quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O lucro dos outros

Belmiro de Azevedo criticou hoje os bancos, "que, para garantirem lucros, aumentam os preços prejudicando o cliente, que é o mesmo que o Estado faz quando não tem dinheiro quando aumenta os impostos".
"É preocupante a atitude dos bancos: se os custos sobem os lucros têm que subir, é um raciocínio perigoso, estatal"

Parece-me que os preços subirem em função dos custos não tem nada que ver com raciocínios estatais, mas antes com um facto da vida. Não percebo por que motivo uma empresa - seja um banco, seja outra qualquer - há-de, altruisticamente, deixar de ter lucro. Não conheço nenhuma empresa que o faça e não acredito que o empresário em causa vá dizer aos seus gestores, aquando de novas subidas impostos, ou de juros, de salários ou de qualquer outra coisa "Façam o favor de não molestar o consumidor, tirem-me do bolso para não prejudicarmos os nossos clientes".

Bater nos bancos é fantástico porque têm imenso poder, imensos lucros e lucros fáceis. Mas a questão a deslindar é: se não concordamos com o comportamento de determinado banco, por que havemos de lidar com ele?

Uma das formas que cada um nós, no papel de consumidores, tem para pressionar as empresas é dirigirmos o nosso consumo para aquelas que nos são mais vantajosas financeiramente ou para aquelas com cujos procedimentos concordamos, penalizando as que nos desagradam de uma ou outra forma. Se Belmiro de Azevedo acha que os bancos o estão a penalizar, que poder não tem a Sonae para levar a sua avante!

Eu, como modesto consumidor, aqui me apresento com uma outra alternativa: que a Sonae faça outro banco, onde o cliente não é prejudicado pela perseguição do lucro. Se esse banco se mantiver à tona durante mais que seis meses terei todo o gosto em lhe confiar as minhas parcas e delapidadas pela falta de concorrência economias.

Eu mando na minha espada e tu mandas na tua

  • Interpelação
  • Réplica

Cada um é livre de brincar com as pistolas e as espadas que quiser. Mas quem quiser brincar com as espadas dos outros tem primeiro de pedir para o fazer. É que, enquanto os senhores que vestem "factos" de cabedal (mas por que é que vocês quando falam comigo fazem questão de escrever disparates destes? já o outro me tinha vindo com as "abévias") brincam com os "factos" deles, há pessoas que gostam de mexer nas espadas e nas pistolas dos outros sem pedir licença nem dar desculpas.


O que é muito feio. Assim me educaram desde criança - como diziam alguns cartazes na campanha do aborto, permitam-me a corruptela, eu mando na minha espada e tu mandas na tua - e quem não aprendeu isto no berço, não há-de ser depois de biologicamente crescido que há-de adquirir a necessária maturidade.

Não sei, enfim, se se trata de uma questão de liberalismo ou não. Ao fim e ao cabo, à primeira vista, parece-me a mim que brincar com as espadas dos outros sem lhes pedir autorização é apenas má educação.

Mas todo um tratado político poderia ser escrito a respeito daquelas correntes ideológicas que se fundam na perspectiva de que ser livre é fazer o que se quiser, atropelando o direito de cada um mandar na sua espada. Um homem só é livre se mandar na sua espada, ou na sua pistola. Essas perspectivas que afirmam que quando impedimos alguém de roubar as espadas dos outros estamos a colocar entraves inaceitáveis à liberdade sofrem, poder-se-ia dizer, de uma infantilidade política que decorre de um atraso no desenvolvimento psico-afectivo-social dos seus apoiantes.

Parece-me a mim que estes libertinos, mal-educados e bem nascidos teriam precisado, para outras inclinações ideológicas os inspirarem, de levar umas belas palmadas no rabiosque quando a idade era de feição a tais empreendimentos por parte dos (que deveriam ter sido) seus educadores.
Em todo o caso, consta que os senhores que andam de "factos" de cabedal - que, diga-se em abono da verdade e em benefício de alguma iluminação em tão fidalgos de nascimento (embora paupérrimos de conteúdo neuronal) encéfalos, ocupam em excesso as mentes destes libertinos enclausurados nos seus próprios fantasmas sexuais - não desatendem meninos mal comportados.

Creio este ser caso que merece ser elevado a material de futuras investigações que grandíssimo contributo darão para o incremento da nossa sapiência, tanto no âmbito da filosofia política e moral quanto no plano da pedagogia e bem assim da psicologia; digressões desta espécie poder-se-iam revelar de suma importância, encerrando um potencial infindo para desmontar as posições absolutamente iliberais de criaturas que confundem liberdade e libertinagem, dando origem àquilo que com toda a propriedade poderemos chamar de inversão - não já a sexual, mas a moral e política. De facto, é preciso ser muito invertido para achar aceitável expandir os nossos actos para o uso e abuso não consentido do nome e da reputação alheias, simultaneamente achando inaceitável que outros adultos cometam o crime de vestir roupas de que não gostamos, sejam factos de cabedal, facto e gravata ou qualquer outro facto que a nossa engenhosa capacidade de fantasticar - ou, mais prosaicamente, a nossa ignorância ortográfica - possa descortinar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Isto faz-me lembrar alguma coisa...

Muito de vez em quando, e enquanto não se dedica a brincar às pistolas de água, fazer malabarismo ou brincar aos espadachins, Paulo Pinto Mascarenhas lá vai afixando umas coisas para pessoas crescidas no seu parque infantil.

Recentemente publicou uma entrevista de Bruno Garschagen ao filósofo de Direita Olavo de Carvalho. Interessante que isto é exactamente aquilo que várias pessoas (entre as quais eu) já escreveram, pese embora o simplismo diabólico da divisão revolução/reacção (como se ao centro não houvesse a reforma). Olavo de Carvalho faz o que acusa a Direita de fazer - corrigir um erro com outro erro. Se é certeira a sua afirmação de que os conservadores não têm porque negar o seu conservadorismo, não pode simplesmente associar liberalismo e socialismo. Trata-se de três correntes distintas - que podem no entanto interpenetrar-se (incluíndo o socialismo e o conservadorismo, e com mais frequência que a que possamos pensar...).

Em todo o caso, a ler.

Pergunta - Lembro você ter escrito que, ao dialogar com alguns liberais, ao final da conversa constata que o sujeito é conservador com ideias liberais. Qual o problema essencial do liberalismo?

