decadência deste povo peninsular, será fazer justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância e constituirá uma afirmação inequívoca de Lisboa como cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural.

Teria sido a brincar aos índios e cobóis?

O líder da Juventude Centrista apontou hoje o presidente do Grupo Parlamentar do PCP, Bernardino Soares, como um dos principais protagonistas dos "distúrbios revolucionários" do "Verão Quente" de 1975, altura em que tinha apenas quatro anos.
No almoço do CDS-PP que assinalou o aniversário da operação militar do 25 de Novembro de 1975, na Amadora, Pedro Moutinho disse ser preciso "apontar com frontalidade" alguns dos principais responsáveis por actos como os "sequestros e incêndios às sedes do CDS-PP logo após a revolução de Abril de 1974 e que continuam hoje no activo".
[...] Bernardino José Torrão Soares, nasceu no dia 15 de Setembro de 1971, tendo por isso quatro anos quando se deu o 25 de Novembro de 1975.
Já em relação às Forças Populares 25 de Abril - organização citada pelo líder da JC como estando na mesma linha política do Movimento das Forças Armadas -
[...] terá sido formalmente fundada em 1980 (no período do primeiro Governo da Aliança Democrática, liderado por Francisco Sá Carneiro), ano em que começou a desenvolver a sua actividade. [um bocadinho antes do Verão Quente, portanto]

O PSD e os círculos uninominais

É natural que o PSD esteja particularmente inclinado para a criação de um sistema bipartidário produzido pelos círculos uninominais. Onde de facto há resistências é no PS, no qual há não só uma resistência ideológica de alguns sectores ao monismo como também a compreensão de que seria prejudicado face ao PSD. Se não fossem estas travancas, o PSD já teria levado a sua avante.

Sendo o PSD um partido sem qualquer tipo de cimento ideológico, sempre foi, desde o início, um partido de campanários e caciques. Não é por acaso que os resultados do PSD nas autárquicas são tão bons. O PSD é o melhor partido para quem quer usar a política como forma de obter resultados económicos, seja por carreira directa seja por controlo dos órgãos de poder.
Trata-se de um partido que começou querendo ir para a Internacional Socialista, passou por uma fase de espécie de liberalismo e agora está nos conservadores. Mas, sobretudo, trata-se de um partido criado pelos barões das terras - sobretudo ao Norte. E isto também é importante, porque num sistema de círculos uninominais quem mais ganha é quem consegue garantir um certo número de bastiões. Ao contrário do PSD, o PS não tem Viseu nem Madeira. Tendo uma distribuição mais uniforme a nível nacional, corria o risco de perder consecutivamente eleição após eleição.

Ora, num sistema deste tipo, o que mais conta é fulanização da política e não os pressupostos políticos ou ideológicos. Perfeito para um partido com ideologia a menos e caciques a mais.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Entre o erro e a cobardia...

A verdade é que és livre de escolher. És livre de sair e de te divertires com quem tu quiseres. És livre de te assumires como és. A verdade é que és livre de dizer o que pensas e de te manifestares a favor ou contra esta campanha. A verdade é que és livre de ser feliz.

Ao ler este texto, que terá sido divulgado pela Tagus, dirigi-me ao sítio da campanha. http://www.orgulhohetero.com/ - vazio. Fui então ao sítio principal da Tagus, para ver se lá estaria o texto. Nada. A campanha foi substituída por uma mais antiga, sobre qualquer coisa também não muito brilhante sobre Tunas e Verdade (creio que as maiúsculas ficam aqui bem).

É uma pena que a Tagus tenha retirado a campanha. Sobretudo tenho pena dos accionistas da Tagus. A campanha afastou alguns clientes, e os que poderia ter aproximado por defender esta ideia do cerco das minorias sexuais, perdeu-os com alguma falta daquilo que vulgarmente se diz que está entre as pernas mas que em boa verdade está na Vontade (mantenho-me nas maiúsculas). Chocou, é um facto. Mas se não abriu as portas do mercado, serviu para quê?
Em todo o caso, os pseudo-politicamente-incorrectos que afirmam que a família está em perigo, a raça branca a ser exterminada, a religião a ser perseguida e outros disparates que tais podem regozijar-se. Aí está mais uma prova da existência do lobby gay, essa invenção de um homem que se passeou de tanga nas ruas daquela que seria na altura a capital nacional da pedofilia.

Eles pareciam estúpidos. Mas começo a perceber que talvez vejam mais longe do que eu pensava.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Da idiotice marketeira ao pós-fascismo que perde a vergonha

Numa profissão que exige muita criatividade é certo que haverá ideias menos felizes a serem concretizadas (em marketing isso significa quase sempre, mas não quero ir por aí).

De há uns dias a esta parte vi uns cartazes, no metro, da cerveja Tagus que nos questionam se somos heteros e que apelam ao Orgulho Hetero, havendo até um espaço em que todos os heteros do país, fartos de serem discriminados e ghettizados em bares manhosos do Príncipe Real, podem encontrar pares (fui ao sítio, e na verdade fiquei mais com a impressão que aquilo vai servir é para encher os mails de campanhas publicitárias, mas isso também não interessa nada).


O que me chateia nesta campanha é a ligeireza com que o tema (o orgulho gay, expressão que não me agrada mas que compreendo na medida em que é um combate à homofobia e não uma minimização dos "não-gay") é tratado. Verdade seja dita, de uma cerveja que patrocina os festivais "académicos" (não, não vou voltar à vaca fria das praxes) não espero grande coisa. Mas isto é bastante diferente. Sobretudo, é um tema que a direita (PP e PNR sobretudo - não, não estou a dizer que os dois são a mesma coisa, estou a dizer que têm abordagens muito semelhantes em muitos pontos, o que não quer dizer que o PP seja - porque não é - de extrema-direita) costuma utilizar, um estilo de tratar as coisas - esta ideia de que a família tradicional está a ser destruída, que se está a discriminar negativamente os heterossexuais apenas porque as minorias sexuais começam a ser respeitadas, que os ricos são perseguidos apenas por serem obrigados a pagar impostos, que o casamento está a ser posto em causa, que a Igreja é uma pobre coitada impotente perante o avanço inexorável e maquinado por estranhas, invisíveis (talvez, digo eu, porque inexistentes, ao contrário da Opus Dei) forças que visam instituir coisas abomináveis como o laicismo e o secularismo.
Por conseguinte, esta é das campanhas publicitárias nacionais mais politizadas de que me recordo. Não se admirem pois os marketeiros de o consumo também ele se politizar. Claro - o nicho de marcado PNR é todo deles. Mas, entre cidadãos que não simpatizam com a campanha, e aqueles que não a percebem (estou a pensar naqueles - que ainda existirão - para quem a expressão hetero ainda é vagamente nebulosa) parece-me que há partida a urina de burro com nome de rio parte em desvantagem.


