terça-feira, 7 de agosto de 2007

O interesse próprio e a imbecilização de Kant

Através do Le Paradis Perdu descobri um blog a não perder. Sobretudo, e porque vem de encontro à discussão que tenho desenvolvido nos últimos dias, gostaria de chamar a atenção para esta entrevista a António Damásio, autor que merecerá muitas críticas, mas também muito elogios.
Pode isto parecer que estou a virar o bico ao prego: ele afirma que o calculismo (ainda que não o extremo), via emoções, é determinante na definição das nossas escolhas, e eu estou a dizer a aproveitar o artigo para afirmar o contrário.
Não, não é isso. Vou transcrever partes do artigo para depois explicar-me.


o investigador põe em causa a filosofia kantiana e a sua visão da racionalidade, inclinando-se a pensar que as provas científicas de que já dispomos tendem, pelo contrário, a confirmar as ideias de David Hume, filósofo do século XVIII cuja ética tinha por base as emoções.
Pensa que, com base no tipo de trabalho que desenvolve, as neurociências serão capazes de dizer qual dos dois filósofos - Hume e Kant - tinha razão na sua visão do funcionamento do raciocínio humano? Penso. E a resposta será que ambos tinham razão, em função das circunstâncias. Mas no plano geral, Hume está mais próximo da minha visão dos seres humanos - embora não totalmente.
Pode-se dizer que os resultados que obtiveram agora mostram que os seres humanos não são biologicamente aptos a terem raciocínios puramente utilitários? Efectivamente, o nosso estudo sugere que os humanos rejeitam as formas extremas de calculismo utilitário. Essa rejeição está ligada à produção de emoções sociais. Penso que esta forma mista de juízo moral, que alia a razão à emoção, é a manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução (tanto biológica como cultural).

Ora bem, o que nos diz Damásio? Que há um misto de interesse pessoal e ponderação social nas nossas escolhas. Há para além disso um misto de emoção e razão, o que o leva a afirmar que Hume estaria mais próximo da verdade que Kant.

Sem querer carregar na arrogância, Kant já dizia isso há mais de dois séculos atrás. De facto, o que é o homem nouménico e fenoménico senão as duas faces que cada um de nós tem? Kant não dizia que nós éramos seres puramente racionais. Ele dizia que tínhamos na nossa natureza essa faceta, à qual se somava o lado emocional. Creio que a imbecilização a que a visão de Kant é muitas vezes submetida deve ser contestada. Razão e emoção, noumenon e phainomenon, são palavras diferentes para realidades equivalentes. No meio está precisamente o entendimento (Verstand), que não é a mesma coisa que razão (Vernunft). O que nós, seres concretos, somos para Kant é entendimento, misto de razão e emoção.

Pelo contrário, para as correntes que partem do utilitarismo o calculismo extremo é entendido não só como inevitável como (ou porque é inevitável, ou porque é de facto bom em si) desejável. A única forma de construir sociedades é cada um limitar-se à prossecução dos seus interesses particulares. A natureza social do homem é assim apagada.
É curioso que, para correntes que se pretendem basear apenas nos dados da realidade, acabem por se limitar apenas a uma dimensão da natureza humana (o ser em si, sem contexto) e a uma visão completamente abstracta do Homem.
É enfim curioso que o idealismo acabe sendo mais realista que os supostos realismos. A imbecilização a que os utilitaristas radicais pretendem votar o idealismo republicano acaba por cair por terra, e cair da forma mais vergonhosa: pela mão dos utilitaristas moderados (que querendo ou não terminam concordando com Kant).

16 comentários:

Joao Galamba disse...

rejeito os dualismos kantianos e acho que a sua filosofia foi adequadamente criticada e transcendida por Hegel. sobre isso gosto de Hegelianos como Pippin.

Faz-me alguma confusão ver alguém como Damasio (um naturalista) falar da razão. A razão deste não é a razão dos filósofos, e muito menos a razão de kant.

cumps,
joao

Igor disse...

O dualismo de Kant parece-me ser instrumental. No fim, ele afirma que somos as duas coisas. Se hoje não temos problemas em falar de razão e emoção, qual a dificuldade em assumir a razão e a sensibilidade kantianas (ou, já agora, a razão sensível que é o seu "entendimento")?

umCorpoEstranho disse...