Resposta - Isso nasce de um vício de linguagem. Como a mídia brasileira chama de “conservadores” os grupos de interesses sem nenhuma ideologia própria, o que é totalmente errado, a direita corrigiu um erro com outro erro, dizendo-se “liberal” em vez de conservadora. Da minha parte, uso sempre o termo “liberalismo” no seu sentido histórico de um capítulo do movimento revolucionário. Às vezes, quando critico o liberalismo nesse sentido, alguns conservadores brasileiros acham que estou falando mal deles. O liberalismo, no sentido em que uso o termo, acredita que a liberdade é um princípio fundante da política, mas a liberdade é apenas uma regra formal, que, elevada à condição de princípio, resulta no esvaziamento relativista de todos os valores, fomentando a mutação revolucionária e a extinção da própria liberdade. A diferença entre princípio substantivo e regra formal é que o primeiro pode ter sua aplicação estendida indefinidamente sem levar a contradições, ao passo que a regra formal, se aplicada além de um certo limite, acaba por se negar a si mesma. A liberdade é uma regra formal, porque ela sempre necessita de outras que a definam e não funciona fora delas. Os liberais – no sentido em que uso o termo – não entendem isso.

Ser palhaço

A respeito da agora mais que claramente desmentida okupação d'O Demente, não pude deixar de me lembrar do arrastão de Carcavelos. Tanto tempo volvido e mesmo após os vários desmentidos (o ACIME tem até um interessante relatório sobre a histeria que então se instalou), ainda há gente que acredita no arrastão. O problema destas coisas é que não partem sem deixar marca.

Haverá sempre gentalha que continuará a dizer que não foi nada uma brincadeira e que se tratou de facto de uma okupação, tal como ainda hoje há hordas de mentecaptos que continuam a dizer que houve um arrastão em Carcavelos.

Os dementes afirmam agora que se tratou de uma brincadeira. É bonito, de facto. Vivemos num país de brincalhões, temos todos imensa piada. Mas vamos lá, não queiramos ter demasiada graça. É que essa é a função dos palhaços.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Com as calças na mão

Algumas das denúncias da ignóbil porcaria que os insurgentes tentaram fazer...

5 dias
Paulo Querido
Vento Sueste
Speakers Corner Liberal Social

O mais engraçado de tudo isto é que com a brincadeira deles, caíram em descrédito: um leitor brasileiro comentou que "Como não tenho tanto bom humor, cancelei a subscrição d’O Insurgente e da Atlântico no meu agregador de RSS."

Diga-se, de resto, que Paulo Pinto Mascarenhas que começou por acreditar, continuou acreditando quando as provas se avolumavam, quando confrontado com a possibilidade muito real de se tratar de um embuste, acaba dizendo que se se tratar de uma bincadeira, pronto, é uma brincadeira. E até graceja num post scritum: "Para todos os possíveis comentadores que me possam acusar de qualquer coisa - falta de sentido de humor, espírito conspirativo etc. - este poste deve ser lido como uma BRINCADEIRA."

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Atiradores de Lama

Ao que parece, O Insurgente anda com uns problemas. Já andava há uns tempos e agora aparece um texto que parece tirado dos arquivos de um qualquer defunto partido dos idos de 75. A minha primeira reacção foi (confesso) acreditar que aquilo pudesse ser um ataque de algum hacker de extrema-esquerda e aprestei-me a começar a escrever um post demonstrando a minha solidariedade com pessoas que, apesar de as suas ideias politicamente me causarem asco, têm tanto direito de as defender como eu ou como qualquer outro.

Mas comecei a ler um pouco mais sobre a coisa e nos comentários ao assunto, na Atlântico, descobri que afinal havia a séria hipótese de se tratar de uma "brincadeira" dos próprios autores do blogue. De facto, vejamos o que eles dizem, no Blasfémias:


JoãoMiranda Diz: 22 Fevereiro, 2008 às 11:53 pm
««representam a face mais hedionda da direita eloqüente »»
Eloquente tem um trema. Foi o Pedro Sette Câmara que escreveu.

Filipe Abrantes Diz: 23 Fevereiro, 2008 às 12:18 am
epa, a sério, o texto está de morrer a rir
ou foi o helder ou foi o p.sette camara
jcd Diz: 23 Fevereiro, 2008 às 12:54 am
Não sei se é verdade ou não, mas está ao nível dos textos que o Anacleto costumava publicar. Como alguns Insurgentes escreviam no Anacleto, não dá para perceber a diferença.


Bom, eu chamava aos insurgentes, dementes - podia acrescentar infantis e mentirosos, mas isso seria dar demasiada importância a onanistas com mais crucifixos na cabeça que neurónios. O que me parece de todo inaceitável é que metam o MLS à mistura. Que eles eram despidos de inteligência, já tinha dado para notar. Que carácter, tinham pouco, também. Mas isto passa todas as marcas.


JoãoMiranda Diz: 22 Fevereiro, 2008 às 11:46 pm
««Acreditamos que o Ser Humano é dotado de razão, consciência e responsabilidade. »»
É uma frase do Movimento Liberal Social.
O IP do insurgente mantém-se o mesmo que antes.

Cambalache

Que el mundo fue y será una porquería
ya lo sé...
(¡En el quinientos seis
y en el dos mil también!).


boomp3.com

O caso Somague trouxe novamente, e felizmente, a questão do financiamento dos partidos. A dúvida põe-se: poderão os partidos ser financiados por empresas? Por um lado coloca-se a possibilidade de os partidos serem permeáveis a solicitações das empresas, o que, retirando-lhe o cuidado eufemístico, significa que os partidos ficariam obrigados, após as eleições, a defenderem os interesses das empresas que financiaram as suas campanhas. Por outro lado temos um direito de as empresas premiarem os partidos que lhes pareçam mais meritórios e a liberdade de os partidos receberem fundos e de competirem por eles.

A minha posição é a de que os partidos não têm o direito de vender políticas estatais em troco de financiamento político. Desde logo, fica ao Estado (ou seja, a todos nós) muito mais caro ser mal governado que pagar o que paga aos partidos tendo em conta os seus resultados eleitorais. Apesar de este ser já um bom argumento, está longe de ser o melhor. E passo a explicar porquê.

Rejeitando eu o comunitarismo, corrente re-emergente de finais do século XX, reconheço no entanto algumas flechas bem apontadas, como o que o Spheres of Justice de Michael Walzer faz. Refere-nos ele que cada esfera da comunidade (a política, a economia, etc.) tem os seus próprios valores, tem os seus fins a cumprir e que não podemos transpôr para uma esfera os fins de outra.

Daqui emerge esta conclusão: os partidos não são empresas e não devem comportar-se como tal. Pretender isto faz-me lembrar as reivindicações de alguns sindicalistas acerca da gestão democrática das empresas privadas. Newsflash: as empresas privadas não são democráticas e não é suposto serem democráticas.

Os fins dos partidos são outros, nomeadamente, combater pelo poder a partir das ideias. Bernard-Henri Lévy, num livro de que há uns meses falei fala-nos da crise de ideias nos Democratas em 2004 precisamente por encetarem uma corrida pelo dinheiro, em vez de esgrimirem argumentos (já agora, e felizmente, BHL parece ter-se enganado a respeito dos destinos do Partido Democrata, que conseguiu superar a carência de ideias e está agora bem posicionado para destronar os republicanos).