NOTA - dado que duas pessoas (pelo menos) terão pensado que estes cartazes são os que estão nos mupis, aqui vai o esclarecimento: estes cartazes são um ataque à campanha da Tagus e estãoa circular em vários blogs que já pude ler. Creio que o que reúne maior quantidade é este. Reitero que o sítio da campanha da Tagus é este e só este: http://www.orgulhohetero.com/.
Peço desculpa pelos possíveis erros e espero que tenha ficado claro.



Entretanto, surgem já ideias para futuras campanhas da Tagus, como por exemplo o Orgulho Jovem ou o Orgulho Macho. Creio que são ideias tão indigentes do ponto de vista intelectual quanto a original. Creio que estão ao nível dos marketeiros da Tagus que, certamente, aproveitá-las-ão.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A piroseira bacoca transformada em pensamento político

Concordando eu com praticamente tudo o que está neste texto, não posso deixar de me enternecer com a joãocarlosespadada
  • Estão a transformar-se no equivalente Angolano à Aristocracia Europeia no que toca à defesa da ordem e propriedade privada.
As verdades absolutas, a falta de rigor histórico, a maiúscula - meu deus! - a maiúscula!...

Isto é uma escola de pensamento que se está a instituir, uma verdadeira escola. Bom, melhor ainda, um colégio. Uma verdadeira Eton do pensamento político.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Desafio bloguista

A Bianca lançou-me um deafio, e aqui vai ele:

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

O livro é Les Amours Interdits de Yukio Mishima e a frase Ils s'attablèrent dans un coin et Kyôko ôta avec désinvolture ses gants de dentelle.

As próximas "vítimas":
Dieter do A Luta
Jardineiro de Montparnasse do Dançamos no Mundo
José Luiz Sarmento do As minhas Leituras
Ana Rita do Margem Esquerda
Graça do Inflorescências

domingo, 18 de novembro de 2007

Doença, diz a "psicóloga"



Para uma boa análise de quem é esta coisa e do que ela defende, ler este bom post.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Escola pública, escola estatal?

Cerca de três décadas de decadência do Estado-Providência derrubaram a mentalidade então dominante de "tudo ao Estado" para um crescente "tudo aos privados" (ou, pelo menos, criou-se uma divisão entre estatistas e privatistas, coisa que muito debilmente existiria há umas décadas atrás e certamente nunca com predomínio dos segundos). É curioso, contudo, que nem num nem noutro campo surja alguém que recoloque algumas questões.

Desde logo, por que é que antes de dizermos quem é que deve cumprir determinada tarefa, ninguém se questiona sobre a natureza da tarefa? Será que é mais importante o como que o porquê? O que quer dizer isso de escola pública, essa entidade que a Esquerda afirma defender com unhas e dentes e a Direita, com pejo de afirmar que não gosta dela, afirma que os privados know-best? E quem são esses privados? Não passarão eles apenas da manifestação conceptual (nebulosa, nebulosa como sempre) do nosso zeitgeist, como noutros tempos o foi o Estado? Não será possível encontrar uma posição que transcenda o aparato e se concentre não na liturgia (nas fórmulas, nas imagens adoradas) mas na missão?

Eu permito-me a arrogância de não ter preferência por nenhum molde pré-fabricado de escola (ou seja, não acho que nenhuma seja melhor porque sim). No entanto, afirmo claramente que defendo a escola pública, não a escola estatal da Esquerda, mas uma escola que (este é o fim, a tarefa, a missão) cumpra objectivos públicos. E desde que os cumpra, ela é pública e deve ser financiada com dinheiro de todos. No entanto, como ela pode tomar todas as formas legais disponíveis, fica-lhe vedada a posse estatal: num sistema concorrencial, não faz sentido o Estado concorrer com os demais - seja porque um governante estatista pode beneficiar a escola estatal, seja porque um governante privatista vai usar a escola estatal como bombo da festa.
Se rejeito a escola estatal da Esquerda, não rejeito menos a defesa da desRazão pósmodernista da Direita, que defende que as escolas podem ensinar coisas diferentes do que a Constituição dita (por hipótese, ensinar teorias religiosamente fundadas ou a discriminação com base racial ou sexual). Isto resulta do próprio conceito de escola pública: uma escola que ensina algo contrário ao que o contrato que nos rege a todos afirma, não pode (não faz sentido) ser financiada com dinheiro de todos. Por fim (e não menos importante) nenhuma escola pública pode discriminar qualquer aluno com base noutro critério que não seja o puro mérito (medido com exames nacionais anuais). A escola que o pretenda fazer, deve poder fazê-lo - mas não pode esperar que todos contribuam para a manutenção, no seio de uma sociedade que deve ser aberta e meritocrática, de sistemas endogâmicos e exclusivistas.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Sobre a necessidade da divindade

Uma das coisas que me despertou a atenção foi a alegada tendência para os seres humanos precisarem do sagrado; bom, se formos por aí então o Cristianismo tem realmente de ser todo revisto. Uma religião que desde o início não é mais que uma cambada de ressabiados em relação ao sexo - a coisa mais natural a seguir à fome, sede ou amor à vida - e que portanto se funda na repressão dos nossos instintos mais primários, dificilmente terá moral para falar em necessidade do sagrado.

