segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A verdadeira luta - Kulturkampf reinventada?

Em resposta ao que escrevi a respeito de Márcia Rodrigues, respondeu Miguel Portas

Ora, eu não disse que tinha que ver com a lei. E pouco me importa que os Estados Unidos tenham financiado determinados grupos - pouco me importa na medida em que eu não defino as minhas posições políticas em torno do que Israel ou os EUA fazem. Como não sou anti-americano, nem anti-semita (ou o seu eufemismo, anti-israelita) nem anti-árabe, mas sou anticlericalista, a mim interessa-me definir como posso aumentar as liberdades dos indivíduos e remeter a religião para um espaço confinado que não perigue critérios universais de dignidade humana.

De facto, os critérios por que me guio não são ocidentais. Se o fossem, eu defenderia que a mulher ficasse em casa ou houvesse tráfico de escravos. É essa a nossa tradição profunda, como é essa a tradição profunda dos muçulmanos. Os “julgamentos ocidentais” a que se refere são o produto de movimentos culturais que foram buscar menos contributos às tradições dos povos europeus que à produção intelectual do Iluminismo.
Como já deu para perceber, não sou pelo multiculturalismo, não sou nada pós-moderno e o relativismo causa-me asco. Cada cultura tem todo o direito de existir. Desde que não ponha em causa critérios éticos racionais e por isso universais.

É esta minha postura que me permite estar tão contra o financiamento americano dos talibans ou da Irmandade Muçulmana como contra o financiamento iraniano do Hezbollah, e tão contra o Hamas como contra os ortodoxos judeus.

Por detrás das barricadas que nos querem impôr, a verdadeira luta é entre os reaccionarismos e a defesa da Modernidade.

3 comentários:

Bianca Castafiore disse...

Igor, posso discordar de alguns pormenores, mas este é um belíssimo post!
Obrigada!

Igor disse...

;-)
Temos sobretudo de afirmar isto: a tolerância não é um exclusivo ocidental. Isto tem de ser dito tanto à direita, que entende o Ocidente como uma civilização superior, quanto à esquerda, que nos pretende sempre espezinhado por complexos de culpa estéreis.

Bianca Castafiore disse...

Exactamente: não podemos usar de dois pesos e duas medidas, sob pena de tratar os outros como sub-humanos!... Mas isto parece tão difícil de entender para certas cabecinhas!