Diagnóstico semelhante fá-lo Al Gore no recentemente publicado Ataque à Razão, em que nos relata a íntima relação que existe entre o descalabro que representou a presidência GW Bush e o sistema de financiamento dos partidos. Ao invés de os partidos procurarem elaborar uma política consistente em prol de um país, submetem tudo o que for necessário às exigências de quem paga as campanhas políticas.

E assim, como Enrique Santos Discépolo escreveu no seu tango Cambalache, que houve, há e haverá sempre porquerías, ya lo sé. Não temos é de concordar com elas. O financiamento por empresas (ou por associações, ou por sindicatos, ou por igrejas) não me parece aceitável porque o campo da política, em particular da partidária, é o campo do indivíduo. De modo que se o empresário X ou o gestor Y e já agora o sindicalista A ou o padre B quiserem financiar o partido Z, pois que o façam. Mas a título individual.

[O que seria talvez muito benéfico seria cada partido ou (nas autárquicas) movimento cívico ou (nas presidenciais) candidato apresentar a lista actualizada durante a campanha e final, após as eleições de todos os contribuintes acima de um determinado valor.]

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Um utilitarismo degenerado

Sobre as ligações entre utilitarismo, pensamento económico (em que muitos, pelo simples facto de serem economistas e defenderem a economia de mercado, se acham liberais) e liberalismo, muito se poderia escrever. Mas vou apenas focar um, a propósito da petição da Ala Liberal do CDS.

8. A ALA LIBERAL desconfia do “interesse público” que tantas vezes serve de suporte à intervenção estadual e promoverá a sua substituição pelo “interesse geral”, enquanto conjunto dos vários interesses particulares

Muitos que não se deram ao trabalho de ler Rousseau afirmam que a sua vontade geral é uma forma de esmagar o indivíduo sob o peso de maioria aritméticas. Isso é categoricamente desmentido no Contrat Social e basta apenas não ser analfabeto nem iletrado para ler o que lá vai escrito. Rousseau pode ser uma figura a muitos títulos sinistra (porque o é) mas a vontade geral está longe de ser a sua pior criação. Se é um facto que alguns lhe atribuem a origem do jacobinismo, uma leitura dos escritos de Robespierre dá-nos a entender que este próprio rejeitava Rousseau e que o seu projecto em nada se inspiraria neste último. Mais importante ainda, a vontade geral rousseauniana foi determinante para a obra de um dos filósofos mais individualistas de sempre - Kant. E não é por acaso; basta percebermos a natureza da vontade geral para percebermos a sua potencial ou efectiva ligação a um individualismo ilustrado que não caia no onanismo egotista dos românticos.

O conceito de interesse público caiu em desgraça, e caiu por bons motivos. Qualquer disparate nos tempos que correm é feito em nome do interesse público. No entanto, e mais frequentemente, esse interesse público em nome do qual se age não passa precisamente do tal interesse geral, nos termos em que os peticionários o entendem, ou seja, como conjunto dos interesses particulares prevalecentes (é curiosa de toda a guisa a brincadeira de palavras com o "público" e o "geral" - uma inspriração rousseauniana por aquelas bandas, será?).

E é aqui que temos o problema. Esta soma dos interesses em que o poder que cada um detém determina o conjunto dos seus direitos (e não a submissão a um critério racional, isto é, universal, isto é, imparcial) é um perigo enorme. Precisamente daqui nascem todas as formas de opressão, venham de que lado vierem: quando em vez de normas validáveis de forma universal temos a decisão entregue a maiorias (que podem ou não ser maiorias de pessoas, mas que são essencialmente maiorias como maiorias de poder - de facto, se cem pessoas mandarem em mil, elas numericamente são uma minoria; mas, politicamente, elas são uma maioria) caímos no egoísmo que nada tem que ver com o utilitarismo de Stuart Mill nem tampouco com o interesse próprio moderado pelo espectador imparcial de Adam Smith.

Eu que não sou utilitarista, mas sim kantiano, reconheço que a crítica rasteira que é feita a essa corrente - de que se trata do mero egoísmo transformado em doutrina moral - é sumamente injusta. É triste que visões meramente económicas do liberalismo, que decorrem do pensamento económico que por sua vez é um produto de autores como Hume, Smith ou Mill, redundem nisto. A óptica da imparcialidade que aí subjaz desaparece por completo. E, com ela, o seu potencial libertador que coloca de parte o perigo autoritarista que todos os utilitarismos (e o marxismo é um utilitarismo), apresentam.

Produtos velhos em embrulhos vistosos

Esta pérola, como o próprio autor admitirá mais tarde, só poderia vir de alguém que teve como mentor o inefável António Costa Amaral, uma espécie de prestidigitador da teoria política. Digo prestidigitador (tolice! um verdadeiro Houdini!) porque em uma frase arruma com toda uma corrente política, toda uma grande família política e que será, porventura, a mais influente tanto deste como do outro lado do Atlântico (o conservadorismo, centro-direita) - ou pelo menos será mais relevante que o liberalismo (centro) e a social-democracia (centro-esquerda) separadamente, atendendo à distribuição de poder verificável tanto nos executivos como nas câmaras legislativas. O conservadorismo não existe, ou se existe é um socialismo. Ou um liberalismo. Não ficamos a saber, mas fico cá com umas comichões para percebê-lo, e creio que a próxima frase explicar-mo-á.

Ah, bom, então quer dizer que para ser liberal basta acreditar na economia de mercado. Certo? E as liberdades individuais, a liberdade de fazer tudo aquilo que não limite a liberdade alheia? Não existe? Nem uma palavrinha em relação às liberdades individuais que não se incluam no âmbito económico?

Há de facto uma palavrinha - são as liberdades afins. Sabemos que começam no pensamento, continuam pela expressão e depois terminam sendo afins. Não deixa de ser curioso como uma palavrinha apenas consegue expressar todo o desprezo prático a que tudo o que não remeta para uma concepção económica de liberalismo fica votado. É que se o liberalismo económico é uma condição sine qua non para o liberalismo, se formos honestos e tivermos dois dedos de testa concluiremos que o liberalismo social (e aqui refiro-me não à família política mas ao liberalismo de costumes), o liberalismo religioso (Estado laico, imparcial) e o liberalismo político (democracia, divisão de poderes, Estado de Direito - e atenção ao Estado de Direito, que alguns liberais querem pôr em causa em nome do respeito pelas religiões e da liberdade de escolha dos regimes jurídicos aplicáveis) são tão decisivos como o primeiro.

Que se trate como afins boa parte da herança do liberalismo - que de resto acabou por mais marcar e civilizar os outros dois blocos ideológicos (gerando o socialismo moderado, ou social-democracia, à esquerda e do outro lado a direita democrática) em particular no que se refere ao liberalismo político - é suficientemente esclarecedor a respeito da grandeza intelectual e da oportunidade política de uma tal criação.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Censura prévia?