Em boa verdade, o que era realmente bom é que homens como Dawkins não tivessem de se preocupar com os religiosos, ou seja, que os religiosos vivessem as suas fantasias sem incomodarem os outros. É porque a religião insiste em impôr-se aos outros que argumentações racionais em torno de um assunto não racionalizável (as divindades são irracionalidade pura, e provar a irracionalidade da falta de razão é tão degradante como irritante como ainda e mais prosaicamente um perfeito disparate) têm de surgir. É uma pena que mentes como Dawkins se tenham de ocupar de uma coisa tão óbvia.

O debate deveria centrar-se numa coisa mais simples, que é a de garantir em questões concretas princípios universalmente aceites como a laicidade do Estado ou a secularidade da sociedade - e não, por exemplo, a não-contaminação da ciência pela religião. Mais de dois séculos após o Iluminismo ainda estarmos à volta de algo tão básico é desesperante.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Tudo bons rapazes

Picados pelo ritual do haka – caracterizado pelos gestos e gritos primitivos simulando o domínio sexual do adversário – com que foram prendados pelos colegas de licenciatura em Engenharia Informática (LEI) da Universidade do Minho –, os estudantes do Instituto de Engenharia Superior do Porto (ISEP) perderam as estribeiras quando um elemento do seu grupo foi atingido pelo spray de um extintor dos caloiros minhotos. “Entraram sete rapazes e uma rapariga aos berros e aflitos que se meteram aqui na oficina, e de seguida vi para aí 40 ou 50 tipos com garrafas, garrafões e matracas, aparentemente bem bebidos, aos berros e a quererem bater nos de Braga”, disse ao CM João Pinto, descrevendo o cenário ocorrido ao final da tarde de anteontem na sua oficina Copiauto.
Exaltados, os alunos do Porto chegaram a utilizar gás pimenta e provocaram vários danos em alguns carros. João Pinto chegou a temer pela vida dos universitários minhotos, que ficaram sequestrados. [...] “Foram momentos terríveis e de grande tensão. Parecia algo só possível de acontecer num filme. Uma grande confusão, dezenas e dezenas de alunos aos berros e a gritar sucessivas ameaças, com a polícia à mistura e as sirenes da ambulância. Mais atrás ainda havia gente com uns copos de cerveja e também alguns com garrafas de Vinho do Porto”, descreveu ao CM uma moradora [...].

Há umas duas semanas escrevi um post em que defendia que as praxes devem ser simultaneamente permitidas e fortemente reguladas, por forma a garantir que efectivamente existe liberdade de escolha. Isto implica que à liberdade de praxar deve corresponder a responsabilidade de praxar dentro de limites aceitáveis.
Tenho sérias dúvidas que uma turba de bêbedos armados pretendendo espancar meia dúzia de pessoas e destruindo propriedade alheia seja agir dentro de limites aceitáveis. A expulsão ou, pelo menos, a suspensão dos alunos em causa seria o mínimo que a universidade poderia fazer, já para não falar das reparações pelos danos causados, que teria de ser tratada a nível jurídico.
Esta foi a parte em que me indignei. A parte em que me rio é aquela em que os trogloditas praxantes simulam o domínio sexual dos oponentes. Para quem possa achar ridícula a comparação entre o sadomasoquismo e as praxes, aí fica a bofetada.

A escala europeia

Defendendo eu a iniciativa por um referendo europeu, só posso aplaudir o texto de Miguel Pacheco no Diário Económico:


não seria de todo descabido abrir o precedente jurídico de um referendo simultâneo à escala europeia. Com todos os problemas, desafios e vantagens que ele carrega. Desde logo, esse plebiscito global permitiria criar um efeito mobilizador à escala comunitária, minimizando os feudalismos - e sectarismos - nacionais contra a Europa. Ao mesmo tempo ajudaria a criar a ideia de que somos afinal todos europeus e iguais, passando um atestado de legitimidade às instituições europeias.
Claro que o peso de cada país teria que ser, naturalmente, corrigido na sua proporcionalidade para evitar desequilíbrios. Mas só assim as reticências holandesas e francesas passariam a ser uma gota de água neste oceano maior, onde a grande maioria aprova a ideia de uma construção europeia. 50 anos depois de Roma, seria um atestado de competência a este projecto. Claro que há riscos. E uma boa dose de idealismo nesta solução. Mas sonhar nunca fez mal a ninguém.

Haja mais opiniões neste sentido!

domingo, 21 de outubro de 2007

Um tratado remendado - Annemie Neyts da ELDR

Porreiro, pá! - ou como fugir em frente pela porta do cavalo

Há críticas relativamente justas que se podem fazer ao texto da constituição europeia. O seu volume assusta. Não foi feita de forma democrática. Mas tinha virtudes: sistematizava. Instituía princípios políticos basilares que definiam o que é em concreto ser europeu.
A desconfiança dos cidadãos holandeses e franceses face a um texto muito grande, alvo de um sem número de mistificações (que livremente puderam correr não só pela dimensão e ilegibilidade do texto como pela obscuridade que implica a sua escrita por um conjunto de iluminados politicamente irresponsáveis que ninguém conhecia, que não prestavam contas perante os cidadãos e que sobretudo, e isto é fundamental, foram político-burocraticamente nomeados e não democraticamente eleitos para o efeito) resultou num duplo chumbo.
Grande crise, a eurocracia treme, e agora pá, e agora pá? Ah, claro, vamos simplificar o texto. E assim foi. Os elementos que estariam na base do necessário aparelho simbólico da cidadania europeia desapareceram, os princípios foram rasgados em nome das leis laborais de Tatcher e do ultracatolicismo que não é bacoco apenas porque é demasiado perigoso de uma Polónia que esqueceu o seu passado ou se lembra demasiado do seu passado para se recordar do que ela poderia ser sem Europa e de ter sido o primeiro país europeu com uma Constituição moderna. E pouco mais mudou. A maioria (que não o essencial) do texto inicial está aí.
E vai passar, ser aprovado como sempre foi tudo aprovado nas comunidades europeias: o povo é estúpido e não sabe o que é bom para ele. Os governos, negociando fatias e migalhas de supostos interesses nacionais, vão fazer tudo pela porta do cavalo, dado que a resposta que anteriormente ouviram não lhes convinha. É uma fuga para a frente que se arrisca a ter como destino o precipício. Tinha sido daí que tínhamos fugido no princípio.
Ontem participei num debate de um magazine europeu online (Cafébabel.com) em que o redactor Fernando Navarro afirmava que é vital a existência (ou seja, a criação, e que só pode ser criação a partir de baixo) de uma opinião pública europeia. Ou seja, é fundamental haver um conjunto de pessoas que olhem para a Europa desde um ponto de vista europeu. Concordo e acrescento que só assim a Europa se irá corporizar, ser real, e só assim esta mistura pardacenta de governos e burocratas vai realmente começar a ser posta em causa. Houvesse uma opinião pública europeia e tudo teria sido radicalmente diferente: a constituição provavelmente seria elaborada por uma assembleia constituinte europeia constituída por deputados mandatados para o efeito e a ratificação far-se-ía por um referendo único europeu.
E não tenho dúvidas nenhumas que, se o processo fosse este, teríamos uma constituição que seria facilmente aprovada em todos (bom quase todos - o Reino Unido votará sempre contra, mas era da maneira que teria de sair da UE) os países europeus.
Termino com uma declaração de Medeiros Ferreira na Única desta semana "As questões da Europa só são discutidas nos cafés quando a imprensa, os políticos ou líderes de opinião os suscitam a falar e a pensar sobre determinados assuntos. De outra forma há, quando muito, uma reflexão adjacente à sua vida quotidiana." O problema é que os próprios governantes actuais, ao invés de se centrarem no tal ponto de vista europeu, preferem manter a discussão e a negociação nas questiúnculas comezinhas ou na alarvidade absoluta: os sítios onde as coisas são assinadas, aquele deputado extra ou se a pena de morte é uma coisa má ou não.

