sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Identidade(s)

Devido ao comentário da Shyznogud, uma referência às Identidades Assassinas de Amin Maalouf.
Em Les Identités Meurtrières, Amin Maalouf expõe um conceito de identidade que de alguma forma responde à problemática que Adela Cortina expõe a respeito da cidadania. De facto, a cidadania baseia-se em pressupostos que aproximam cada pessoa de um grupo mais vasto; em contrapartida, afasta de todo o resto da Humanidade. O que Maalouf ensaia é uma definição que, partindo da realidade concreta de cada indivíduo (do que ele é de facto e não apenas de qualquer construção legal – pertença a um Estado – ou cultural – pertença a uma Nação) faz com que cada um se aperceba da sua ligação efectiva ao mais amplo conjunto de pessoas possível. No limite (assim termina ele o seu livro e também para aí aponta Cortina) todos nos deveríamos sentir próximos de todos os outros seres humanos por sermos todos humanos, mas antes disso há outros caminhos que têm de ser construídos.

Para o autor, a identidade compõe-se de múltiplos elementos, embora não seja passível de se compartimentar. Em cada indivíduo uma multiplicidade de elementos é congregada num arranjo e numa dosagem absolutamente irrepetíveis. Cada indivíduo torna-se, consequentemente, único. Ninguém é igual a ninguém mais do ponto de vista identitário, nem mesmo quando se fala de indivíduos que partilham laços de sangue pois as vidas que seguiram foram distintas. Podemos afirmar que há muitas pessoas com as quais nos identificamos, mas nenhuma que seja igual a nós. Como consequência, conceitos identitários como o de nacionalidade não deixam de ser puras construções: prova disso mesmo é a facilidade com que, em alturas de crise, elas são destruídas[1].
Pode-se falar assim de uma genética da alma, ressalvando que o que é determinante na definição da identidade não são os factores biológicos, mas a própria vida: do nascimento à morte, a identidade não cessará de se alterar. Para que cada um possa encontrar a sua identidade, deverá realizar um exame de identidade, uma análise introspectiva dos múltiplos elementos que compõem a sua vida. Pela reflexão, cada um deverá constatar, reunir e aceitar todos os elementos que fazem parte de si.
Ora, quantos mais elementos cada identidade contiver, mais específica, mais única e paradoxalmente mais abrangente e mais cosmopolita se tornará. O indivíduo ficará assim ligado de uma forma inclusiva (procurando semelhanças com os outros) e não negativa (procurando uma tribo no seio da qual ele desapareça e que o distinga do resto da Humanidade). Em suma, podemos afirmar que o que nos torna únicos é a nossa riqueza identitária, não a nossa adesão artificial a uma qualquer característica isolada.
A perspectiva maaloufiana aproxima-se em muitos elementos da de Simmel, o qual vê a vida como um fluxo, um curso ininterrupto que tende a mostrar-se em formas, em descontinuidades que não obstante não perduram, reentrando no fluxo vital. Assim, o que é originário é a vida, é o orgânico, o mutável. Não obstante, a apreensão do mundo pelo homem só é possível mediante formas, dado que, enquanto ser limitado, não pode apreender a totalidade da vida, mas apenas partes dela – petrificações dela.
É desta forma que surge o que Simmel apelida de tragédia da cultura: o homem é um ser não só natural, mas também cultural e por isso produtor de formas que, nascendo da vida, tendem a autonomizar-se dela e a contrastar com ela. Torna-se, de uma certa maneira, de um retorno da vida contra si própria, de uma contradição entre ela e as formas que dela nascem. A tensão torna-se verdadeiramente patente quando as formas se autonomizam: ao se objectivarem, absorvem o indivíduo; quanto mais complexa for a cultura, mais limitado será o homem.
Em Simmel, a lei ética deverá corresponder à totalidade do indivíduo, à unidade que nele agrega a multiplicidade do seu ser e do seu agir: a ética tem de ser pensada para esta multiplicidade.

[1] Maalouf exemplifica com o caso bósnio, em que em cerca de quinze anos, um mesmo indivíduo pôde sentir-se enquanto socialista e jugoslavo, enquanto bósnio e muçulmano e enquanto bósnio e europeu. Em Ciudadanos del Mundo, pp 60 e 61, Cortina refere igualmente o carácter construído e inclusivamente imposto da nacionalidade.

3 comentários:

Bianca Castafiore disse...

Igor, gostei do que aprendi com este teu post. :) Eu conheço algumas coisas do Malouf, e aprecio-o muito. Gosto desta reflexão sobre a identidade e sua complexa rede. É uma questão que me diz muito.
Levo daqui muito material para pensar!...
Obrigada!

Shyznogud disse...

Eis o exemplo perfeito daquilo q eu gosto na blogosfera e q a vox populi tão bem descreve qdo fala em cerejas e conversas. Foi um prazer ler este post.

Igor disse...

Olá a ambas,

fico feliz por encontrar mais pessoas que gostam de Maalouf. A par de Oscar Wilde, Maalouf é o meu escritor favorito. Li todos os livros e como não queria esperar pela vinda do libretto Adriana Mater (tal como o Amour de Loin, trata-se de uma opereta), encomendei-o assim que pude e após receber o e-mail do site de fans do Maalouf a avisar do lançamento do livro.

Não é que ele trate de muitos temas, os livros andam sempre em torno do mesmo. Mas, precisamente, é isso (e é este conceito de identidade) que me leva a procurá-lo sempre. Também não creio que ele me tenha dito algo de novo para mim: de facto, eu acho que as paixões literárias não nascem da novidade mas do encontro com verdades que já estavam connosco.

A diversidade de identidades também me diz muito. Aliiás, já muitas vezes pratiquei o "exame de identidades" e é fantástico a quantidade de coisas que descobrimos (a respeito de nós) quando tentamos aprofundá-lo.