Na Finlândia existe uma lista de sites proibidos, que [...] era suposto conter apenas sites pedófilos, mas, após uma investigação de um cidadão, foi descoberto que continha sites perfeitamente legais, como sites com pornografia entre pessoas do mesmo sexo, sites de pornografia entre pessoas com idade avançada ou sites com pornografia na forma de ilustração (desenhos).
Miguel Duarte no Speakers Corner Liberal Social

Este é um exemplo acabado do efeito bola de neve em que acabamos por nos meter quando começamos a aceitar uma completa inversão de procedimentos. Aqui temos instituições públicas a definir à partida e sem qualquer controlo o que podemos ou não ver.

Entrei em alguns dos sítios publicados pela página e confesso que tive sérias dúvidas em relação a alguns deles; alguns dos modelos, era capaz de jurar a pés juntos, são menores de idade. Em todo o caso, e se assim é, creio que o que há a fazer (e já que as autoridades dispenderam tanto tempo a pesquisar estes sítios) é comunicar às autoridades dos países onde os mesmos estão alojados para que seja feita uma investigação e, para além do julgamento dos donos, fechá-los. Se o combate à pedofilia é realmente relevante, então a mera censura não me parece aceitável.

O problema de haver apenas uma censura local (e não cooperação internacional na investigação de sítios duvidosos) é que então a dúvida permanece: estará algum funcionário ou algum polícia ou algum director, ao invés de realmente aplicar a lei, a impôr apenas a sua moralidadezinha?

No domínio privado, o correcto é que se possa fazer tudo aquilo que não é proibido fazer. No domínio público, só se pode fazer aquilo que a lei permitir que se faça. Ora, a lei não pode dar à burocracia o direito de definir à partida o que podemos ou não ver; por conseguinte, apliquem a lei onde for necessário e no restante remetam-se ao silêncio. A censura não se pode exercer à partida e sobre intenções - temos de perceber se estamos ou não perante uma ilegalidade.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

One gone, Alberto João Jardim to go...

HAVANA - An ailing Fidel Castro resigned as Cuba's president Tuesday after nearly a half-century in power, saying he was retiring and will not accept a new term when the new parliament meets Sunday.
"I will not aspire to nor accept — I repeat, I will not aspire to nor accept — the post of President of the Council of State and Commander in Chief," read a letter signed by Castro published early Tuesday in the online edition of the Communist Party daily Granma.
The announcement effectively ends the rule of the 81-year-old Castro after almost 50 years
[...].

Cavalgadas

Através da Maria João Pires descobri este texto de Helena Matos. Stôres, assim se chama o conjunto de trivialidades (com algumas críticas certeiras e com as quais concordo, mas que depois descambam numa reprodução dos topoi de referência de um certo espaço ideológico. Trata-se apenas de uma repetição de uma ladaínha para a qual não há propriamente uma resposta porque com certeza que sobre a autora uma comparação com a realidade não teria qualquer efeito. Como a Maria João Pires escreveu, não [se pode] deixar os factos atrapalharem uma boa história!

Para além de uma crítica velada à Modernidade e ao Iluminismo (esta bem podia ter sido regorgitada por Pacheco Pereira que ninguém notaria a diferença: Interdito que está saber o nome dos reis, as criancinhas portuguesas debitam, em escassos meses, uma espécie de cavalgada heróica sobre as classes sociais e as alterações dos meios de produção que vai do terramoto de 1755 ao 25 de Abril de 1974), amalgamados ao marxismo (passados não resolvidos e penitências que adiantam o Inferno na vida terrena) há aqui uma tremenda incorrecção, que só pode resultar ou da ignorância de Helena Matos ou de um desprezo cínico da realidade.

O problema maior deste excerto é que o que autora escreve é mentira; já o era quando eu estudava História no 3º Ciclo e no Secundário, e ainda mais falso o é hoje; como a Maria João Pires escreveu, e como eu bem posso comprovar com a minha irmã que acabou o primeiro ciclo no ano passado, no ensino da História estudar os reis está de volta. E não, não há cavalgadas históricas; talvez que ao espaço ideológico de Helena Matos agradasse que se falasse de outras cavalgadas, mas também isso não noto - felizmente.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O Inferno existe (Ratzinger e Google confirmam-no)

boomp3.com

Ora existe, ora não existe... é uma confusão. Se o Papa é infalível e transmite sempre a verdadeira palavra de Deus, então Deus deve ser esquizofrénico.

O papa Bento XVI afirmou que o inferno é um local físico que existe e não está vazio, ao contrário do que seu antecessor, João Paulo II, dizia. "O inferno, de que se fala pouco neste tempo, existe e é eterno", já havia afirmado o pontíficie no ano passado.
Em um encontro que marca o início do período da quaresma, o Papa mandou um recado para os católicos, dizendo que a salvação não é imediata nem chegará a todos, de acordo com o jornal La Repubblica.
Aqui (lido através daqui)

A menos que Deus e o Diabo andem mancomunados, abrindo e fechando o estaminé do Perro para nos azucrinar a mioleira. O que é que acontece quando o Inferno é fechado? Ficam os diabretes à solta? [Bom, isso explicaria porque é que durante o reinado de João Paulo II tenhamos tido Reagan, Bush pai e Bush filho, Tatcher e por que motivo o JP era tão amigo de Pinochet.]

Bom, mas se o Inferno existe, onde está ele? Alvíssaras! Alvíssaras a quem o encontrar. Pela minha parte, avanço já várias possibilidades.

No Google Maps, o Inferno é aqui:

InfernoFurchgasse 26845 Hohenems, Áustria


Se querem que vos diga, eu sempre achei que este Ratzinger é um tipo esperto. É óbvio: o Inferno tem de ficar na pátria de Hitler (só não sei como é que o gajo vai descalçar a bota de o Inferno ser uma terra católica).

Confesso em todo o caso que tenho sérias dúvidas que esta localização esteja correcta. A mim, ninguém me tira da ideia que o Inferno sobre a Terra só pode ser este sítio:


Desconhecimentos convenientes

A propósito do aquecimento global e do negacionismo que grassa, mais por motivos ideológicos que por seriedade argumentativa em alguns sectores... Bom, eu não tenho formação científica suficiente para explicar a fundo, mas quem não for demasiado obtuso poderá compreender esta rápida (e digo rápida porque é apenas o resumo aque alguém com os meus parcos conhecimentos na matéria pôde aceder) explicação:


O clima relativamente moderado que nós temos na Europa (por comparação com as mesmas latitudes na América do Norte) é o resultado da corrente do Golfo, uma corrente que percorre o Atlântico Norte desde as Caraíbas até algures entre a Islândia, Noruega e Reino Unido. Trata-se de uma corrente de água salgada e quente (leve) que nos permite ter temperaturas relativamente altas. O problema e o paradoxo do aquecimento global é pode conduzir a um arrefecimento local. O degelo na Gronelândia e no Canadá e (ao que soube mais recentemente) principalmente o descongelamento do permafrost siberiano significa um afluxo enorme de água doce. O problema desta água doce é que ela certamente puxará a corrente do Golfo para baixo, e muito provavelmente interrompê-la-á.
Se a interromper, rapidamente a Europa, mas também a América do Norte, poderão conhecer uma nova Idade do Gelo. Tudo depende da gravidade da interrupção e do tempo que ela demorar. Pode durar cinco anos, e sofreremos um bom pedaço. Pode durar mil, ou dez mil, e isso é mesmo o nosso fim.


