sábado, 1 de setembro de 2007

Os Estados Unidos à luz de um Nouveau Philosophe

Acabei ontem de ler o livro Vertigem Americana de Bernard-Henri Lévy, autor tão famoso quanto mal-amado em muitos círculos. Também conhecido como BHL, o autor (nascido na Argélia, em 1948) pertence à corrente da nouvelle philosophie, que integra autores que decidiram recusar a ortodoxia marxista que asfixiava a filosofia francesa e que por outro lado quebraram a ideia da filosofia fora do mundo. BHL faz da oposição aos totalitarismos uma das suas bandeiras. No entanto, é marcante sobretudo o seu empenho na luta contra o racismo (foi um dos impulsionadores da SOS Racisme em 1984) que de resto transparece em múltiplas passagens de todo este livro. É preciso notar que há legiões de pessoas para quem BHL é já sinónimo de falta de honestidade, falta de qualidade e presunção intelectual. E reconheço que em vários pontos a sobranceria estava lá. Mas o resultado final é brilhante, e é isso que realmente conta. De resto, pretender que os filósofos marxistas ou os seus seguidores (marxistas ou não) possam dar lições de humildade a alguém é no mínimo risível.

O livro pretende retomar os passos de Tocqueville, tendo sido o resultado de um convite da Atlantic Monthly. Aqui dou o braço a torcer e pensar que este livro é equivalente ao De la Démocratie en Amérique é excessivo. Mas isso não tira mérito nenhum ao livro, que me parece estar mais nas imagens, nos quadros que ele nos dá, mais de setenta, sobre um país que, como o próprio faz notar, tem a particularidade de não ter um nome próprio - o único país do mundo que escolheu o seu nome e que o escolheu a partir do nome do continente. É preciso dizer que as esquerdas tradicionais (anti-americanas, anti-semitas e com um universalismo muito selectivo) terão de vituperar o livro de pró-americano; é também altamente provável que as direitas (especialmente as que copiam todas as taras americanas como se fossem questões políticas europeias) também não morrerão de amores por um livro que encara fenómenos como a especulação desmesurada, o homeschooling, a fixação nas armas ou a proliferação dos ghettos (os dos pobres e os dos ricos - que diga-se, e BHL não o diz, não é um fenómeno exclusivamente americano) como aberrações.

Sobre os ghettos, um parêntesis meu. BHL fala da contradição que é um país simultaneamente tolerante mas em que a tolerância se transforma muitas vezes numa espécie de apartheid - como se a convivência de múltiplas culturas só fosse possível através de muros invisíveis que separam as múltiplas comunidades ou culturas. Aliás, sobre isto tenho uma opinião que resulta de algo que vi há uns bons anos atrás sobre a Holanda. Não será estranho - questão colocada por um um holandês - que a única palavra que a sua língua deu para o léxico político internacional foi apartheid? Não será isto especialmente estranho num povo cuja cultura é indissociável da tolerância e da convivência da multiplicidade de culturas? Não será isto uma manifestação do facto de os povos que mais cedo se habituaram à tolerância (como os anglo-saxónicos ou o holandês) se terem petrificado em torno de noções (de que o multiculturalismo é a última encarnação) que seriam largamente vantajosas em sociedades que não podiam ainda acomodar a miscigenação, mas que são prejudiciais nos tempos que correm, potenciando a quebra do espaço público?


Prosseguindo com o livro, ele desmonta algumas noções que existem a respeito dos EUA como a de que não existe sistema de protecção social pública - ela existe, mas é de uma complexidade dificilmente apreensível para um europeu - e aliás, para os próprios americanos também. E isto, sem deixar de mostrar as já referidas aberrações, como as armas ou o coleccionismo de artigos nazis. Mostra a força das igrejas (em especial evangélicas), o seu comprometimento com a coisa pública, a sua separação face ao Estado mas também a sua falsidade, a sua mercantilização. Mostra as cidades vazias do Norte e a cultura do Sul em crise, tanto os brancos de Birmingham (sim, o Alabama da segregação e o Alabama onde a luta contra a segregação se fez) que lutam contra o KKK como os líderes índios rendidos aos aspectos mais deploráveis da política e em particular aquele índio anti-semita.
Um dos assuntos aos quais o autor dedica mais atenção é (sê-lo-ía sempre, mas é-o em particular devido ao período em que foi escrito - durante a campanha perdida por Kerry) a pujança ideológica dos republicanos e a debilidade dos democratas. De facto, por execráveis que sejam os republicanos, não se encontra mais líderes nenhuns em parte nenhuma que ajam politicamente explicitando e fundamentando ideologicamente a sua acção, citando Platão ou Aristóteles, construindo a sua política dos debates e dos livros para os gabinetes. Pelo contrário, os democratas caiem na esparrela do dinheiro (em vez de discutir ideias, o seu combate está fixado na angariação de fundos), tradicional no partido do dinheiro (o Republicano) mas que nada diz ao partido que contrabalançava os seus recursos mais escassos com a certeza da justiça das causas que defendia. Um partido cujos membros resolvem cair no pântano da discussão de quando é a tortura aceitável. Um partido que, sendo para o autor o melhor representante das Luzes, parece ter um caminho lúgubre pela frente, apesar das esperanças que BHL deposita em Obama, Hillary ou Kerry.

Não é, portanto, um livro que nos diga tudo o que queremos ler, seja lá o nosso quadrante ideológico qual for. Mas é justamente isso que faz com que ele valha a pena ser lido.


Links para outras leituras do livro:

2 comentários:

pedro silva disse...

É o que eu te digo: tu perdes-te a ler BHL's, que aliás até rima com DHL.
Ambos viajam muito mas um faz entregas, o outro nem isso.

Igor disse...

E qual, a teu ver, é o mal do homem? É presunçoso? Com certeza! Mas conheces algum intelectual que não o seja?