sábado, 20 de outubro de 2007

Millennium - recebido por e-mail


Se não tens pais ricos tens mesmo
de ir ao BES!

A criar excêntricos todas
as semanas!

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Richard Dawkins entrevistado na Sábado

A ler, a entrevista de Vanda Marques na Sábado desta semana a Richard Dawkins, na sequência do lançamento da tradução portuguesa do livro The God Delusion pela Casa das Letras.

A respeito de reacções interessantes ao livro do autor, este blogue é interesante. O tipo de atitudes a que a Igreja nos habitua estão todas aqui. Por um lado, o autor afirma aqui que Agora o que sobressai é um apelo: que aqueles que falam em nome de Deus procurem aprender com Ele a paz. Chega mesmo a afirmar que estamos num mundo que está mal e que está cada vez mais sem deus. Curiosamente, essa afirmação restringe-se apenas a uma das poucas partes do mundo em que a tolerância ainda é uma regra - embora o ultracatolicismo instigado pelo Vaticano esteja a tentar quebrar a excepção através do exemplo polaco. Em todos os resto do mundo as religiões estão com um vigor como há muito se não conhecia. E como tem ficado o mundo? Menos pacífico, isso é pacífico. E será coincidência? De forma alguma. Dawkins explica porquê.
Ora, quem afirma que é preciso os crentes aprenderem a paz deveria, presumo, condenar todos aqueles que instiguem à violência em nome de deus, certo? Errado! Menção ao cardeal que apela à rebelião católica contra o Estado laico e à sociedade secular sem qualquer menção à frase que o mesmo proferiu e que quase despercebida passou.

Falso moralismo católico é uma expressão que cedo aprendi a dizer, depois de ter lido boa parte da Bíblia. E estes anos todos depois, continua a fazer o mesmo sentido que fazia no início.

Renováveis, para quê?


Preços do petróleo estabelecem novos recordes aproximando-se dos 88 dólares em Nova Iorque
Os preços do petróleo atingiram hoje novos recordes, aproximando-se dos 88 dólares por barril nos Estados Unidos, num mercado preocupado com as consequências de uma eventual ofensiva turca na fronteira iraquiana.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Desenvolvimento Sustentável: da Ética Empresarial à Ética dos Consumidores

Bloggers Unite - Blog Action Day

(este post insere-se na iniciativa Blog Action Day pelo Ambiente)

*

Já que conhecemos os riscos do atual modelo de desenvolvimento, temos recursos e tecnologia e sabemos o que deve ser feito para alcançar a justiça social e cuidar do planeta, a opção pelo desenvolvimento sustentável depende apenas da vontade política dos governos e da sociedade. Ou seja, trata-se de uma escolha ética.
Manifesto pelo Desenvolvimento Sustentável / 2006 do Instituto Ethos

Parecem modelos perfeitos, mas são verdadeiros fracassos de vendas. Os consumidores europeus continuam a optar por versões mais potentes e não estão dispostos a pagar mais para terem meios de transporte energicamente eficientes.
Diário Económico

*****

Muitas vezes são as empresas criticadas por não desenvolverem produtos ecológicos ou por seguirem lógicas produtivas socialmente nefastas. No entanto, se realmente defendermos a liberdade e a responsabilidade deveremos, para além de inquirir as empresas, confrontar os consumidores com os seus actos e as suas opções. Não é justo nem benéfico utilizar as empresas como saco de boxe da má consciência global e por outro lado tratar os consumidores como se fossem crianças.

Os clientes, os consumidores, são a chave para alguns dos dilemas que se colocam no que respeita à exequibilidade da ética empresarial. Proliferam os rankings de empresas que são boas empregadoras, desenhados por instituições ou órgãos de comunicação; há também já múltiplos fundos éticos e até índices como o FTSE4Good, destinado a facilitar o investimento socialmente responsável e a aposta em empresas guiadas por uma gestão transparente. A ética do consumidor é a melhor contrapartida que pode haver para uma ética da empresa. À responsabilidade da empresa deve corresponder a responsabilidade do consumidor, que se deve preocupar em adoptar um consumo consciente e crítico face a políticas de contratação, higiene, segurança, transparência, honestidade no seio das empresas que produzem os bens ou fornecem os serviços que vai adquirir. De facto, muita da crítica ao capitalismo é uma crítica à democracia na medida em que é uma crítica à capacidade de escolha de cada indivíduo. A maturidade em todas as escolhas que efectuamos é decisiva para formatar os Estados em que vivemos, as sociedades em que nos movemos e os mercados que nos abastecem. Isto corresponde precisamente à prossecução do projecto iluminista numa época pós-convencional de, como Kant afirmou, sermos capazes de nos guiarmos por nós próprios, assumirmos o peso de sair da menoridade confortável a que o consumo automático nos restringe.