É impossível dizer em concreto quando é que a muita água doce que está a desaguar no Atlântico será água doce a mais. A única coisa que se sabe hoje é que o fenómeno do rapid climate change/ younger drias já aconteceu múltiplas vezes e que a própria Europa já conheceu, muito recentemente (três ou quatro séculos) pequenos períodos de algumas décadas de clima especialmente rigoroso. Há quadros holandeses do século XVII que mostram lagos completamente gelados e que ninguém se lembra de ter visto sequer perto desse ponto. Achei também curioso que a mini-idade do gelo do século XVII fosse retratada por Virginia Wolf no seu fabuloso Orlando.
Em todo o caso, na época precendente à do primeiro Orlando não havia aquecimento global como nós o temos agora. O completo degelo da Gronelândia ou da Sibéria parece à primeira vista atractivo. No entanto, o preço a pagar por ele será muito alto. O aquecimento global existe, mas ele pode-nos trazer algo ainda pior para nós, habitantes do hemisfério norte. Numa reportagem que vi recentemente um cientista creio que islandês manifestava a sua preocupação: as migrações de peixes não estavam a seguir o seu percurso normal, acompanhando a corrente do Golfo. Algo está mal com a corrente. E se a corrente se quebra... cientificamente falando, estamos lixados.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Orgulho macho

Timothy Garton Ash has controversially compared Ayaan Hirsi Ali's defense of Enlightenment values to a kind of Islamic fundamentalism. He has described her views as representing "Enlightenment fundamentalism". Also, he has stated that if Ayaan Hirsi Ali would have been an unattractive woman, she would never have gained such a large public acclaim.
Will Timothy Garton Ash stick to his guns and maintain that Ayaan Hirsi Ali's beauty is pivotal for her public interest and keep referring to her views as "Enlightenment fundamentalism"?
Will Ayaan Hirsi Ali attack Timothy Garton Ash at his soft spot – his being an intellectual, white, middle aged, middle class man? Taking turns, Timothy Garton Ash starts the debate.


Confesso-me chocado com a atitude de Garton Ash. De um homem com o perfil dele esperar-se-ia um pouco mais que o golpe rasteiro, o insulto barato e o machismo polido. No entanto, e como sempre sucede nestes casos, o insulto descreve-o mais a ele que à insultada.

Sempre insuperável...

Thus, it is not reason that accommodates and encourages the persistent segregation and tribalism of immigrant Muslim populations in the West. It is Romanticism. Multiculturalism and moral relativism promote an idealization of tribal life and have shown themselves to be impervious to empirical criticism. My reasons for reproaching today’s Western leaders are different from Harris’s. I see them squandering a great and vital opportunity to compete with the agents of radical Islam for the minds of Muslims, especially those within their borders. But to do so, they must allow reason to prevail over sentiment.

To argue, as Harris seems to do, that children born and bred in superstitious cultures that value fanaticism and create phalanxes of alpha males are doomed — and will doom others — to an existence governed by the law of the jungle is to ignore the lessons of the West’s own past. There have been periods when the West was less than noble, when it engaged in crusades, inquisitions, witch-burnings and genocides. Many of the Westerners who were born into the law of the jungle, with its alpha males and submissive females, have since become acquainted with the culture of reason and have adopted it. They are even — and this should surely relieve Harris of some of his pessimism — willing to die for it, perhaps with the same fanaticism as the jihadists willing to die for their tribe. In short, while this conflict is undeniably a deadly struggle between cultures, it is individuals who will determine the outcome.
Ayaan Hirsi Ali, Blind Faiths

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Súmula sobre o multiculturalismo

Agora que, apesar de nabo em informática, descobri como utilizar o Google para pesquisas personalizadas, consegui encontrar todos os posts que fui escrevendo sobre o multiculturalismo.
Mais difícil afigura-se reunir um número significativo de posts relevantes sobre o tema. Quem tiver sugestões, envie-mas.

  • Posts que têm como tema central o multiculturalismo:

O Estado de Direito e a Religião
O Multiculturalismo e a derrota da Modernidade
Cultura, Multiculturalismo e a "superioridade" do Ocidente
Multiculturalismo e Terrorismo
Link: O que é o Multiculturalismo (trata-se de um link para o defunto blog Armadilhas para Ursos Conformistas; infelizmente, não está já disponível)
Hegelianismo Moral de Esquerda e de Direita
Kulturkampf reinventada
Contra o fascismo religioso
Ehsan Jami - um apóstata holandês

  • Posts que abordam parcialmente o tema:
O estatuto da Mulher e a miséria do Multiculturalismo
Piadas Contemporâneas
Não vingados, mas salvos
Democracia e Relativismo Moral
Finalmente, um católico a falar verdade
Os Estados Unidos à luz de um Nouveau Philosophe
Coming Out

  • Textos de outros blogs:

Pluralismo legal: limite ao Multiculturalismo?
A aliança anti-Razão
Racionalidade e Tolerância
Hirsi Ali: "O Islão é fascista"
Cuidado: Hirsi Ali pode ser indigesta para a direita clerical
Ayaan Hirsi Ali
Islão e Democracia

  • Textos de outros blogs que não subscrevo:

Pluralismo legal
O Ocidente é melhor
O Ocidente é melhor, II
Não à sharia, sim ao shador

