sábado, 11 de agosto de 2007

Natal_idade (ou nem tanto)

Hoje ao ler uma crónica de um pastor baptista num jornal local tive uma dupla reacção de aprovação e de repúdio. Aprovação porque, citando Pedro Lomba, dizia algo que me parece evidente: a quebra da natalidade não é explicável (pelo menos, exclusivamente) pela falta de condições económicas, mas sobre tudo porque vivemos numa sociedade essencialmente hedonista que rejeita o sacrifício e prefere o prazer. Aliás, o fenómeno está longe de ser novo. Lembro-me de estudar no 7º ano de escolaridade textos do período de decadência da Grécia clássica em que se lamentava o facto de as famílias terem apenas um filho, para a ele passarem todos os bens e para assim concentrarem a riqueza e terem melhor vida. Soa a novo o discurso mas é velho. Pelo menos vinte e três séculos terá com toda a certeza.
Sendo eu anticlericalista até à medula, tendo a concordar com o discurso que por vezes oiço a alguns clérigos. Há uns anos na televisão um padre afirmava que hoje em vez de filhos têm-se carros. No ano passado, no casamento de uns amigos, outro padre afirmava que o casamento não é uma casa bonita e espaçosa, mas é essencialmente uma casa comum, isto é, uma vida comum. Bom, e como poderia não concordar com isto? Independentemente de terem sido ditas por padres, estas afirmações são meras constatações. Concordar com isto não implica concordar com outra das afirmações do último padre, como por exemplo que o casamento era para a vida toda e entre um homem e uma mulher.


O discurso vitimizador do "os jovens hoje não têm condições para ter filhos" é normalmente uma grandessíssima mentira. Há hoje tantas ou mais condições que as que havia há vinte ou trinta anos. As causas fundamentais da quebra da natalidade serão culturais. Estamos instruídos demais para aceitar que um filho nosso ande na rua a brincar ao berlinde ou faça feridas nos joelhos por saltar de árvores. Estamos, também, demasiado aterrorizados com o que os meios de comunicação social nos mostram: desesperamos por ver guerras, fome, violência, pedofilia. Tudo isso sempre houve, mas nós agora vemos. Estamos demasiado humanistas para permitir a relativização da vida que ranchadas de filhos permite (já repararam como só em países com baixas taxas de natalidade é que as crianças são efectivamente protegidas? o que os media nos mostram é belgas a correr atrás de criancinhas, mas já alguém se questionou seriamente sobre as raparigas que são violadas e obrigadas a casar com velhos em África e no Médio Oriente?). Estamos, enfim (e foi por aqui que Lomba e o referido pastor pegaram) demasiado infantilizados para prescindir de um constante Natal, de um consumo permanente e crescente de bens de utilidade tanto mais duvidosa quanto maior a sua quantidade e variedade.

Dito isto, vamos ao repúdio que senti pela crónica. Em parte, o que acabei de escrever já faz intuir algumas das críticas que me merecem aquela abordagem. De facto, pegaram apenas em uma das questões e esquecem todas as outras. A crítica ao hedonismo é correcta, mas se vai sozinha tresanda a moralismo barato. O hedonismo é apenas uma das características culturais da nossa sociedade. É um facto que a instrução ou a consciência social também influem - e negativamente - sobre a natalidade. No entanto, não é líquido que o facto de termos jovens mais instruídos provoque uma queda estrondosa da natalidade - 1,4 filhos por mulher em idade fértil é francamente pouco. Para produzir isto é preciso um pouco mais. E é aqui que factores económicos e culturais se fundem.

Creio que o que temos é uma crise de futuro. Não é só o mundo que nos parece mais negro. É a vida que nos parece impossível. Como ter filhos se boa parte dos jovens trabalha a recibos verdes? Como ter filhos se as empresas assim que podem vêm-se livres das grávidas? Mais que o problema em si (a precariedade ou a discriminação laboral) são as repercussões psicológicas. Parece que a vida não anda nem vai andar para a frente. Parece que a festa acabou e os nossos pais estão apenas a aproveitar os restos - a roer os ossos da segurança social e a impôr-nos o pagamento das suas sumptuosas reformas ao mesmo tempo que nos condenam a salários decrescentes e contratos "de prestação de serviços" que apenas camuflam relações laborais tão desequilibradas que só não lembram o século XIX porque ainda há algum pudor e o tipo de trabalho também mudou.
Perante a perspectiva de não poder ter uma vida independente, a escolha é mesmo a dependência total. E aí temos o infantilismo de que fala Lomba, os eternos adolescentes, ou pelo menos os adolescentes até aos 30. Uns por escolha própria, mas se o generalizado hedonismo não fosse apenas a máscara sorridente do desespero pessimista, sairiam os jovens de casa dos pais tão tarde?
Tenho sobre esta questão uma posição semelhante ao aborto. Não podemos obrigar ninguém a ter filhos (nem tampouco a deixar de os ter) mas creio que devemos evitar que alguém deixe de ter filhos por falta de condições (económicas e não só). Não podemos intervir culturalmente, mas se punirmos empresas que discriminem grávidas, generalizarmos creches acessíveis a todos ou criarmos um sistema de ensino que garanta igualdade de oportunidades e não faça o sucesso depender da ascendência (relembro o texto grego que li aos 13 anos) estaremos a dar sinais diferentes dos que hoje damos. E, sendo esta uma intervenção económica, é tão certo que produzirá uma atitude social diferente face à procriação quanto o seu pressuposto de partida (a redução dos constrangimentos à opção de ter filhos e não a manutenção de uma ordem social morta e despida de significado para os jovens de hoje) é também ele culturalmente distinto.

2 comentários:

ki disse...

"Parece que a festa acabou e os nossos pais estão apenas a aproveitar os restos - a roer os ossos da segurança social e a impôr-nos o pagamento das suas sumptuosas reformas ao mesmo tempo que nos condenam a salários decrescentes e contratos "de prestação de serviços" que apenas camuflam relações laborais tão desequilibradas que só não lembram o século XIX porque ainda há algum pudor e o tipo de trabalho também mudou"

Criticas? que sugeres? Explica-te melhor.

bjs
ki

Igor disse...

No que diz respeito aos contratos, a minha solução será tornar o contrato de trabalho normal mais livre (ou seja, não forçar o empregador a ficar com o trabalhador "para sempre") e limitar os recibos verdes e o trabalho temporário às actividades e situações nas quais eles fazem sentido.

No que diz respeito à SS não tenho resposta na ponta da língua. Uma coisa eu sei. As reformas (em particular as mais altas) têm de baixar e a idade mínima para a reforma tem de aumentar. Isso é limpinho. Para além disso, tendo nós um sistema que depende da solidariedade intergeracional e não da responsabilidade individual, será justo que o número de filhos seja ponderado na reforma.