"Ora bem, o que nos diz Damásio? Que há um misto de interesse pessoal e ponderação social nas nossas escolhas. Há para além disso um misto de emoção e razão, o que o leva a afirmar que Hume estaria mais próximo da verdade que Kant.
Sem querer carregar na arrogância, Kant já dizia isso há mais de dois séculos atrás. De facto, o que é o homem nouménico e fenoménico senão as duas faces que cada um de nós tem?"
Acho que se está aqui a fazer uma confusão entre dois planos distintos. antónio damásio fala num plano moral e o plano moral, para kant, é o plano do dever no qual não deve interferir o interesse pessoal (ainda que este exista).
para kant, uma acção só tem valor moral quando realizada por puro respeito à lei que nos é imposta pela nossa razão - o que me parece, de facto, incompatível com a intervenção das emoções descrita por damásio.

Bianca Castafiore disse...

Damásio não percebeu sequer Descartes, para quem pensar também é SENTIR. Admiro profundamente o seu trabalho em neuroinvestigação, mas definitivamente devia deixar de meter o seu nariz científico nos sistemas filosóficos... que é isso de TER RAZÃO em filosofia?... os filósofos não têm nem deixam de ter razão: formulam teses possíveis que em princípio inspirarão alguns de nós, pelo menos. Que nos darão uma plataforma para entender o mundo e encontrar o nosso lugar nele. Toda a gente parece esquecer que Kant não negou que temos corpo e DEVERES INDECLINÁVEIS PARA COM ESTE.. não é nenhum asceta recusando importância ao corpo. Que os princípios sejam independentes das emoções não impede que as emoções façam parte de nós. E princípios universais não podem depender de emoções pessoais e particulares.
Além disso, João Galamba tem razão quando diz que estamos perante a confusão de dois planos quando os cientistas falam da razão dos filósofos. Pior: dum modo geral, pensam que estão por cima e acima dos conceitos filosóficos, em vez de perceberem que há uma diferença e que seria necessário entenderem-na se querem falar dela.

Igor disse...

No entanto, Kant reconhece pelo menos quatro "noções estéticas preliminares da receptividade do espírito aos conceitos de dever", sentimento moral, consciência moral, filantropia e respeito. Eu acrescentaria uma quinta, a religião, que ele exclui (e ainda bem) da filosofia moral mas que é mais um mecanismo emocional que conduz ao respeito da lei moral.

De facto, se houvesse um puro ser nouménico (que não há nem Kant diz que há) ele dispensaria estas noções estéticas, estes artefactos. No entanto, como seres sensíveis que somos precisamos de instrumentos que, tocando na nossa sensibilidade, nas nossas emoções, nos falam despertar para a razão (e aqui sim, a razão de Kant não é confundível com alguma da noção hoje existente de razão enquanto cálculo. De facto, é o entendimento que necessita dos artefactos para vislumbrar as atitudes "racionais")

Se dissermos que a razão - enquanto cálculo - não corresponde à definição kantiana estaremos a dizer uma verdade. No entanto, é preciso provar que é a noção presente de racionalidade enquanto racionalidade estratégica que está correcta, contra todas as outras definições de racionalidade possíveis, incluíndo as várias racionalidades de um tecnocrata como Weber.

Por fim, acho que a assunção por Damásio do carácter misto das decisões humanas confirma o aparente dualismo kantiano. Digo aparente apenas porque, como já disse, me parece que ele é sobretudo operativo, à semalhança dos ideais-tipos: não existem, são simplificações que nos permitem comprrender a realidade.

Igor disse...

Bianca, confesso que nunca li nenhum livro do Damásio. No entanto, quem já leu e percebe imensamente mais que eu de filosofia (a minha orientadora) confirma o que dizes: ele não percebeu Descartes. Não deixa de ter um trabalho notável, mas ninguém pode estar (felizmente) sempre certo nem dizer coisas sempre acertadas.