Obama e a Esquerda, novamente

Para a esquerda europeia, o programa económico e social de Obama é claramente liberal e, proposto por um político europeu, seria logo atacado por ser de direita. Não faz assim muito sentido que a esquerda europeia, entre Obama e Clinton, prefira o primeiro. Já se compreende que a direita europeia o escolha.
[...]
Um antigo diplomata britânico colocou uma simples questão: qual foi a última vez que Obama tinha estado na Europa: os seus apoiantes não sabiam. Mas tinham a certeza que nunca tinha estado em Bruxelas. Se Obama for eleito, a Europa estará longe de ser uma prioridade para o futuro Presidente americano.
[...]
O apoio a Obama mostra, antes de mais, que a ideologia é cada vez menos importante para a maioria dos europeus. A imagem conta muito mais do que a substância. Os europeus gostam da imagem de Obama, mas ligam pouco às suas propostas políticas. Em segundo lugar, para a maioria dos cidadãos europeus, muito mais do que o lugar da relação transatlântica nas prioridades do próximo inquilino da Casa Branca, o que conta é que ganhe o candidato que pareça ser o mais ‘anti-Bush’. Desconfio que estão completamente enganados. A guerra no Iraque, a ligação à religião e a recusa em assinar um regime global de luta contra as alterações climáticas são os três pecados maiores de Bush. É verdade que Obama foi contra a guerra. Todavia, não foi por ser um pacifista, mas sim devido aos seus instintos mais isolacionistas. De resto, é o candidato mais influenciado pela religião e o que menos fala de um regime internacional pós-Kyoto. Com as devidas diferenças, Obama faz parte de ‘mesma América’ que Bush. Uma América para a qual o internacionalismo multilateral e a relação especial com a Europa pouco conta e a fé religiosa tem uma ligação muito próxima com os valores políticos. Não deixa de ser interessante que a maioria dos europeus apoie o candidato, culturalmente, mais próximo de Bush.

João Marques de Almeida, A Ilusão Obama no Diário Económico

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Festa, festa

Hoje quase que não digo mal da Atlântico. Isto é, tenho de dizer que de facto é muito curioso que tendo Paulo Pinto Mascarenhas um post em que está orgulhoso da diversidade de opiniões na revista e no blog, só haja posts contra o aborto.
Mas não é de aborto que quero falar, mas de mais uma machadada no multiculturalismo de que tive conhecimento via Atlântico: um movimento francês quer dar a cidadania a Hirsi Ali. Não só a notícia me deixa muito orgulhoso de ser europeu, como não posso deixar de me espantar de ler uma crítica aos países anglo-saxónicos e um elogio à França num sítio como a Atlântico.

A dúvida com que sempre fico quando leio liberais de direita a falarem mal do multiculturalismo, é se eles estão simplesmente a confundir o multiculturalismo com a islamofobia, ou se de facto querem Estados laicos e livres. É que se não querem que a religião tenha um papel preponderante a nível político, não se percebe as suas posições face ao cristianismo...

Eterno retorno

Porque é que o seu marido morreu na URSS?
Ele não queria ir. Mas não quero falar nisso.
Não tinha confiança?
Não devia ter.
Poderia ter sido bem tratado em Luanda?
Não. Estava para ir lá uma médica inglesa, mas não chegou a tempo.
Quais eram as alternativas?
Há tantas alternativas no mundo! E Angola tinha dinheiro, pagava!
Quem decidiu que iria para a URSS?
Foi o médico dele - e com certeza que o partido também esteve de acordo. Mas não sei, são coisas em que não meti o nariz.
O médico dele era...
... na altura, era o dr. Eduardo dos Santos.
A senhora acompanhou-o até Moscovo?
Mas não adiantou nada - não fui para a sala de operações e mesmo que fosse não percebia nada.
Tem alguma reserva ou desconfiança?
Não posso dizer nada, mas o que sei é que, nesta época, uma pessoa não acordar de uma operação é um bocado esquisito...
Foi operado concretamente a quê?
Eles dizem que foi ao pâncreas. Se foi ou não...
Maria Eugénia Neto, viúva de Agostinho Neto, em entrevista ao Expresso

Passando por cima da vitimização excessiva de Agostinho Neto (que talvez não seja inocente na morte de partidários do não-alinhamento como o Comandante Gika) trago este excerto da entrevista porque a História repete-se de formas tão pouco imaginativas que, se não fossem trágicas, seriam aborrecidas. Agostinho Neto, líder do MPLA, formado em Portugal e (dentro do contexto) relativamente moderado no alinhamento com a URSS, terá sido morto na (e pela) própria União Soviética.

No mesmo dia, presidente e primeiro-ministro, enquanto a terceira figura do Estado timorense (o presidente do parlamento) se encontrava fora do país, foram ambos alvo de atentados.

Mais curioso, o presidente Ramos Horta não foi socorrido pela polícia das Nações Unidas, UNPOL, que se manteve a poucas centenas de metros.

Parece-me cada vez mais que o falhanço é apenas temporário: a acção, embora sem sucesso, é suficientemente clara. Alguém quer derrubar os líderes históricos timorenses.
Talvez alguém, podemos supor, que tenha as Nações Unidas na mão, tendo peso decisivo nas forças internacionais presentes em Timor. Talvez alguém, podemos supor, que tenha interesses no país que podem ser postos em causa por alguém com mais experiência e visão política. Talvez alguém, podemos supor, que em toda a questão timorense tenha sempre estado do outro lado da barricada em relação a Portugal, primeiro apoiando a Indonésia, e após a derrota da sua aliada, chegando ao cúmulo de mandar as forças portuguesas para o quartel.
Paremos com as suposições: um avião foi pedido à Austrália para transportar o presidente timorense para Darwin.
É preciso dizer mais alguma coisa, ou será que já está tudo visto?

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Caviar transatlântico


Miguel Portas, no Sol desta semana, afirma que Obama está mais à Esquerda que Hillary. A argumentação é má; sem querer - e achando o cliché, para além de falso, de mau gosto - não pôde deixar de me vir à cabeça a ideia da Esquerda caviar. Hillary não se limita a ter um programa político mais à Esquerda que o oponente: ela tem o apoio das classes mais baixas dos EUA, ao contrário de Obama, que é apoiado pela classe média e média-alta.

Será que a Esquerda caviar encontrou, do outro lado do Atlântico, a sua plena concretização?

O direito de ser mulher



Ontem, no Expresso da Meia Noite, Clara Ferreira Alves disse exactamente o que penso a respeito do problema de Hillary. O problema de Hillary Clinton não é ser uma Clinton (como se pode explicar que Obama, com tanta retórica sobre mudança, afirme que chamaria a equipa que esteve com Bill Clinton na área de economia? como se pode inteligir a permanência de Bill Clinton como figura maior dos democratas? como se pode justificar o gáudio gerado pelo apoio de aristocratas como os Kennedy a Obama?) - é ser Hillary. Coloquialmente falando, é uma gaja; e ninguém quer gajas a mandar em nós.

Como Clara Ferreira Alves disse e bem, a candidata faz mal em aderir aos estereótipos masculinizadores, renunciando à condição feminina para tomar o poder. Todas as mulheres que chegaram ao topo tendem a ser mais masculinas que os homens; veja-se Tatcher ou Merkel. Nem por acaso, tendencialmente são os conservadores e não os progressistas que têm aceite mulheres como líderes. E o motivo está precisamente na hiper-masculinização.

A lógica do poder reduzido a uma questão de "quem é que veste as calças" ou (como entre os romanos) a uma questão de "penetração" (escuso-me a relembrar a conhecida anedota da criança que via o pai - governo - a ter sexo com a criada - povo) continua totalmente presente.

