quinta-feira, 26 de julho de 2007

Fukuyama: A Débâcle Conservadora e o Idealismo Progressista

Francis Fukuyama fartou-se de dizer disparates e fazer projecções falhadas. A História não acabou (bem pelo contrário, está infelizmente mais viva que há dez anos atrás) e o Iraque foi um desastre. Aliás, foi o resultado da invasão do Iraque que fez com que Fukuyama mudasse de opinião e tivesse escrito o livro America at the Crossroads: Democracy, Power, and the Neoconservative Legacy. Vou esquecer o facto de Fukuyama ter dito que, mesmo que o Iraque não tivesse qualquer ligação com o movimento terrorista que produziu o 11 de Setembro, deveria ser invadido. Vou centrar-me no essencial, que é a sua (nova) mensagem. A mensagem para ele é nova, mas para outras áreas políticas que não a conservadora, é o ponto nevrálgico da sua visão da política internacional, sendo por isso o que andam a dizer há anos durante os quais foram tratadas como utopistas.
Em boa verdade, esse utopismo é para mim prova de um grande pragmatismo, mas já lá vamos. Antes de prosseguir, queria só fazer uma destrinça entre as três principais correntes de política externa americana: o idealismo conservador, o realismo e o idealismo progressista ou liberal. São divisões que obviamente não são estanques. O idealismo conservador, que teve como período de maior esplendor a presidência Reagan, rege-se por uma perspectiva musculada e militarista da política externa. Visa também objectivos claramente ideológicos (por exemplo, "promoção da democracia", embora isso muitas vezes significa o derrube de democracias em países satélite que estejam a seguir políticas de esquerda, substituindo-as por ditaduras) O actual presidente Bush é um seguidor desta corrente. O realismo, que atingiu o apogeu com Nixon e Kissinger, filho da realpolitik europeia (de quando a Europa tinha poder militar) defende uma abordagem "pragmática" das relações internacionais: as potências são as que existem, vamos tentar conviver com elas. Isso levou a uma aproximação à China de Mao e a um relativo "baixar de braços" face à URSS. Por fim, o idealismo progressista caracteriza-se por uma defesa da cooperação, do direito internacional e da aposta no soft power (no poder infra-estrutural) em vez de optar pela via belicista. O representante maior será Wilson, embora também tenha tido outros períodos, como Kennedy ou até Bush pai (de facto, a invasão do Iraque foi assente numa busca de compromissos de uma aliança multinacional, que é completamente distinta da política seguida pelo filho).

Precisamente, vem de há uns dois anos a esta parte Fukuyama a defender um wilsonianismo realista. É um facto que Wilson pecava por excesso de idealismo, razão pela qual falhou perante as potências europeias, elas por seu turno excessivamente realistas (e não no sentido americano) - no entanto, este acrescento da palavra "realista" mais parece dificuldade do autor em aceitar o erro passado.
Em todo o caso, o que interessa é que Fukuyama cedeu à evidência: a força bruta não resolve em si mesma nada e, bem pelo contrário, pode ser completamente contraproducente. O que será pois necessário fazer, será mudar de paradigma de política internacional. Quanto aos Estados Unidos, isso será um problema fundamentalmente deles. Agora, que deve a UE fazer? Entendo que há simultaneamente três coisas que se pode fazer, e nenhuma delas é propriamente inovadora. Há que utilizar o poder infra-estrutural, há que garantir a capacidade de utilizar o poder coercivo e há que não cometer determinados actos. E sim, isso também é uma forma de exercer poder.

Dentro do poder infraestrutural (soft power) a União Europeia vai ter de ser capaz de abrir os cordões à bolsa. Os países ACP - aqueles com os quais a Europa tem maior relação entre os países sub e em desenvolvimento - e em particular os países africanos deverão ser alvo de uma política mais criteriosa e coordenada de ajudas ao desenvolvimento. Há algumas coisas que terão de ser feitas - melhoria de transportes e comunicações, sem as quais a economia desses países continuará estrangulada - mas muito mais importante que isso há o próprio cerne dos grandes confrontos políticos actuais. Os confrontos não se dão hoje entre exércitos nem tampouco entre economias nacionais. É na cultura que se joga tudo. Quantas madrassas - que hoje no Sahel estão a formar em fornadas de centenas e milhares de crianças os terroristas de amanhã - seriam fechadas se a Europa financiasse a construção de escolas e mantivesse parte dos custos com os professores? O mundo islâmico tem uma política muito clara a respeito de África, tal como a China. Ambos estão a sedimentar o seu poder em países em que tudo está por fazer e que a qualquer momento poderão pender para qualquer potência. Esta é, para mim, a primeira trave mestra de um idealismo progressista. Que, como se pode ver, não tem nada de utópico e muito de realista.

Quanto ao poder coercivo (hard power, neste caso poder bélico) ele deve servir essencialmente não para ser utilizado sempre que um governante extravagante chega ao poder, mas para garantir que determinados procedimentos internacionais são respeitados. Isto implica que este poder possa ser exercido, e até tenha de o ser em determinados casos - mas apenas em último recurso. Fukuyama, a respeito dos Estados Unidos, pretende dizer isso mesmo. No caso europeu, no entanto, teríamos de pôr a lógica um pouco ao contrário: não ter medo de, em casos extremos, usar o poder bélico. Foi a cobardia europeia que levou a mais de um massacre na Bósnia (pode alguém mentalmente são enviar capacetes azuis desarmados ou com ordens para não disparar?). Em todo o caso,o que deve ser retido é que o poder bélico deve ser um meio de garantia do direito internacional e não um fim em si.


Por fim, a omissão é a minha parte favorita. Digo favorita apenas porque é aquela que é menos referida. De facto, pode-se fazer imensas intervenções humanitárias. Pode-se construir centenas de escolas. Se a economia dos países subdesenvolvidos não puder arrancar, nada feito. A maior ajuda que a Europa (e os Estados Unidos) poderia dar, e simultaneamente a mais benéfica de forma imediata para os cidadãos europeus seria pôr um fim ao regabofe chamado PAC, deixar de subsidiar os produtos agrícolas, deixar que os agricultores europeus (a maior parte dos quais está longe de ser pobrezinha) mostrem o que valem e se conseguem ou não ser competitivos, e deixar entrar os produtos agrícolas dos países ACP. Enquanto isto não acontecer, não haverá ajudas internacionais que valham ao Terceiro Mundo, que continuará a endividar-se e a ser governado por elites cleptocráticas sempre amigas dos mais obscuros interesses políticos (ocidentais e não só).


No fundo, foi preciso andarmos mais de dois séculos para chegarmos à mesma conclusão a que os iluministas já tinham chegado. A paz depende de três coisas: instrução universal, direito cosmopolita e comércio livre.

2 comentários:

pedro silva disse...

Olha não concordo com uma parte disto, mas já cá venho....

Bianca Castafiore disse...
Este comentário foi removido pelo autor.