A entrevista que li parece-me denunciar em parte também alguma incompreensão de Kant, que em momento algum afirma que o homem é pura racionalidade. O seres puramente racionais são abstracções e servem para delimitar sem dúvida o campo moral. Por exemplo, por que deve o homem ser um fim em si mesmo e não uma formiga? O que os distingue? Para Kant, é a racionalidade. Aliás, ele afirma que qualquer ser racional é um fim em si mesmo (humano ou não).
Se os ovnilogistas apanham isto...

X-D

Bianca Castafiore disse...

É , Igor... eu li todas as obras de Damásio, salvo erro, disponíveis por cá, e acho que valeu a pena. Há descobertas extraordinárias no campo específico da neurocoisa... :)
Mas irrita-me quando as pessoas pensam que filosofia é conversa de café e que podem usar os conceitos como se eles não fossem ferramentas especificamente desenvolvidas por cada filósofo na sua demanda de um sentido. Falar de Descartes (que a propósito detesto cordialmente!) sem perceber que aquele PENSAR dele é um conceito muito preciso que envolve todo o conjunto de informações intelectuais e sensoriais disponíveis no entendimento, é irritante; falar nisso e não perceber que ele está a pensar dentro de um universo em que a INTUIÇÃO RACIONAL EXISTE (ao contrário do que acontece em Kant) é hiper-irritante, porque o "penso logo existo" não é uma imbecilidade, mas o resultado de um pensamento coerente e estruturado, e só dentro desse contexto pode ser compreendido. O facto de eu achar esse caminho desinteressante não lhe tira valor.. basta ver os frutos que deu ao longo dos séculos seguintes. :)
É esta sensibilidade que António Damásio não tem. E se calhar não tinha que ter, o pior é que ele se mete em campos onde é necessário TER! ;)

eva disse...

Novamente um muito bom (e útil) post. Kant é de facto um dos filósofos pior compreendidos na actualidade. A sua tese (refere ter uma orientadora), é sobre ele? Já agora fiquei curiosa.

Igor disse...

Olá Eva, a minha tese não é sobre Kant, é uma tese algo marginal em Filosofia mas eu próprio tenho tendências para a marginalidade, lol (de facyo, não sou de Filosofia, mas fui aí parar). Nos meus links há um grande número de sítios sobre Ética Empresarial, a minha tese é justamente sobre esse tema. A minha autora de base, uma filósofa espanhola é no entanto uma "descendente" de Kant. Mas sem dogmatismos: se parte de Kant, de Habermas e Apel, não rejeita, por exemplo, Hegel. É muito ecléctica, o que me apaixona. Ao contrário do que o meu blogue possa fazer parecer, não tenho nenhuma fixação dogmática em Kant. Entendo-o como uma boa base, mas gosto das misturas. Aliás, pelo que percebo do João Galamba, e não sendo um kantiano, acho que concordamos sobre isso. Não ter medo dos "seres" híbridos é uma boa forma de evitarmos dogmatismos.

Igor disse...

Olá Bianca
concordo plenamente. Há alguma tendência para ler determinados autores com alguma leviandade. Isso é particularmente verdadeiro em autores que de alguma forma estejam na linha platónica (sim, eu sei, é sempre complicado fazermos estas divisões, mas servem para podermos pelo menos tentar ter fios condutores). Há sempre uma tendência para tratá-los como se fossem semi-loucos ou então fanáticos, por contraposição aos autores "sérios" da linha aristotélica.
Confesso que Descartes também não me dá grande prazer. Teve coisas muito positivas (o Pedro Arroja, pelos motivos opostos, detesta-o) como o desafio que a sua obra foi à Igreja. O António Sérgio tem um artigo muito interessante em que aborda parcialmente esse tema, o "Cartesianismo Real e Cartesianismo Ideal". No entanto, ele, como Bacon, assusta-me um pouco. Para lá do que ele defendeu ou escreveu, há também as consequências das suas obras. E posso estar errado, mas creio-o como parte de um processo de evolução tecnocrática.

Joao Galamba disse...

