domingo, 7 de outubro de 2007

A Identidade, a Complexidade e a Tolerância

When I think of my country and culture, the first thing comes to mind is the sense of belonging to nowhere. [...] There is no doubt that what provides a lot of conflicts also contributes positively to Turkish culture and distinguishes it from other cultures and countries with its unique mixture between the West and the East.

Ao ler o texto de Eda Sirma lembrei-me (inevitavelmente) de Amin Maalouf, autor do qual já aqui falei mais do que uma vez. Melhor que eu falar dele novamente, será talvez dar um pequeno gosto da sua escrita. Retirei o sumo do seu ensaio Les Identités Meurtrières.

Depuis que j'ai quitté le Liban en 1976 pour m'installer en France, que de fois m'a-t-on demandé, avec les meilleures intentions du monde, si je me sentais "plutôt français" ou "plutôt libanais". Je réponds invariablement: "L'un et l'autre!" Non par un quelque souci d'équilibre ou équité, mais parce qu'en répondant différemment, je mentirais. Ce qui fait que je suis moi-même et pas un autre, c'est que je suis ainsi à la lisière de deux pays, de deux ou trois langues, de plusieurs traditions culturelles. C'est précisément cela qui définit mon identité.
[...]
Moitié français, donc, et moitié libanais? Pas du tout! L'identité ne se compartimente pas, elle ne se répartit ni par moitiés, ni par tiers, ni par plages cloisonnées. Je n'ai pas plusieurs identités, j'en ai une seule, faite de tous les éléments qui l'ont façonnée, selon un "dosage" particulier qui n'est jamais le même d'une personne à l'autre.
[...]
Toutes ces appartenances n'ont évidemment pas la même importance, en tout cas pas au même moment. Mais aucune n'est totalement insignifiante. Ce sont les éléments constitutifs de la personnalité, on pourrait presque dire "les génes de l'âme", à condition de préciser que la plupart ne sont pas innés. Si chacun de ses éléments peut se rencontrer chez un grand nombre d'individus, jamais on ne retrouve la même combinaison chez deux personnes différentes, et c'est justement cela qui fait la richesse de chacun, sa valeur propre, c'est c'est ce qui fait que tout être est singulier et potenciellement irremplaçable.

A perspectiva de Maalouf leva-nos a encarar a complexidade identitária não como uma degeneração e de certa forma nem tanto como uma riqueza, mas como uma inevitabilidade. Riqueza será talvez ter a coragem de reconhecer a diversidade que cada um de nós integra em si. A Turquia tem o enorme peso sobre si de mostrar ao mundo algo que deveria ser evidente: que a tolerância não é um exclusivo dos países de raiz cristã. A sua identidade complexa é precisamente a melhor maneira de atingir esse objectivo.
No Traité sur la Tolérance Voltaire afirmava que os países tolerantes não seriam aqueles em que predominasse uma religião, nem duas, mas onde houvesse tantas que nenhuma conseguisse dominar as outras. Transponhamos essa ideia para os elementos da nossa identidade e teremos uma resposta simples para a difícil questão de como afastar a intolerância - a dos outros, e a nossa.
Muitos supostos defensores da Liberdade no Ocidente estão a adoptar o islamismo como objecto do seu ódio. Isso leva-os a calmamente aceitar a companhia de fundamentalistas cristãos (o que me leva a questionar se eles realmente defendem a Liberdade em si ou apenas porque acham que ela é um atributo ocidental). Esperemos que da Turquia venha a bofetada que merecem.

2 comentários:

Bianca Castafiore disse...

Obrigada por me recordares esta obra de Malouf, Igor!
É um autor que aprecio muito, mas do qual só li 2 ou 3 obras. É tempo de procurar mais leituras!

Igor disse...

Os últimos - Origens e Adriana Mater - são excelentes. Recomendo vivamente.