A ética do consumo não faz parte da ética empresarial – mas é a consequência lógica da mesma, uma exigência de justiça; movendo-nos no plano da ética e não do direito, a coação não pode ser jurídica. No entanto, a coacção moral num sujeito colectivo como é a empresa só pode dar-se através de algo tangível. O consumerismo (ético e ecológico) é a recompensa prática da empresa ética e a punição da empresa que se furta a ser responsável.

domingo, 14 de outubro de 2007

Rebelião contra a religião


Se alguém disser que defende uma rebelião contra a religião e as igrejas, será acusado de intolerância. Mas se o acontecimento for
Secretário de Estado do Vaticano apela à "rebelião" dos cristãos face ao laicismo
então a coisa passa relativamente despercebida.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

An inconvenient Prize


Há quem diga que este não é um prémio justo por dois motivos:
- Gore apenas fez o que fez para promoção pessoal
- o prémio é da Paz, não do Ambiente.

Eu apoio esta atribuição por vários motivos. Desde logo, não me interessa se ele fez o que fez para promoção pessoal ou por altruísmo. Aliás, é duvidoso que o ser humano aja por altruísmo na vida pessoal. É ainda mais duvidoso que o façamos assim na vida política.
Por outro lado, não perceber que o ambiente (os recursos energéticos, a água, os desastres naturais, a desertificação) ao mesmo tempo que é fonte de guerras actuais poderá vir a gerar cada vez mais guerras no futuro é não perceber nada, não apenas do presente ou do futuro, mas até do passado: devem contar-se pelos dedos as guerras que não tiveram como base a luta pelo controlo de determinados recursos. Com o declínio de alguns dos principais sustentáculos não só das sociedades modernas (petróleo, por exemplo) como da própria vida (água potável) há alguma razão para crermos que a situação vai melhorar?

Esta foi uma boa mensagem que foi passada pela Academia. Eu aplaudo este prémio inconveniente (que foi também atribuído ao IPCC).

E não vou falar que não estou a ver quem mais poderia receber um prémio Nobel da Paz neste momento.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Esta juventude está perdida

Julgo que a proposta aprovada hoje neste plenário de estudantes candidatos ao primeiro ano e apresentada pela sua inter comissões de luta órgão que todos souberam erguer para poder fazer avançar a luta é uma proposta inteiramente justa e que conduz no sentido correcto da luta que é no sentido de ingresso imediato da sua aplicação desde já e de exigir das autoridades governamentais a legalização; pois nós temos que ver que esta questão da luta contra o serviço cívico, que já foi vista o ano passado e temos que seja quem for que está no ministério da educação e da investigação cientifica, chamemos-lhe assim, defende essa medida, medida essa que não é mais que o reflexo da crise do sistema de ensino burguês, e medida essa que é inteiramente incorrecta, anti operária e anti popular que lança estudantes contra trabalhadores e trabalhadores contra estudantes.

Aqui estão as competências linguísticas de um jovem universitário de classe média-alta, há 30 anos atrás e que teve toda a sua escolaridade ainda nos gloriosos tempos da Outra Senhora. Diga-se o que se disser a respeito do nosso sistema de ensino, em 30 anos avançámos muito. Gente um pouco mais ignorante haverá sempre, mas não só creio que não encontraríamos muitos universitários hoje capazes de dizer tantas asneiras como também acho que os que se equiparam hoje àquele grau de alarvidade se remetem ao silêncio.

E saber estar calado, tal como saber falar, é um sinal de sabedoria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O Youtube explicado à luz de Adam Smith


O ataque dos bambis assassinos


Num recente livro John Mueller, um académico americano, constata que o número dos seus concidadãos mortos por terroristas desde 1960 "é aproximadamente igual ao número de mortos no mesmo período em resultado de acidentes provocados por veados".

Fiquei incomodado quando li isto. Até este momento sempre tinha gostado de ver os veados no Richmond Park em Londres. Agora dou por mim a olhar para eles com suspeição e ressentimento. Naturalmente, devemos ser cuidadosos para não generalizar a respeito dos veados. A maior parte deles vive vidas pacíficas. Mas certamente que é loucura cegarmo-nos perante a ameaça assassina colocada por uma pequena mas fanática minoria da comunidade dos veados! Uma ideologia abominável alojou-se entre as suas armações. Eles parecem decididos a matar e morrer em prol de uma fantasia mortífera - regressar a uma idade de ouro em que os veados controlavam as florestas da Europa medieval.

Gideon Rachman, Financial Times 9 de Outubro

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Repensar o Centro

Ainda sobre este post, encontrei este artigo na wikipedia em que se fala do liberalismo social. O posicionamento a ele atribuído parece-me bastante correcto e corresponde exactamente àquilo que eu quis dizer a respeito do liberalismo.


Liberalismo como princípio ético: uma crítica aos "liberais clássicos" (conservadores economicamente liberais)

Classical liberals largely seem to miss the point that a man’s liberality is not determined by how low they want taxes to be, nor one’s belief in the working’s of markets, but has far more to do with the workings of mankind. If liberals believe in a free market, it is not because they believe that it is the greatest way to prosperity, but rather that it is because mankind is capable of embracing and making its own economic decisions.
[...]
And there we have the crux of the matter. So-called ‘classical liberals’ have themselves failed to understand what liberalism truly means by believing that economics and ideology are inseparable, or at most one and the same. They see the glorious days of Ricardo, Malthus and Adam Smith as the days of true liberalism, when it meant what it said on the tin. Free trade was the conventional wisdom, and the evils of government intervention were negligible. To them this is liberalism, a free market, a small government and the public sorting public problems out themselves. Many within our party (and even more so within the conservative party) would agree. How wrong they all are.
Liberalism has never been about method, it is about fundamental beliefs in humanity that human beings are capable of making their own decisions in life, that they generally know what is good and bad for themselves and society - and are therefore capable of taking economic, political and social decisions themselves - combined with distrust for traditional and powerful elites (whether aristocratic, governmental or corporate).
‘Classical liberals’ place all their liberal faith in economic beliefs and none in the social or political ones, believing they can dilute humanity down to economic self serving machinations. Let me ask one question: if people are so capable of making their own economic decisions, then why are they so incapable of making political or social ones?