O que é engraçado em Damásio (e quase toda a ciência cognitiva, parece-me) é que o seu paradigma é profundamente ...Cartesiana. A noção de mente, a relação sujeito-objecto, representação da realidade, a consciência como se fosse um facto objectivo passível de estudo, etc... são profundamente cartesiano. Se quisermos, o pensamento de Damásio (e o de todos os filósofos até Hegel) depende de uma ontologia que Hegel estilhaçou (na minha opinião).

cumps,
j

J.A. disse...

Bem, se cada um, na sua caixinha conceptual, se agarrar ferverosamente à definição exacta (para ele) de cada conceito, então a comunicação é impossível.

Damásio tem feito descobertas científicas (testáveis, replicáveis, etc, todas essas limitações) que depois tem divulgado com recurso a metáforas "filosóficas" algo simplistas, é verdade, tal como se tem aventurado com papers em áreas distantes das suas (Economia, por exemplo). Isto, como se sabe, é terreno minado: pode o cientista colocar o pé em território estrangeiro? Corre o risco de ser excomungado.

(Os filósofos nunca tiveram problemas em deambular pelos terrenos da ciência, ou da religião. Claro, há essa hipótese da Filosofia ser o "chapéu" de tudo. Mas será?)

Damásio coloca os mecanismos da emoção ao mesmo nível dos mecanismos da razão, nos humanos (atenção, não é "emoção" no sentido da exaltação, mas um mecanismo que participa sempre no comportamento do indivíduo, mesmo quando este age calmamente, ponderadamente). Isso é um passo bastante perigoso para a matriz da Ciência, alegadamente puramente racional. Tendo metido a cabeça de fora dessa esfera, não admira que ele se agarre a outras pontas. Por isso, vejam lá, caros filósofos, não tratem mal o homem.

Bianca Castafiore disse...

João Galamba, achei muito interessante a tua última observação.
Independentemente da minha falta de amor a Hegel, é muito pertinente o que dizes sobre a postura cartesiana destes cientistas.
É uma constatação DELICIOSA no seu absurdo paradigmático!
eheh

Igor disse...

JA,
não creio que ele tenha sido maltratado. Creio que todos concordamos que o seu trabalho é muito importante. Isto não deve no entanto impedir de repudiar alguns lugares-comuns. Neste caso em particular, esse repúdio até é motivado não só pelo erro em si (a presunção que Kant defendia que a decisão moral no homem era puramente racional) como pelo facto de o erro motivar uma conclusão necessariamente também errada no que respeita à contenda entre utilitaristas e racionalistas. O que Damásio faz é dizer que Hume está mais próximo da verdade científica (actual) baseado numa concepção pervertida da filosofia kantiana. Se a conhecesse um pouco melhor (não era preciso ser um especialista, eu não me considero um especialista) saberia que afinal as conclusões a que chegou vão de encontro à Verstand (ao entendimento).

O artigo pareceu-me interessante porque, precisamente, põe em causa dogmas (quase) absolutos que vigoram em muitas áreas (psicologia ou economia por exemplo) e que do Homem pouco mais fazem que um animal em que os instintos são, quando muito, sublimados. Defender isso não é despido nem de preconceito ideológico (o pessimismo a respeito da natureza humana é o ponto de partida do conservadorismo) nem de consequências práticas.

Posso estar errado, mas Damásio acaba por pôr isso em causa e apontar para a capacidade de nos elevarmos um pouco acima da animalidade do egoísmo.

Joao Galamba disse...

Se o conceito de "razão" e "sujeito" de Kant não são empíricos como é que a ciência empírica pode invalidar a sua posição? O sujeito transcendental de Kant é uma necessidade da sua filosofia porque ele concebe o mundo empírico como estando sujeito à causalidade. Mas nada disto é "empírico". A filosofia crítica de Kant, a dedução transcendental e coisas do género não são áreas que Damásio sequer se aproxime. Eles partem de vocabolários muito diferentes e tratam de temáticas distintas. Eu acho que a ontologia que nos força a enveredar pelo naturalismo é pobre e não consegue captar fenómenos como o "significado e linguagem" e o "existir". Não existe argumento empírico que consiga ultrapassar diferenças ontológicas radicais.

Bianca Castafiore disse...

João Galamba, mais uma vez falaste bem! :) A tua abordagem parece-me muito produtiva.