quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Um reizinho para nós (e a soberania do indivíduo que se lixe)

All the innocent blood that was shed in the civil wars provoked less indignation than the death of Charles I. A stranger to human nature, who saw the indifference of men about the misery of their inferiors, and the regret and indignation which they feel for the misfortunes and sufferings of those above them, would be apt to imagine that pain must be more agonizing , and the convulsions of death more terrible to persons of higher rank than those of meaner stations.
Adam Smith

A propósito deste post houve quem escrevesse que A agenda da Atlântico anda muito pouco liberal… (quanto mais leio menos liberal me parece, mas isso também resulta da própria dinâmica da revista em causa, muito mais interessante no início que agora).
Em todo o caso, parece-me curioso que em nome de uma liberalização de Portugal se defenda a monarquia e se derramem lágrimas por algo que ocorreu há cem anos num diferente contexto político e histórico.

De facto, há situações em que não me incomoda haver monarquias - nos países escandinavos, por exemplo. E há casos em que eu até defenderia a monarquia - se fosse jordano ou canadiano (especialmente se do Quebeque). Agora, eu não vivo junto do Jordão nem do São Lourenço e não sou ameaçado pelo fundamentalismo islâmico ou pela submersão no mundo anglo-saxónico.
Em todo o caso, o país que temos é este e é republicano, e não consta que o regime esteja a funcionar mal. E esta é parte utilitarista do meu espanto com o saudosismo.
A minha parte racionalista diz-me em todo o caso que a monarquia, como princípio, é um mau princípio. Se cada indivíduo é livre e digno em si mesmo, e se ele detém uma parte da soberania pelo simples facto de existir, então temos de pressupor que o ideal é que aqueles que exercem o poder (mesmo que simbólico) em seu nome tenham de ter o seu assentimento expresso e revogável. Coisa que numa monarquia, convenhamos, é difícil.
A minha parte puramente sentimental acompanha Smith e a sua constatação (sobre um outro Carlos, curiosamente) desassombrada a respeito da dualidade de critérios que se insiste em ter - pelos vistos, mesmo quando se está a analisar não algo que vivemos e por isso temos mais presente, mas também algo que ocorreu há um século atrás. Como se os tempos dos últimos Braganças (após D. Pedro V e D. Luís) não tivessem sido ruinosos, como se a liberdade de escolha dos portugueses de então fosse amplíssima e como se nunca em nome da continuação daquele regime podre alguém tivesse sido morto.

2 comentários:

PPM disse...

Igor, não seja desonesto intelectualmente. Ninguém é saudosista na Atlântico ou no respectivo blogue. Estamos a falar de um Chefe de Estado que foi assassinado e como o Igor deve saber a I República que lhe sucedeu foi tudo menos liberal. Se lê a revista e o blogue saberá certamente que eu sou republicano e sempre disse e escrevi que não há razões para pôr em causa o regime tal como ele é. Outra coisa é o silêncio cúmplice perante o regícidio, que parece incomodar algum jacobinismo militante.

Igor disse...

O "silêncio cúmplice" pode dar-se sobre imensas coisas.
Aliás, é isso mesmo que se retira do texto de Smith que aqui coloquei.Releia-o e chegará ao fundo do meu argumento.