John Dixon (jovem militante do LibDem e autor do blog A Radical writes...) em LibDemVoices

Repensar a Esquerda, o Centro e a Direita

Numa blogosfera em que dominam sobretudo os blogues ou mais à Direita ou mais à Esquerda (e em particular os primeiros), ter espaços como o Esquerda Republica ou o Margem Esquerda é sem dúvida positivo. Poderia referir outros blogues próximos desta área, mas fico-me pelo essencial para este post que vem na sequência deste outro e ainda de uma série de posts que foram escritos no Esquerda Republicana, a saber, Socialismo e Liberalismo partes I, II e III.

No Margem Esquerda encontramos a frase Talvez porque foram os liberais os primeiros a assentarem na margem esquerda da política.
No texto de João Cardoso Rosas, Há uma esquerda estatista e uma esquerda liberal. Também há uma direita liberal [...] e uma direita estatista.
No Esquerda Republicana lemos Deveria ser possível a pena de morte? É correcto impedir o consumo de drogas pesadas? E leves? A prostituição deve ser proibida? É legítimo controlar a entrada de emigrantes? A eutanásia deve ser proibida?Se respondeu "sim" a estas perguntas todas, não invente desculpas: o leitor não é um liberal. Se tem pena, porque gosta da palavra "liberal, pois fá-lo sentir-se um pouco rebelde, mas não gosta nada da bandalheira em que a "ditadura da liberdade" resulta, auto-intitule-se "liberal à la Pedro Arroja" para causar menos confusão.

Desde logo eu ponho uma objecção que creio não ser irrelevante à divisão que João Vasco faz, recorrendo à já normal divisão (mais sofisticada que a separação Esquerda/Direita) entre uma avaliação de posições económicas e sociais. Ele coloca todo o extremo libertário desde o ponto mais à esquerda até ao ponto mais à direita no campo liberal. A minha questão é que isto desvirtua o conceito. Se o liberalismo é isso tudo, então o que é?


Creio que pelo menos o anarquismo de Esquerda tem de ser subtraído desse campo. Resta como tratar os libertários de Direita, o que teoricamente pode ser uma questão encantadora mas em termos práticos é nula: está por nascer o homem ou mulher que conseguir honestamente colocar-se no extremo inferior de direita. No entanto e admitindo essa possibilidade, admitamos que serão os libertarians a ficar nesse canto, e por extensão todos aqueles que se reclamarem apoiantes e seguidores do pensamento de Friedman na sua integralidade (e não mantendo o libertarismo económico expurgando o libertarismo nos costumes).

Temos, portanto, os anarquistas e os libertarians nos extremos. Não é difícil perceber onde quero chegar. O liberalismo, que na esfera dos costumes se pode desenvolver ao longo de toda a parte inferior do eixo vertical, tenderá a colocar-se nas zonas centrais do eixo horizontal, seja mais à esquerda seja mais à direita.


A título exemplificativo vejamos a seguinte distribuição de resultados neste esquema de alguns filiados no único movimento político liberal português:




O resultado parece ser congruente com o que eu já tinha afirmado. Usando-me a mim próprio como cobaia, o resultado foi


Ao contrário do que tanto comunistas e afins, e conservadores e afins costumam afirmar, o liberalismo não é uma doutrina de Direita, mas sim de Centro. E de Centro não indiferentista, não baseado na gestão de interesses - isso é aquilo em que a social-democracia (ou socialismo liberal) e o conservadorismo moderado (ou conservadorismo liberal) caíram por cedência à realidade, ou seja, por terem de aceitar pelo menos parcialmente o liberalismo económico. A questão é que esta cedência implica uma corruptela da ideia que abre caminho a situações ideologicamente insustentáveis. Recentemente dei um exemplo (em Portugal) da incoerência social-democrata e dois exemplos (um americano e outro francês) da incoerência conservadora.

Muitas das considerações menos lisonjeiras que são utilizadas contra o liberalismo resultam desta confusão e desta mistura que esvazia o conceito de mercado da sua dimensão ética (o que implica direitos mas também - facto tão frequentemente esquecido ou vituperado à Direita - deveres) e o transforma numa luta despida de outros princípios que não o interesse pessoal imediato (o que implica que se eu puder roubar sem ser apanhado para obter mais ganhos, o devo fazer).


Muito mais importante é no entanto outra coisa. A própria conceptualização do gráfico da bússola política não permite captar toda a dimensão do problema. Nomeadamente, a abordagem feita ao eixo económico leva-nos a concluir - de forma errónea pelo que acabei de dizer a respeito do conservadorismo - que quanto mais para a Direita caminharmos, menos economicamente estatista seremos.
Ora, aceitar isto implica aceitar que a influência do Estado sobre a economia se faz exclusivamente por via da posse dos meios de produção ou de mecanismos de redistribuição oficiais. Politicamente a realidade é bastante mais complexa e o intervencionismo conservador atesta-o. Um Estado pode ser fortemente intervencionista sem ter uma única empresa pública nem segurança social nem Educação ou saúde públicas. O Estado pode centrar a sua actuação na protecção das empresas nacionais e no seu fortalecimento face à concorrência estrangeira, manipulação do mercado que qualquer bom conservador aceitará de forma mais ou menos explícita e perante a qual qualquer bom liberal tenderá a arrepiar-se.

Portanto aquele gráfico transmite-nos uma ideia errada se aceitarmos as coordenadas os eixos "sociedade" e "economia". Temos duas alternativas:

  • transformar o posicionamento político de f(sociedade, economia) em f(costumes, propriedade, Estado) - o que pessoalmente considero pouco prático;
  • substituir sociedade e economia por dois valores: liberdade (substituindo a sociedade) e igualdade (substituindo a economia).