Confesso-me pessimista. Os media estão totalmente centrados em Obama, que apesar de ser levado em ombros por toda a gente, continua a perder. E portanto Hillary, por ser mulher, vai perder. Não estamos perante um exemplo como o de Ségolène Royal, deslumbrante, tão feminina quanto é possível ser, mas com um discurso político completamente inconsistente. Estamos a falar de uma candidata que domina factos, números, tem propostas coerentes e exequíveis, uma visão global e que não cai em discursos fáceis. Como Obama cai. Desse ponto de vista, ele está muito mais próximo de Royal.

Mas, ao contrário desta, creio que vai ganhar. O falo continua a ser fonte de poder, desde que acompanhado de uma gigantesca campanha de marketing em que se mistura o idealismo pouco reflectido (e com isto não digo que Hillary é pragmática, porque o que ela é, é de um idealismo diferente) de alguma juventude, a desconfiança das classes médias mais abastadas face a políticas sociais mais generosas e ainda o apoio de republicanos a Obama por ódio a Hillary. As sondagens continuarão a mostrar vitórias esmagadoras de Obama, até ao momento em que (ao contrário do que sucedeu na Califórnia, em que contra as projecções existentes Hillary ganhou confortavelmente) elas passarão daí para a realidade.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Estado de Direito e a Religião


In conclusion, it seems that if we are to think intelligently about the relations between Islam and British law, we need a fair amount of 'deconstruction' of crude oppositions and mythologies, whether of the nature of sharia or the nature of the Enlightenment. But as I have hinted, I do not believe this can be done without some thinking also about the very nature of law. It is always easy to take refuge in some form of positivism; and what I have called legal universalism, when divorced from a serious theoretical (and, I would argue, religious) underpinning, can turn into a positivism as sterile as any other variety. If the paradoxical idea which I have sketched is true – that universal law and universal right are a way of recognising what is least fathomable and controllable in the human subject – theology still waits for us around the corner of these debates, however hard our culture may try to keep it out.


O que o primaz anglicano fez foi dizer de uma forma anglo-saxónica, multiculturalista e conciliatória o mesmo que Bento XVI tem estado a dizer de uma forma católico-romana, romano-germânica, germânico-continental nos últimos anos: os cristãos, mais do que não gostarem dos muçulmanos, invejam-nos terrivelmente. Os muçulmanos estão a conseguir aquilo que eles não têm conseguido (embora a regressão civilizacional americana dos últimos vinte a trinta anos, desde Reagan, seja preocupante): parar o avanço do positivismo e do laicismo, ou seja, a adopção de critérios universalmente validáveis à luz de um pensamento racional.

Basta recordarmo-nos do apoio do clero católico ao clero islâmico aquando da crise dos cartoons dinamarqueses (Schopenhauer tem uma frase eloquente que se aplicaria muito bem a esse episódio: A má consciência que a religião deve ter pode ser avaliada pelo facto de ser proibido troçar dela sob pena de severos castigos.).


Convenço-me enfim, se dúvidas tinha, que enfrentamos hoje uma luta historicamente única, porque se trata da luta entre duas civilizações; sim, podemos falar de clash of civilizations, mas as civilizações não são as de Huntington. Essa luta é entre a civilização que nasceu do odiado por Williams Enlightenment e as formas tradicionais de organização bárbara da humanidade, fundadas na recusa da Razão e na defesa de Deus. Não, não faço a coisa por menos: é que cada um pode dizer que até tem uma religião e crê em deus(es), mas enquanto não transformar toda a sua vida (política, relações pessoais, vida familiar) em função da religião (especialmente se abraãmica) estará a viver uma religião sem deus, uma liturgia sem fé. E ainda bem.


A luta é então entre Modernidade, a Modernidade gerada pelo liberalismo e que nos deu um Estado de Direito, instrumento (o Estado e o Direito, os dois em simultâneo e num só) último de defesa do Indivíduo contra a opressão daquilo que todo o descerebrado bem pensante dos nossos tempos chama sociedade civil, e essa mesma sociedade civil. Esse conjunto de entidades, os vizinhos, as igrejas, as empresas, que se nuns casos podem servir de rede de amparo, deixadas a si próprias esmagarão a liberdade individual.


Há uns tempos escrevi sobre a ideia de direito social. A ideia que para mim a ele subjaz deve ser a possibilidade de a sociedade se organizar de forma paralela em relação ao Estado. Mas essa ideia não pode ser compatível com uma organização contra o Estado, ou seja, contra o Estado de Direito. Não se trata de criar novos mecanismos compulsórios que se substituam ao Estado. Trata-se de formas de interacção exclusivamente voluntária e que não podem de forma nenhuma substituir-se às normas legais vigentes. Não tem rigorosamente nada que ver com o que conservadores, fundamentalistas religiosos, esquerdistas radicais ou libertários de direita defendem.


Surgir alguém como o arcebispo de Cantuária a defender uma aberração como a aplicação da sharia tem, em última análise, menos que ver com a sharia em si (por muito bárbara que ela seja, mas a Bíblia não é melhor que o Corão; de resto, o próprio arcebispo pôs de parte os castigos corporais, aceitando em contrapartida a regulamentação do matrimónio, que presume-se, seja bastante mais civilizada) que com dois modelos de sociedade: a que as revoluções americana e francesa nos deram e a que precedeu as revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX. O problema não está em ser uma lei islâmica. Está em que não se trata de uma só lei, aplicável a todo o ser humano num determinado espaço político.
Li quem falasse de uma capitulação perante o islamismo; não se trata de uma capitulação: trata-se do firmar de uma aliança. Possa a Razão combatê-los a todos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Portugal real

Um conjunto de psicólogos de Coimbra fez um estudo louvável, que quantifica os gastos médios com cada filho em dois tipos de agregado familiar. Até aqui, tudo óptimo.

O que não é muito normal é isto:
  • Numa família de classe média baixa, nos primeiros 25 anos de vida de um filho, os pais terão gasto cerca de 236,446 euros em fraldas, médicos, comida, roupa, desporto, livros, propinas e mensalidades escolares. Numa família de classe média alta, cada filho, até aos 25 anos, custará 678,875 euros. [...] A equipa imaginou duas famílias: uma com um rendimento mensal de mil e oitocentos euros e outra com um rendimento mensal de quatro mil duzentos e cinquenta euros.

O problema é, logo à partida, que quem acha que um agregado com um rendimento de 1800 euros (digamos, 900 euros para cada membro do casal) pertence à classe média-baixa não sabe certamente o país em que vive.

