terça-feira, 31 de julho de 2007

Literatura, Leitura e Política

acho piada à dissociação entre obra e ideologia. É possível tal coisa no mundo da literatura? É como ler o mein kampf e dizer que as políticas de pleno emprego são admiráveis, e dizer-se admirador do modelo social.
Filipe Melo Sousa

Comparar obras literárias com livros políticos? Isso faz lembrar a PIDE, que levava "A Capital" do Eça das bibliotecas dos liceus porque confundiam com "O Capital" de Marx.

Esta não saíu nada bem. Por vários motivos. Primeiro, porque está visto que a afirmação é descabida. Segundo, porque o autor da frase ou não lê romances, ou então deve ter muito trabalho a procurar apenas literatura de anarco-capitalistas, o que não só deve ser tarefa muito difícil como (se houver algum escritor anarco-capitalista) deve ser uma seca tremenda. Pior que o Saramago. Já estou a imaginar.

O homem aproximou-se da mulher e tentou roubar-lhe um beijo, tal qual o vil Estado burocrático-socialista rouba impunemente os rendimentos dos indivíduos. A mulher resistia e tentava desviar os seus lábios para o off-shore do amor.

Sim, isto pode não estar perfeito - se calhar, deveria inverter os papéis, porque isto de apresentar a mulher como um ser espezinhado pelo machismo deve ser pecado à luz do anarco-capitalismo, assim uma espécie de desvio feministo-socialista. Mas creio que a ideia fica.

Sendo eu uma pessoa que todos os dias pensa e lê sobre política, há mais vida para além dela. E mesmo que não houvesse, não é preciso estar confinado nas nossas leituras aos nossos quadrantes ideológicos. Aliás a única forma de termos um discurso coerente e racional é ler o máximo de perspectivas distintas. Das duas uma, ou mudamos de opinião porque concluímos que estávamos errados, ou mantemos a nossa opinião, mas desta feita mais sólida e mais nítida - fortalecemos a nossa segurança nas nossas crenças e ganhamos argumentos que antes não tínhamos.


Todos os que se resumem às leituras oficiais ficam iguais aos camaradas do Saramago. Com a desvantagem face a este último de mal saberem falar, quanto mais escreverem romances.

2 comentários:

Filipe Melo Sousa disse...

LOL, não tenho nada contra a publicidade ao Saramago em blogues pessoais. Tenho contra o facto desta ser feita à custa do meu bolso. Eu pessoalmente não gosto nem da pessoa nem da obra. Obviamente as ideias e os juízos de valor da sua obra são biased, e incutem subliminarmente, e mesmo abertamente, ideias com as quais não concordo, e que não são de todo inocentes.

Um juízo de valor então (já que me foi pedido) em relação às mulheres: de facto tenho mais facilidade em entender o universo masculino. Os homens são mais fáceis de ler do que as mulheres. Pois após duas palavras, percebo imediatamente se existe simpatia de parte a parte, ou se é melhor cada um seguir caminhos separados. Já as mulheres são muito bicudas. O cenário segundo o qual passam a vida espezinhadas é algo ao qual me tenho habituado. Não é partilhado pela maioria das mulheres, mas existem de facto algumas que atribuem a tal culpa para todas as suas contrariedades.

Depois uma que me mata é ouvir dizer que são mais sensíveis que os homens, e que os homens nunca as entendem. Enfim.. só se for sensibilidade para entenderem as suas misérias que são um pouco todas iguais entre si. Afinal foram os insensíveis dos homens que produziram a integridade das grandes óperas, conceitos arquitectónicos, desportos.. e tudo aquilo que de facto é belo.

Mas segundo o parecer o Igor, é essencial participar das sessões das carpideiras feministo-socialistas, de modo a poder ter um dia um discurso coerente. Boa sorte ;)

Igor disse...

Pessoalmente, também não gosto da pessoa, e quanto à obra, de três que tentei ler só consegui acabar um livro. Agora, que ideias é que se incutem subliminarmente no "Memorial do Convento" ou em "Todos os Nomes"?

Quanto ao feminismo, não, não simpatizo com a choradeira. O que quis dizer com essa passagem foi que pessoas que vêm política e ideologia em toda a parte acabam por fazer interpretações que não faziam parte da intenção. De facto, quanto escrevi aquilo não me passou pela cabeça qualquer guerra dos sexos. Quando terminei, achei que poderia ter essa interpretação, e outra ainda, esta se fosse dita por uma feminista radical: a de que eu era um porco fascista e sexista guiado por preconceitos de género que me levavam a colocar a mulher na posição submissa e o homem na dominante.

Como vez, Filipe, um texto pode ser interpretado de formas diferentes. Ao contrário do que os fanatismos de todas as colorações querem fazer crer, o mundo pinta-se de mais tons que o preto e o branco.

:-)