O seu a seu dono: fui recolher esta ideia ao artigo de João Cardoso Rosas. E passo a explicar a minha posição, embora quem tiver lido o artigo já possa estar a adivinhar por esta altura a conclusão. Para defender a ideia de que o PS é de Esquerda, o autor referiu as várias políticas deste partido que têm como objectivo a igualdade, embora a igualdade não na perspectiva maximalista do comunismo mas na perspectiva da igualdade de oportunidades. Portanto, numa visão mitigada, moderada, centrista de igualdade. No extremo esquerdo temos as famílias políticas que defendem a igualdade concreta e absoluta; no extremo direito encontraremos enfim aquelas famílias que negarão a igualdade (ou seja, que afirmarão ou que a igualdade põe em causa a propriedade e a liberdade, ou - o que é o mesmo - que a igualdade é um dado adquirido: somos todos iguais em teoria e portanto nenhuma actuação política para gerar igualdade real é legítima).

Qualquer uma das posições que ora referi é compatível com maior ou menor intervenção do Estado, sendo que no entanto ao centro encontraremos políticas mitigadoras da desigualdade real e que visem efectivar a igualdade teórica (ou seja, a todos deve ser dada a oportunidade de competir); à esquerda encontraremos uma negação da competição pela proibição da desigualdade; à direita encontraremos uma negação da competição pelo impedimento prático (que vai a par com a permissão teórica) da competição.
As variações serão por conseguinte produto da nossa vontade de estimular uma maior ou menor dinâmica social, ou seja, uma maior ou menor separação do indivíduo face ao meio envolvente. Pela sua posição central, o liberalismo (nos termos em que o defini no início, por oposição aos anarquistas e aos libertarians) é quem mais individualista é, não só pela defesa da liberdade de costumes, mas porque do ponto de vista socio-económico não aceita nem a sua absorção pela colectividade nem que o seu sucesso seja simplesmente produto do nascimento.

domingo, 7 de outubro de 2007

Energia: vantagens políticas da liberalização económica

Da entrevista a António Costa e Silva retiramos essencialmente as seguintes conclusões:

  1. - Sofremos de grande dependência de um vizinho fortemente duvidoso; essa dependência tenderá, se nada for feito, a agravar-se no futuro.
  2. - A existência de monopólios nacionais no seio da União Europeia, ao invés de defender esses mesmos interesses (argumento utilizado tanto à Esquerda como à Direita - veja-se o caso que recentemente trouxe de Sarkozy) representa um perigo enorme. Um só decisor que não presta contas a ninguém é permeável a manipulação política e a corrupção económica (e as intrigas palacianas sempre foram o forte dos czares).
  3. - A Europa não só tem de, como pode facilmente encontrar alternativas perfeitamente viáveis à dependência face à Rússia. E, cá para nós que ninguém nos ouve, Portugal, pela sua localização e pela sua relação com países como a Argélia, Venezuela ou São Tomé e Príncipe, seria um dos maiores beneficiados.
  4. - A questão energética é o exemplo acabado de como o Estado nacional é uma unidade insuficiente para responder as desafios actuais. Geopoliticamente temos de pensar em termos de grandes blocos (a Europa face à Rússia e satélites, a Europa face ao Magreb, a Europa face à África subsaariana, etc.); economicamente, as grandes companhias estatais que controlam produção e distribuição não protegem os consumidores.
Curiosamente - ou nem tanto - promover a luta entre diferentes empresas de produção e de distribuição poderá ser a melhor forma de vencer o combate contra o senhor Putin.

A Identidade, a Complexidade e a Tolerância

When I think of my country and culture, the first thing comes to mind is the sense of belonging to nowhere. [...] There is no doubt that what provides a lot of conflicts also contributes positively to Turkish culture and distinguishes it from other cultures and countries with its unique mixture between the West and the East.

Ao ler o texto de Eda Sirma lembrei-me (inevitavelmente) de Amin Maalouf, autor do qual já aqui falei mais do que uma vez. Melhor que eu falar dele novamente, será talvez dar um pequeno gosto da sua escrita. Retirei o sumo do seu ensaio Les Identités Meurtrières.

Depuis que j'ai quitté le Liban en 1976 pour m'installer en France, que de fois m'a-t-on demandé, avec les meilleures intentions du monde, si je me sentais "plutôt français" ou "plutôt libanais". Je réponds invariablement: "L'un et l'autre!" Non par un quelque souci d'équilibre ou équité, mais parce qu'en répondant différemment, je mentirais. Ce qui fait que je suis moi-même et pas un autre, c'est que je suis ainsi à la lisière de deux pays, de deux ou trois langues, de plusieurs traditions culturelles. C'est précisément cela qui définit mon identité.
[...]
Moitié français, donc, et moitié libanais? Pas du tout! L'identité ne se compartimente pas, elle ne se répartit ni par moitiés, ni par tiers, ni par plages cloisonnées. Je n'ai pas plusieurs identités, j'en ai une seule, faite de tous les éléments qui l'ont façonnée, selon un "dosage" particulier qui n'est jamais le même d'une personne à l'autre.
[...]
Toutes ces appartenances n'ont évidemment pas la même importance, en tout cas pas au même moment. Mais aucune n'est totalement insignifiante. Ce sont les éléments constitutifs de la personnalité, on pourrait presque dire "les génes de l'âme", à condition de préciser que la plupart ne sont pas innés. Si chacun de ses éléments peut se rencontrer chez un grand nombre d'individus, jamais on ne retrouve la même combinaison chez deux personnes différentes, et c'est justement cela qui fait la richesse de chacun, sa valeur propre, c'est c'est ce qui fait que tout être est singulier et potenciellement irremplaçable.