Vejamos valores de salário médio:

  • Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes ao terceiro trimestre de 2007, o salário líquido mensal dos trabalhadores por conta de outrem, por sectores de actividade, é de 779 euros nos serviços, 636 euros na indústria, construção, energia e água, e 489 euros na agricultura, silvicultura e pesca.
  • Tendo em conta o escalão de rendimento salarial mensal líquido, os dados do INE referem que 41 por cento dos trabalhadores por conta de outrém integrava o escalão de rendimento salarial entre os 310 e os 600 euros.
    Com salários entre os 600 e os 900 euros situavam-se cerca de 25 por cento dos trabalhadores por conta de outrém, de acordo com os dados do terceiro trimestre do ano passado.
    Pelo contrário, apenas 0,5 por cento dos trabalhadores por conta de outrem integram o escalão de rendimento salarial mensal líquido de 3.000 ou mais euros.
    Também apenas 0,6 por cento dos trabalhadores por conta de outrém recebe entre 2.500 e 3.000 euros.

Portanto, ou bem que afirmamos que 66% dos portugueses pertencem à classe média-baixa e baixa (não sei onde categorizar os que aufiram menos de 301 euros) ou bem que o termo classe média é polissémico. Quanto a mim, e quanto ao INE, um salário líquido de 900 está acima da média nacional e deveria ser categorizado como classe média de pleno direito. Mas creio que os psicólogos de Coimbra devem ter horror só em pensar que alguém consiga viver com um tal salário mensal.
Em todo o caso, este é o país que temos; pode custar muito a gente como os jovens do CDS, ou Pedro Boucherie Mendes, ou ainda a estes psicólogos de Coimbra. Mas, quando reflectimos sobre o país e a sociedade, deveriamos ter mais em atenção os números reais e menos o meio que nos envolve.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A Igreja tem todos os direitos...

... e nenhuma obrigação. Mantendo-se à custa dos impostos de todos, não se importa de no entanto não manter pelo menos manter uma fachada de imparcialidade.

Habituados a reclamar das pretensas intromissões do Estado na vida das confissões religiosas, os pastores católicos espanhóis não hesitaram em apelar ao voto no PP
A ler, na Avenida Central

Verdades Elementares

A razão por que a civilização atingiu o seu ponto mais elevado entre os povos cristãos não é ser-lhe o Cristianismo favorável, mas o facto de o Cristianismo estar morto e já não exercer grande influência: enquanto exerceu a sua influência, a civilização manteve-se a um nível muito baixo entre os povos cristãos.

Schopenhauer

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Hillary, Obama e a Esquerda pós-materialista


Pude ver, na noite de quinta para sexta-feira, o debate entre Obama e Hillary. Partia com um apoio sincero mas periclitante a Hillary e terminei de ver o debate plenamente convencido. Hillary é aquilo de que os Estados Unidos precisam para se recompor. Obama não seria um mau presidente - de forma alguma seria uma catástrofe como qualquer republicano o seria - mas para quê ter-se um mal menor quando se pode ter um bem?

É um facto que Hillary tem tropeções no caminho, como o apoio à guerra do Iraque. No entanto, se fosse presidente ela nunca teria feito aquela guerra. E é um facto que nenhum político pode pretender (sem cair na demagogia) nunca ter errado.

E é no plano da demagogia que eu vi a face menos positiva de Obama. A sua afirmação de que tinha sido o primeiro a defender uma política global de integração dos imigrantes ilegais foi taxativamente desmentida por Hillary (e o oponente não contra-atacou, o que quer dizer alguma coisa). Já em 2004 Hillary tinha apresentado um projecto neste sentido.
Ainda no campo da demagogia, defender, como Obama defendeu, que os ilegais deveriam poder tirar a carta de condução é um contra-senso e, falando claro, uma idiotice.


Espanta-me que a Esquerda apoie tão vivamente Obama e arraste Hillary pela lama. A alegação de que ele é uma lufada de ar fresco é má. E a de que Hillary seja uma aristocrata é pior. Se ser abastado ou ser de uma família importante fosse critério para afastar alguém, então porquê o regozijo com o apoio de Edward Kennedy a Obama? Será que os Clinton são mais aristocratas que os Kennedy?
E simultaneamente porquê o silêncio face ao apoio de três jovens Kennedys à outra candidata?
E não será uma mulher-presidente também ela uma lufada de ar fresco?

Mas o que espanta mais no apoio da Esquerda a Obama é que na difícil luta por um serviço de saúde decente, a senadora Clinton está à esquerda do oponente. O debate foi claro a esse respeito e conquanto a proposta desta se coloque significativamente à Direita do nosso SNS, é no entanto a mais esquerdista das alternativas no espectro político americano. A meu ver, um sistema de saúde que articule universalidade, responsabilização do utilizador, solidariedade e sustentabilidade seria a melhor opção. Entre o sistema americano e o português, o nosso é indubitavelmente melhor (mais barato e mais eficaz, e por conseguinte mais eficiente). No entanto, como o provam as manifestações recentes, ele esconde os custos existentes, sendo a opacidade financeira fonte de exigências descabidas que dão azo a populismos variados. Portanto, um sistema que unisse a cobertura universal a uma maior individualização seria um sistema melhor. Este ponto intermédio que entre nós seria atingível criando individualização, Hillary pretende fazer no sistema americano gerando universalidade.


Eu que estou habituado a ser olhado como um salazaróide por todos aqueles que não são libertários de Direita (dado que mesmo a nossa Direita “normal” é economicamente estatista, quando não nas palavras, certamente nos actos) em qualquer discussão que envolva a Segurança Social ou o Sistema Nacional de Saúde, não posso senão olhar com curiosidade esta Esquerda que rejeita esta mulher apenas porque ela é esposa de um ex-presidente.

Esta curiosa posição só é atribuível, creio, ao pós-materialismo da Esquerda(*). Há uma disposição vazia, estética, superficial no apoio a Obama. O senhor pode ser mestiço (porque é que um filho de uma branca e de um negro há-de ser rotulado de negro, reproduzindo-se os preconceitos racistas a este respeito, como se um meio-negro fosse sempre negro e os meio-brancos não existissem, como se as gradações que a miscigenação produz não tivessem lugar?) e pode chamar-se Barack Hussein Obama.
Eu pergunto-me se um critério puramente estético (côr da pele e nome) é suficiente para sustentar uma posição política. Creio que não. Mas também ninguém disse que o grosso da Esquerda era campeã no que à profundidade da reflexão política concerne.


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(*) Eu acrescentaria também ao seu pós-feminismo, dada a irrelevância que a ponderação do elemento “género” lhe merece, ao contrário do elemento “raça”. Afastando-me agora das eleições e tecendo uma consideração mais genérica, de facto a maioria da nossa Esquerda contemporânea trata o feminismo (e o laicismo) a pontapé (excepto quando o inimigo é a Igreja Católica), não se importando de aplaudir a misoginia islâmica quando lhe percebe uma comunhão de sentimentos anti-americanos.