sábado, 9 de fevereiro de 2008

O direito de ser mulher



Ontem, no Expresso da Meia Noite, Clara Ferreira Alves disse exactamente o que penso a respeito do problema de Hillary. O problema de Hillary Clinton não é ser uma Clinton (como se pode explicar que Obama, com tanta retórica sobre mudança, afirme que chamaria a equipa que esteve com Bill Clinton na área de economia? como se pode inteligir a permanência de Bill Clinton como figura maior dos democratas? como se pode justificar o gáudio gerado pelo apoio de aristocratas como os Kennedy a Obama?) - é ser Hillary. Coloquialmente falando, é uma gaja; e ninguém quer gajas a mandar em nós.

Como Clara Ferreira Alves disse e bem, a candidata faz mal em aderir aos estereótipos masculinizadores, renunciando à condição feminina para tomar o poder. Todas as mulheres que chegaram ao topo tendem a ser mais masculinas que os homens; veja-se Tatcher ou Merkel. Nem por acaso, tendencialmente são os conservadores e não os progressistas que têm aceite mulheres como líderes. E o motivo está precisamente na hiper-masculinização.

A lógica do poder reduzido a uma questão de "quem é que veste as calças" ou (como entre os romanos) a uma questão de "penetração" (escuso-me a relembrar a conhecida anedota da criança que via o pai - governo - a ter sexo com a criada - povo) continua totalmente presente.

Confesso-me pessimista. Os media estão totalmente centrados em Obama, que apesar de ser levado em ombros por toda a gente, continua a perder. E portanto Hillary, por ser mulher, vai perder. Não estamos perante um exemplo como o de Ségolène Royal, deslumbrante, tão feminina quanto é possível ser, mas com um discurso político completamente inconsistente. Estamos a falar de uma candidata que domina factos, números, tem propostas coerentes e exequíveis, uma visão global e que não cai em discursos fáceis. Como Obama cai. Desse ponto de vista, ele está muito mais próximo de Royal.

Mas, ao contrário desta, creio que vai ganhar. O falo continua a ser fonte de poder, desde que acompanhado de uma gigantesca campanha de marketing em que se mistura o idealismo pouco reflectido (e com isto não digo que Hillary é pragmática, porque o que ela é, é de um idealismo diferente) de alguma juventude, a desconfiança das classes médias mais abastadas face a políticas sociais mais generosas e ainda o apoio de republicanos a Obama por ódio a Hillary. As sondagens continuarão a mostrar vitórias esmagadoras de Obama, até ao momento em que (ao contrário do que sucedeu na Califórnia, em que contra as projecções existentes Hillary ganhou confortavelmente) elas passarão daí para a realidade.

2 comentários:

Pedro Vieira Martins disse...

Parabéns pelo blog. Os artigos sobre as primárias nos EUA estão muito bons.

Anónimo disse...

Igor, a opinião do forista e amigo Sherpas, ao teu post:

… não tenho acompanhado, como gostaria… desiludido, nada grato com os States e suas desventuras provocadas por esse Mundo, carniças e matanças, mentiras e imposições, descréditos de vulto, Bush (ismo) pernicioso, ganâncias por matérias primas, maus exemplos e asneiras fartas com apóstolos muito precisos e concisos, convencidos, palermas fiéis, como ele ou pior porque imitação, por esta Europa que os enjoa, não aceita, campos de concentração e massacres, arbítrios que obtiveram rejeição universal pela grande maioria dos humanos que se condói, ainda!!!... Não falo dos corações de aço, dos que se limitam a antever os resultados práticos das canalhadas cometidas, esquecendo de imediato… considerando aquela federação gigante como farol duma civilização que pretendem, insensível, dura, escura, escabrosa, vigilante e terrorífica, de pasmar, falo dos mais vulgares, dos possuidores de valores, da América do Hollyood da fantasia, do sonho, do amor, do exemplo a seguir, do aliado proveitoso (bilateral), do equilíbrio sólido e sustentado, do País avançado do conhecimento, do justo com justiça e sem atentados aos direitos humanos, do que se penitencia e se quer redimir, do que já não é bombeiro… antes incendiário propositado, imperialista desajustado, inversão de tudo que me levou e leva a rejeitá-lo, não o acompanhando nesta campanha/circo eleitoral, como gostaria!!!...

… penso que nesta disputa entre democratas Hillary/Obama não se vislumbra nada do que se menciona por aí, questão de género ou raça, demagogia ou conhecimento profundo da matéria política, retirada precipitada das tropas do Iraque ou pensada e contida… mantendo o negócio, petróleo/armamento fontes de rendimento proveitoso!!!... Não se trata de populismo ou sentido de Estado, do homem negro ou da mulher, da família com provas dadas ou do que se levanta, surgindo num repente!!!... Trata-se da busca incessante de solução para os fantasmas que criaram e se mantêm, realidades que sentem, morte de inocentes, ódio ao americano por tudo quanto é canto!!!... Miscelânea complexa, herança pesada da última administração, resultado duma fraca elite de falcões extensível ao Mundo, muitos palhaços bem repartidos por Países, pela União Europeia também, como sabemos!!!...

… é a rejeição do que não querem, a busca da esperança, do sonho… na multidão imensa de eleitores, o regresso ao lar do bom americano, a pacificação das multidões hostis, vizinhos e amigos, a vergonha que carregam… mais uma vez!!!... Hillary democrata representa continuidade mais soft, Obama… a diferença, outra maneira de encarar a América e o Mundo, aceitação, diálogo, entendimento, pacificação!!!...

… ideias que marcam, que sustentam a democracia, direitas e esquerdas, republicanos ou democratas… na Austrália deram-lhe a volta, no Reino Unido também se daria se tivesse havido eleições, na Espanha colocaram Zapatero, na Itália, desiludidos com mentiras de Prodi… vão cair numa Berlusconada que volta, em França já não há pachorra para um “idiota” comandado, enamorado (???...) e a Alemanha, satisfeita com o Tratado Disfarçado, com uma Merkle que se rebola delirante, lá vai sem fazer muitas ondas, recordando passados inquinados, indiferente!!!… É a busca dum SONHO, somente!!!... Por cá, como adeptos de futebóis que somos… vamos torcendo por este, por aquele, como se nos dissesse respeito, apostando!!!... P´rós States, no actual contexto, com calças, com saias, com cores definidas, com americanices desbragadas… como exorcismo de males passados, creio que Obama é o mais indicado!!!...


cravo