A perspectiva de Maalouf leva-nos a encarar a complexidade identitária não como uma degeneração e de certa forma nem tanto como uma riqueza, mas como uma inevitabilidade. Riqueza será talvez ter a coragem de reconhecer a diversidade que cada um de nós integra em si. A Turquia tem o enorme peso sobre si de mostrar ao mundo algo que deveria ser evidente: que a tolerância não é um exclusivo dos países de raiz cristã. A sua identidade complexa é precisamente a melhor maneira de atingir esse objectivo.
No Traité sur la Tolérance Voltaire afirmava que os países tolerantes não seriam aqueles em que predominasse uma religião, nem duas, mas onde houvesse tantas que nenhuma conseguisse dominar as outras. Transponhamos essa ideia para os elementos da nossa identidade e teremos uma resposta simples para a difícil questão de como afastar a intolerância - a dos outros, e a nossa.
Muitos supostos defensores da Liberdade no Ocidente estão a adoptar o islamismo como objecto do seu ódio. Isso leva-os a calmamente aceitar a companhia de fundamentalistas cristãos (o que me leva a questionar se eles realmente defendem a Liberdade em si ou apenas porque acham que ela é um atributo ocidental). Esperemos que da Turquia venha a bofetada que merecem.

sábado, 6 de outubro de 2007

Energia, Monopólios e Geopolítica: o braço longo de Putin

Excerto da entrevista a António Costa e Silva, presidente da Partex, no Jornal de Negócios de 3 de Outubro

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A partir de 2011 podem faltar à Europa cerca de 70000 milhões de metros cúbicos de gás por ano, o equivalente ao consumo total da Espanha e França. A Europa importa à Rússia 25% do gás. Daqui a 20, 25 anos, vai importar entre 70 e 75%. Países como a Grécia, Finlândia ou Hungria já dependem em mais de 80% do gás russo. Depois da queda do muro de Berlim, a Europa só passou a olhar para a Rússia. Mas pode sair deste problema, porque há outras alternativas, como a Líbia e o Egipto, países com grandes reservas. E a própria Argélia pode ter mais peso.


- Podemos ficar reféns da Rússia?
Sim, se nada for feito para alterar este percursos. E o problema é que as grandes companhias monopolistas, como as alemãs e as francesas, são os principais aliados da Gazprom e da Rússia, com grandes contratos de fornecimento.


- E depois acontecem situações como a do ano passado na Bielorrússia...
Em que tudo fica bloqueado. Para evitar isso, a Europa tem de criar uma estratégia com vários pilares. Primeiro, uma aliança estratégica com a Noruega, um país que não faz parte da UE, mas que tem grandes reservas de petróleo e gás e está numa luta surda com a Rússia por causa das reservas no mar de Barents, no círculo polar Ártico. Depois, é a aposta na bacia atlântica. Temos grandes pólos de gás na bacia atlântica: Nigéria, Guiné Equatorial, Tinidade e Tobago, Venezuela, Brasil ou Angola e este eixo só funciona em direcção aos EUA e não em direcção à Europa. É uma miopia política grave.


- Como deveria a Comissão Europeia (CE) reagir?
A CE está a tentar seguir uma política correcta, mas não comanda a Europa. Só com pensamento geopolítico unificado se poderá lidar com o problema da Rússia. O pacote energético em discussão, o "unbundling" [separação das redes de produção das de distribuição de gás e electricidade], é crucial, pois só separando redes e aumentando a concorrência é que a Europa se pode defender. Um estudo da CE mostra que entre 1998 e 2006, o preço da electriccidade aumentou cerca de 29% nos países da UE onde havia monopólios a dominar e não havia separação de redes. Nos países onde havia essa separação, só cresceu 6%. A Europa, em termos de energia está prisioneira dos grandes monopólios e da falta de concorrência do sector.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Ainda sobre as praxes e o sadomasoquismo - explicação

Perversão sexual ("tara") deve, a meu ver, ser considerado tudo o que implique um desrespeito face ao objecto de desejo. Assim, a zoofilia é uma tara porque não podemos dizer que o animal racionalmente, livremente, aceita o acto. O mesmo em relação à pedofilia, etc.. O sadomasoquismo, na dimensão sádica, também pode revestir esse carácter, mas não é líquido que assim seja. A falta de consentimento pode tanto existir entre dois ou mais indivíduos que pratiquem sm como entre indivíduos que pratiquem sexo hetero ou homossexual. Não há nenhuma correlação entre qualquer uma destas práticas por si mesmas e a falta de consentimento.Esta é uma visão puramente neutra do acto sexual; colocar "perversão" antes da definição deste conceito implica fazer um julgamento moral apriorístico que só baralha o jogo, porque o fundamental é o consentimento e a consciência dos envolvidos. Eu poderia definir a praxe como "perversão mediante a qual estudantes, militares e genericamente membros de comunidades de algum tipo prescindem durante determinado período de tempo da sua maturidade, da sua inteligência e, no caso dos praxados, do amor-próprio, com vista a exercer poder sobre recém-chegados ou ser aceite na comunidade". Será esta uma definição isenta? Para mim não.


Quanto à praxe enquanto tradição, reitero duas coisas: eu não defendo tradições. Tão simples quanto isto: je m'en fou para elas. Para mim, não dizem nada. Como indivíduo, eu só me submeto às leis a que sou obrigado (e não sempre se as achar injustas) e principalmente a critérios racionais. O resto, tolero quando muito.As actuais praxes têm a agravante de serem de facto uma tradição inventada há menos de 20 anos. Falando com qualquer pessoa com mais de 40 anos que se tenha licenciado em Lisboa e veremos que é difícil (não quero arriscar impossível) encontrar uma só que se lembre de haver praxes por cá.


Last but not least, os conceitos de "academia" e "vida académica" andam desvirtuados. No dia em que "academia" for conjunto de pessoas que se dedicam às ciências e às técnicas e vida académica for o quotidiano e as práticas desse conjunto de pessoas, então aí estaremos bem. Enquanto "vida académica" for esta imagem pseudo-cool de uma geração que voluntariamente gosta de se encarneirar com fatos de vampiro todas as quintas-feiras, estamos mal.


Reitero, no entanto, que este veneno que agora lancei são puras considerações morais minhas. O objectivo do meu post foi simplesmente demonstrar que é eticamente possível criar uma situação de liberdade entre quem gosta das praxes, da mesma forma que pode haver liberdade para quem gosta de sadomasoquismo. Naturalmente, mais liberdade implica mais responsabilidade. A liberdade de praxar (ou de ser sádico, sendo que o segundo engloba, em sentido lato, o primeiro) implica aceitar voluntariamente limitações a essa liberdade que garantam as condições de possibilidade da mesma, que só existe se tiver correspondência numa liberdade de ser praxado/ser masoquista, ou seja, numa possibilidade de escolha entre ser ou não ser praxado/masoquista.